O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é da terra à terra deve voltar.
Gottfried Benn
in A Alma e o Caos - 100 poemas expressionistas
Relógio D` Água, 2001
Tradução de João Barrento
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Restaurante
O sujeito lá do fundo pede mais uma cerveja,
para mim ainda bem, assim não preciso censurar-me
por também sorver uma nessa altura.
Pensa-se logo que se está contaminado,
eu li mesmo numa revista americana
que cada cigarro encurta a vida em trinta e seis minutos,
eu cá não acredito, possivelmente a indústria da coca-cola
ou uma fábrica de pastilha elástica estava por detrás do artigo.
Uma vida normal, uma morte normal
também não é nada. Também uma vida normal
leva a uma morte doente. Sobretudo a morte
não tem nada a ver com a saúde e a doença,
serve-se delas para os seus próprios fins.
O que é que você acha: a morte nada tem a ver com a doença?
Quero dizer: muitos adoecem sem morrer,
portanto aqui há qualquer coisa diferente,
um fragmento de dúvida,
um factor de incerteza,
a morte não está claramente delimitada,
também não tem foice,
observa, espreita do canto, refreia-se mesmo
e é musical numa outra melodia.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
para mim ainda bem, assim não preciso censurar-me
por também sorver uma nessa altura.
Pensa-se logo que se está contaminado,
eu li mesmo numa revista americana
que cada cigarro encurta a vida em trinta e seis minutos,
eu cá não acredito, possivelmente a indústria da coca-cola
ou uma fábrica de pastilha elástica estava por detrás do artigo.
Uma vida normal, uma morte normal
também não é nada. Também uma vida normal
leva a uma morte doente. Sobretudo a morte
não tem nada a ver com a saúde e a doença,
serve-se delas para os seus próprios fins.
O que é que você acha: a morte nada tem a ver com a doença?
Quero dizer: muitos adoecem sem morrer,
portanto aqui há qualquer coisa diferente,
um fragmento de dúvida,
um factor de incerteza,
a morte não está claramente delimitada,
também não tem foice,
observa, espreita do canto, refreia-se mesmo
e é musical numa outra melodia.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Sintaxe
Todos têm o céu, o amor e a cova,
nada temos com isso
que está discutido e tratado para o círculo da cultura.
Mas o que é novo é a questão da sintaxe
e essa é urgente:
porque é que exprimimos qualquer coisa?
Porque é que rimamos ou desenhamos uma rapariga
do vivo ou como reflexo,
ou riscamos num palmo de papel granitado
inúmeras plantas, copas de árvores, muralhas,
estas últimas como gordas lagartas de cabeça de tartaruga
estendendo-se lúgubres e baixas
por uma certa ordem?
Momentosamente irrespondível!
Não se trata de uma questão de honorários,
muitos aí morrem à fome. Não,
é um impulso da mão,
guiada de longe, uma atitude cerebral,
talvez um salvador atrasado, um animal totémico,
que priapismo formal à custa do conteúdo,
que passará,
mas hoje a sintaxe
é o mais importante.
«Os poucos que souberam alguma coisa disso» - (Goethe) -
Mas afinal de quê?
Suponho que da sintaxe.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
nada temos com isso
que está discutido e tratado para o círculo da cultura.
Mas o que é novo é a questão da sintaxe
e essa é urgente:
porque é que exprimimos qualquer coisa?
Porque é que rimamos ou desenhamos uma rapariga
do vivo ou como reflexo,
ou riscamos num palmo de papel granitado
inúmeras plantas, copas de árvores, muralhas,
estas últimas como gordas lagartas de cabeça de tartaruga
estendendo-se lúgubres e baixas
por uma certa ordem?
Momentosamente irrespondível!
Não se trata de uma questão de honorários,
muitos aí morrem à fome. Não,
é um impulso da mão,
guiada de longe, uma atitude cerebral,
talvez um salvador atrasado, um animal totémico,
que priapismo formal à custa do conteúdo,
que passará,
mas hoje a sintaxe
é o mais importante.
«Os poucos que souberam alguma coisa disso» - (Goethe) -
Mas afinal de quê?
Suponho que da sintaxe.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Sala das mulheres de parto
Mulheres mais pobres de Berlim
- em quarto e meio treze filhos,
reclusas, putas, marginais -
gemem aqui, ventre a torcer-se.
Em parte alguma se uiva assim.
Em parte alguma à dor, desdita,
mais indiferença pode ver-se,
aqui há sempre algo que grita.
«Mulher, avie-se! Tá a perceber?
Não está aqui para o prazer.
Nem deixe as coisas arrastar-se
se nesse aperto vai borrar-se!
Não está aqui para o descanso.
Não vem por si. Dê-lhe um avanço!»
Ei-lo: pequeno e arroxeado.
De mijo e fezes vem untado.
De onze camas, sangue e choro,
sai gemedeira em saudação.
Só de dois olhos rompe um coro
de aleluias que ao céu cão.
Tudo esta peça de carne há-de
conhecer: dor, felicidade.
E se o estertor um dia exala
inda há mais doze nesta sala.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
- em quarto e meio treze filhos,
reclusas, putas, marginais -
gemem aqui, ventre a torcer-se.
Em parte alguma se uiva assim.
Em parte alguma à dor, desdita,
mais indiferença pode ver-se,
aqui há sempre algo que grita.
«Mulher, avie-se! Tá a perceber?
Não está aqui para o prazer.
Nem deixe as coisas arrastar-se
se nesse aperto vai borrar-se!
Não está aqui para o descanso.
