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Um Fantasma: IV. O Retrato

A Doença e a Morte em cinza tornam
Todo o fogo que pra nós flamejou.
Dos teus olhos tão ternos, fervorosos,
Da boca onde a minha alma se afogou,

Dos teus beijos poderosos como um bálsamo,
Desses enlevos vivos como raios,
O que ficou? É terrível, minha alma!
Só um esboço a carvão, desenho pálido

Que morre, como eu, na solidão
E onde o Tempo, ignóbil ancião
A cada dia roça com a asa...

Negro assassino da Vida e da Arte,
Não, nunca matarás nesta memória
Essa que foi o meu prazer e glória!



Charles Baudelaire

As Flores do Mal
Assírio e Alvim, 1992
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Um Fantasma: III. A Moldura

Como a um quadro a moldura se acrescenta
- Mesmo se for de um mestre celebrado –
Um não sei quê de estranho e de encantado,
Isolando-o da vasta natureza,

Assim jóias, metais, móveis, adornos,
Tão bem à sua beleza se adaptavam;
Àquela perfeição nada ofuscava
E tudo lhe servia de contorno.

Por vezes dir-se-ia que ela achava
Que tudo a queria amar, e mergulhava
Toda a nudez voluptuosamente

Entre os beijos do linho e do cetim,
E, lenta ou brusca, em cada movimento
Mostrava a ingénua graça do sagui.



Charles Baudelaire

As Flores do Mal
Assírio e Alvim, 1992
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Um Fantasma: II. O Perfume

Já respiraste alguma vez, leitor,
Com gula, embriaguez, lento desejo,
Os ares de incenso que enchem uma igreja
Ou o esquecido almíscar de uma bolsa?

Profundo encanto, a ir-nos exaltando
Quando o presente restaura o passado!
Assim num adorado corpo o amante
Colhe a flor mais selecta da saudade.

Dos cabelos espessos, tão elásticos,
Turíbulo de alcova ou de bordel,
Subia um cheiro indómito e selvagem,

E dessas musselinas ou veludos,
Impregnados de pura juventude,
Ia alastrando um perfume de peles.



Charles Baudelaire

As Flores do Mal
Assírio e Alvim, 1992
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Um Fantasma: I. As Trevas

Neste jazigo insondável e triste
Onde o Destino me degredou já
E onde não entra um raio de alegria,
A sós com a Noite, companhia má,

Lembro um pobre pintor que um Deus trocista
Condenasse a pintar na escuridão;
Aqui, onde, com fúnebre apetite,
Cozinho e como o próprio coração,

Brilha e alonga-se num breve instante
Um espectro feito de graça e esplendor.
Plo seu porte oriental e sonhador,

Ao atingir proporção mais grandiosa,
Eu reconheço a bela visitante:
É Ela! negra e porém luminosa.



Charles Baudelaire

As Flores do Mal
Assírio e Alvim, 1992
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

O Letes

Vem ao meu peito, alma cruel e surda,
Tigre adorado, com ares indolentes;
Vou mergulhar os meus dedos frementes
Na espessura da tua farta juba;

Nos teus saiotes cheios de perfume
Amortalhar esta cabeça aflita
E respirar, como flor ressequida,
O suave mofo de um amor defunto.

Quero dormir! mais que viver, dormir!
E num sono tão doce como a morte
Espalharei os meus beijos sem remorso
Plo teu corpo lustroso como o cobre.

Para engolir o meu choro sereno
Nada melhor que o abismo do teu leito;
Na tua boca mora o esquecimento
E o próprio Letes corre nos teus beijos.

Ao meu destino, agora uma delícia,
Irei obedecer, predestinado;
Mártir dócil, sem culpa condenado,
Cujo fervor lhe espicaça o suplício,

Irei sugar, pra afogar o meu ódio,
Toda a boa cicuta e o nepentes
Nos belos bicos desse esguio colo
Que nunca teve um coração lá preso.




Charles Baudelaire

As Flores do Mal
Assírio e Alvim, 1992
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Lesbos

Mãe das volúpias gregas, dos jogos latinos,
Lesbos, de beijos lânguidos ou jubilosos,
Tão quentes como sóis, frescos quais melancias,
Ornamentando as noites e os dias gloriosos,
Mãe das volúpias gregas, dos jogos latinos,

Lesbos, lá onde os beijos são como as cascatas
Lançando-se sem medo em abismos sem fundo,
Correndo e soluçando em bruscas gargalhadas,
Tempestuosos, secretos, ferventes, profundos,
Lesbos, lá onde os beijos são como as cascatas!

Lesbos, onde as Frinés uma à outra se atraem,
Onde nunca ficou sem eco um só suspiro,
Como a Pafos, também as estrelas te admiram,
E Vénus, com razão, tem ciúmes de Safo!
Lesbos, onde as Frinés uma à outra se atraem,

Lesbos, terra das noites quentes, langorosas,
Fazendo com que ao espelho, ah, que estéril volúpia!
Donzelas de olhos vagos, amando os seus corpos,
Da sua puberdade acarinhem os frutos;
Lesbos, terra das quentes noites, langorosas,

Deixa o velho Platão franzir sobrolho austero;
Consegues o perdão com beijos incontáveis,
Terra nobre e amável, rainha do império,
E com esses requintes sempre inesgotáveis.
Deixa o velho Platão franzir sobrolho austero.

Consegues o perdão com o eterno martírio
Que as almas ambiciosas suportam sem tréguas,
Atraídas pra longe plo radiante sorriso
Vagamente entrevisto à beira de outros céus!
Consegues o perdão com o eterno martírio!

Que Deus irá ousar, Lesbos, ser teu juiz
E condenar-te a fronte, pálida do esforço,
Se com balanças de oiro não pesou o rio
De lágrimas que ao mar deitaram tuas fontes?
Que Deus irá ousar, Lesbos, ser teu juiz?

Que nos querem as leis do justo e do injusto?
Virgens de alma sublime, honra do Arquipélago,
A vossa religião, como outra, é augusta
E o amor rir-se-á do Céu e do Inferno!
Que nos querem as leis do justo e do injusto?

Pois Lesbos escolheu-me entre todos, na terra,
Pra cantar o segredo das virgens em flor
E desde a infância entendo esse negro mistério,
Desenfreada mistura de risos e choro;
Pois Lesbos escolheu-me entre todos, na terra.

E desde então vigio do pico leucádico,
Como uma sentinela com o olhar seguro,
Atenta dia e noite a veleiro ou fragata
Cujas formas, ao longe, atravessem o azul;
E desde então vigio do pico leucádico

Pra saber se as marés são indulgentes, boas,
E entre alguns soluços, que na rocha ecoam,
Uma tarde trarão pra Lesbos, que perdoa,
O adorado cadáver de Safo, que fora
Saber se as marés são indulgentes e boas!

Da masculina Safo, poeta e amante,
Pla triste palidez mais bela do que Vénus!
- O olho azul È vencido plo negro, essa mancha,
Ou círculo tenebroso traçado plas penas
Da masculina Safo, poeta e amante!

-Mais bela do que Vénus erguida no mundo,
Difundindo os tesouros da serenidade
E o esplendor da sua loira juventude
Nesse velho Oceano, com a filha encantado;
Mais bela do que Vénus erguida no mundo!

- De Safo, que morreu no dia da blasfémia,
Quando, insultando o rito e o culto inventado,
Fez do seu corpo belo o pasto mais supremo
De um bruto cujo orgulho puniu a impiedade
Da que morreu no dia da sua blasfémia.

E assim, é desde então que Lesbos se lamenta
E, apesar dos louvores que lhe tece o universo,
Embriaga-se, à noite, com o som da tormenta
Que ascende para os céus da sua costa deserta!
E assim, é desde então que Lesbos se lamenta!



Charles Baudelaire

As Flores do Mal
Assírio e Alvim, 1992
Tradução de Fernando Pinto do Amaral