Não vem por si. Dê-lhe um avanço!»
Ei-lo: pequeno e arroxeado.
De mijo e fezes vem untado.
De onze camas, sangue e choro,
sai gemedeira em saudação.
Só de dois olhos rompe um coro
de aleluias que ao céu cão.
Tudo esta peça de carne há-de
conhecer: dor, felicidade.
E se o estertor um dia exala
inda há mais doze nesta sala.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Finis Poloniae
Finis Poloniae -
uma expressão
que, abstraindo do seu conteúdo histórico,
significa
o fim dos grandes impérios.
Atmosfera embruxada,
tudo respira oprimido,
ar ambíguo - se nela houvesse ideias,
sê-lo-iam de não europeias monções
e mares amarelos.
O grandioso vai a pique por si mesmo,
diz a si mesmo o último som,
a canção estranha, tanta vez desconhecida,
ocasionalmente suportada -
Finis Poloniae -
talvez num dia de chuva, indesejado,
mas para o caso presente um rumorar de alegrias
e então o solo de trompa,
e anexada uma hortênsia, a mais tranquila das flores,
a resistir à chuva até Novembro
de manso sobre a cova.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
uma expressão
que, abstraindo do seu conteúdo histórico,
significa
o fim dos grandes impérios.
Atmosfera embruxada,
tudo respira oprimido,
ar ambíguo - se nela houvesse ideias,
sê-lo-iam de não europeias monções
e mares amarelos.
O grandioso vai a pique por si mesmo,
diz a si mesmo o último som,
a canção estranha, tanta vez desconhecida,
ocasionalmente suportada -
Finis Poloniae -
talvez num dia de chuva, indesejado,
mas para o caso presente um rumorar de alegrias
e então o solo de trompa,
e anexada uma hortênsia, a mais tranquila das flores,
a resistir à chuva até Novembro
de manso sobre a cova.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Se algo te envolve múrmuro
Se algo te envolve múrmuro, impalpável,
tal como neste muro o esplendor
das glicínias, é a hora dessa dor
de tu não seres riqueza inesgotável,
nem como as flores ou como a luz que avança
em raios, transformando-se, e agindo
em similares imagens todas vindo
e que uma só embriaguez entrança,
um só veludo aonde as coisas jazem
assim torrenciais e tão inteiras,
param as horas, traçam as fronteiras
e nessa angústia nada fazem.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
tal como neste muro o esplendor
das glicínias, é a hora dessa dor
de tu não seres riqueza inesgotável,
nem como as flores ou como a luz que avança
em raios, transformando-se, e agindo
em similares imagens todas vindo
e que uma só embriaguez entrança,
um só veludo aonde as coisas jazem
assim torrenciais e tão inteiras,
param as horas, traçam as fronteiras
e nessa angústia nada fazem.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Mãe
Trago-te em mim como uma ferida
que não se fecha em minha fronte.
Nem sempre dói. E não se apouca
ao coração por ela a vida.
Só fico às vezes cego de repente e sinto
sangue na boca.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
que não se fecha em minha fronte.
Nem sempre dói. E não se apouca
ao coração por ela a vida.
Só fico às vezes cego de repente e sinto
sangue na boca.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Ameaça
Mas sabe-o:
Vivo dias de fera. Sou uma hora de água.
À tarde isto adormece-me as pálpebras como floresta e céu.
O meu amor sabe só poucas palavras:
Tão bem se está junto ao teu sangue.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Vivo dias de fera. Sou uma hora de água.
À tarde isto adormece-me as pálpebras como floresta e céu.
O meu amor sabe só poucas palavras:
Tão bem se está junto ao teu sangue.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Requiem
Em cada mesa dois. Mulheres e homens entre-
cruzados. Sem tormento. E próximos e nus.
O peito esquartejado. O crânio aberto. O ventre
pela última vez agora a dar à luz.
Do cérebro aos testículos, cada um três malgas rentes.
E o templo de Deus e o estábulo infernal
agora peito a peito no chão da cuba, os dentes
a arreganhar prò Gólgota e a queda original.
O resto nos caixões. Tantos recém-nascidos:
cabelos de mulher, um peito de miúdo,
pernas de homem. De dois amantes prostituídos,
qual vindo de um só ventre, vi que ali estava tudo.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
cruzados. Sem tormento. E próximos e nus.
O peito esquartejado. O crânio aberto. O ventre
pela última vez agora a dar à luz.
Do cérebro aos testículos, cada um três malgas rentes.
E o templo de Deus e o estábulo infernal
agora peito a peito no chão da cuba, os dentes
a arreganhar prò Gólgota e a queda original.
O resto nos caixões. Tantos recém-nascidos:
cabelos de mulher, um peito de miúdo,
pernas de homem. De dois amantes prostituídos,
qual vindo de um só ventre, vi que ali estava tudo.
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
Bela infância
A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial
estava tão roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado
Finalmente, num caramanchão sob o diafragma
encontrou-se um ninho de ratinhos.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros tinham vivido do fígado e dos rins,
bebido o sangue frio e passado
aqui uma bela infância.
Mas depressa também tiveram uma bela morte:
Deitaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
estava tão roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado
Finalmente, num caramanchão sob o diafragma
encontrou-se um ninho de ratinhos.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros tinham vivido do fígado e dos rins,
bebido o sangue frio e passado
aqui uma bela infância.
Mas depressa também tiveram uma bela morte:
Deitaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!
Gottfried Benn
50 poemas
Relógio D'Água, 1998
Tradução de Vasco Graça Moura
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