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«O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia‑lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:
– A quotazinha da Sociedade, senhor doutor.
Puta que pariu os psiquiatras organizados em esquadra de polícia, pensava sempre ao procurar os cem escudos na complicação da carteira, puta que pariu o Grande Oriente da Psichiatria, dos etiquetadores pomposos do sofrimento, dos chonés da única sórdida forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia defendidos pelo Código Penal dos tratados, puta que pariu a Arte Da Catalogação Da Angústia, puta que me pariu a mim, rematava ele ao embolsar o rectângulo impresso, que colaboro, pagando, com isto, em lugar de espalhar bombas nos baldes dos pensos e nas gavetas das secretárias dos médicos para fazer explodir, num cogumelo atómico triunfante, cento e vinte e cinco anos de idiotia pinamaniquesca. O olhar intensamente azul do porteiro‑cobrador, que assistia sem entender a uma maré‑baixa de revolta que o transcendia, embrulhava‑o num halo de anjo medieval apaziguante: um dos projectos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolver‑se nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita. Um resto agonizante de fúria veio girar‑lhe ao ralo da boca:
– Senhor Morgado, pela saúde dos seus e meus tomates não me lixe mais com o caralho das quotas durante um ano e diga à Sociedade de Neurologia e Psiquiatria e amanuenses do cerebelo afins que metam o meu dinheiro enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos e tenho dito ámen.
O porteiro‑cobrador escutava‑o respeitosamente (este gajo deve ter sido na tropa o pide favorito do sargento, descobriu o médico) reinventando as leis de Mendel à medida do seu intelecto de dois quartos com serventia de cozinha:
– Topa‑se logo que o senhor doutor é filho do senhor doutor: uma ocasião o paizinho amandou o fiscal fora do laboratório pelas orelhas.
De azimute voltado para o livro do ponto e um seio de Delvaux a esfumar‑se no canto da ideia, o psiquiatra apercebeu‑se de súbito da admiração que as proezas bélicas do progenitor haviam disseminado, por aqui e por ali, na saudade de certas barrigas grisalhas. Rapazes, chamava‑lhes o pai. Quando vinte anos atrás o irmão e ele se iniciaram no hóquei do Futebol Benfica, o treinador, que partilhara com o pai Aljubarrotas áureas de pauladas no toutiço, retirou o apito da boca para os avisar com gravidade:
– Espero que saiam ao João, que quando tocava a Santos era lixado para a porrada. Em 35, no rinque da Gomes Pereira, foram três da Académica da Amadora para São José.
E acrescentou baixinho com a doçura de uma recordação grata:
– Fractura de crânio, no tom de voz em que se revelam segredos íntimos de paixão adolescente, conservada na gaveta da memória que se dedica às inutilidades de pacotilha que dão sentido a um passado.
Pertenço irremediavelmente à classe dos mansos refugiados em tábuas, reflectiu ele ao assinar o nome no livro que o contínuo lhe estendia, velho calvo habitado pela paixão esquisita da apicultura, escafandrista de rede encalhado num recife de insectos, à classe dos mansos perdidos refugiados em tábuas a sonharem com o curro do útero da mãe, único espaço possível onde ancorar as taquicárdias da angústia. E sentiu‑se como expulso e longe de uma casa cujo endereço esquecera, porque conversar com a surdez da mãe afigurava‑se‑lhe mais inútil do que socar uma porta cerrada para um quarto vazio, apesar dos esforços do sonotone através do qual ela mantinha com o mundo exterior um contacto distorcido e confuso feito de ecos de gritos e de enormes gestos explicativos de palhaço pobre. Para entrar em comunicação com esse ovo de silêncio o filho iniciava uma espécie de batuque zulu ritmado de guinchos, saltava na carpete a deformar‑se em caretas de borracha, batia palmas, grunhia, acabava por afundar‑se extenuado num sofá gordo como um diabético avesso à dieta, e era então que movida por um tropismo vegetal de girassol a mãe erguia o queixo inocente do tricot e perguntava:
– Hã?, de agulhas suspensas sobre o novelo à laia de um chinês parando os pauzinhos diante do almoço interrompido.
Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio em marcha, chefiada por uma vaca sagrada que a fim de descompor as subordinadas retirava a dentadura postiça da boca, como quem arregaça as mangas, para aumentar a eficácia dos insultos. A imagem das filhas, visitadas aos domingos numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou‑lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos de sótão transformam numa espécie triste de alegria. Costumava levá‑las ao circo na tentativa de lhes comunicar a sua admiração pelas contorcionistas, entrelaçadas em si próprias como iniciais em ângulo de guardanapo e detentoras da beleza impalpável comum aos hálitos de gaze que anunciam nos aeroportos a partida dos aviões e às meninas de saias de folhos e botas brancas a desenharem elipses às arrecuas no rinque de patinagem do Jardim Zoológico, e desiludia o como uma traição o estranho interesse delas pelas damas equívocas, de cabelos loiros com raízes grisalhas, que amestravam cães melancolicamente obedientes e uniformemente horrorosos, ou pelo rapazinho de seis anos a rasgar listas telefónicas no riso fácil dos guarda‑costas em botão, futuro Mozart do cassetete. Os crânios daqueles dois seres minúsculos que usavam o seu apelido e lhe prolongavam a arquitectura das feições surgiam‑lhe tão misteriosamente opacos como os problemas de torneiras da escola, e espantava‑o que sob cabelos que possuíam o mesmo odor dos seus grelassem ideias diversas das que penosamente armazenara em anos e anos de hesitações e dúvidas. Surpreendia‑se que para além de tiques e de gestos a natureza se não houvesse empenhado em transmitir‑lhes também, a título de bónus, os poemas de Eliot que conhecia de cor, a silhueta de Alves Barbosa a pedalar nas Penhas da Saúde, e a aprendizagem já feita do sofrimento. E por detrás dos sorrisos delas distinguia alarmado a sombra das inquietações futuras, como no seu próprio rosto percebia, olhando‑o bem, a presença da morte na barba matinal.
Procurou na argola das chaves a que abria a porta da enfermaria (o meu lado de governanta, murmurou, a minha faceta de despenseiro de navios inventados disputando aos ratos as bolachas‑maria do porão), e entrou num corredor comprido balizado por espessas ombreiras de jazigo atrás das quais se estendiam, em colchas duvidosas, mulheres que o excesso de remédios transformara em sonâmbulas infantas defuntas, convulsionadas pelos Escoriais dos seus fantasmas.
A enfermeira‑chefe, no seu gabinete de Dr. Mabuse, recolocava a dentadura postiça nas gengivas com a majestade de Napoleão coroando‑se a si mesmo: os molares ao entrechocarem‑se produziam ruídos baços de castanholas de plástico, como se as suas articulações fossem uma criação mecânica para edificação cultural de estudantes do liceu ou dos frequentadores do Castelo Fantasma da Feira Popular, onde o cheiro das sardinhas assadas se combina subtilmente com os gemidos de cólica dos carrosséis. Um crepúsculo pálido boiava permanentemente no corredor e os vultos adquiriam, aclarados pelas lâmpadas desconjuntadas do tecto, a textura de vertebrados gasosos do Deus rivegauche do catecismo, que ele imaginava sempre a evadir‑se da colónia penal dos mandamentos para passear livre, nas noites da cidade, a cabeleira bíblica de um Ginsberg eterno. Algumas velhas, que as castanholas bocais do Napoleão haviam despertado de letargias de pedra, chinelavam ao acaso de cadeira em cadeira idênticas a pássaros sonolentos em busca do arbusto onde ancorar: o médico tentava em vão decifrar nas espirais das suas rugas, que lhe lembravam as misteriosas redes de fendas dos quadros de Vermeer, juventudes de bigodes encerados, coretos e procissões, alimentadas culturalmente por Gervásio Lobato, pelos conselhos dos confessores e pelos dramas de gelatina do dr. Júlio Dantas, unindo fadistas e cardeais em matrimónios rimados. As octogenárias pousavam nele os olhos descoloridos de vidro, ocos como aquários sem peixes, onde o limo ténue de uma ideia se condensava a custo na água turva de recordações brumosas. A enfermeira‑chefe, a cintilar os incisivos de saldo, pastoreava aquele rebanho artrítico enxotando‑o a mãos ambas para uma saleta em que o televisor se avariara num harakiri solidário com as cadeiras coxas encostadas às paredes e o aparelho de rádio que emitia, com sobressaltos felizmente raros, longos uivos fosforescentes de cachorro perdido na noite de uma quinta. As velhas tranquilizavam‑se a pouco e pouco como galinhas salvas da canja na capoeira de novo em sossego, mastigando a pastilha elástica das bochechas em ruminações prolixas sob uma oleografia piedosa na qual a humidade devorara os biscoitos das auréolas dos santos, vagabundos antecipados de um katmandu celeste.
A sala de consultas compunha‑se de um armário em ruína roubado ao sótão de um ferro‑velho desiludido, de dois ou três maples precários com o forro a surgir dos rasgões dos assentos como cabelos por buracos de boina, de uma marquesa contemporânea da época heróica e tísica do dr. Sousa Martins, e de uma secretária que abrigava na cavidade destinada às pernas um cesto de papéis enorme, parturiente carunchosa afligida por um feto excessivo. Em cima de um naperon enodoado uma rosa de papel cravava‑se na sua jarra de plástico como a bandeira remota do capitão Scott nos gelos do pólo Sul. Uma enfermeira parecida com a D. Maria II das notas de banco em versão Campo de Ourique comboiou na direcção do psiquiatra uma mulher entrada na véspera e que ele não observara ainda, ziguezagueando de injecções, de camisa a flutuar em torno do corpo como o espectro de Charlotte Brontë vogando no escuro de uma casa antiga. O médico leu no boletim de internamento «esquizofrenia paranóide; tentativa de suicídio», folheou rapidamente a medicação do Serviço de Urgência e procurou um bloco na gaveta enquanto um sol súbito aderia, jovial, aos caixilhos. No pátio em baixo, entre os edifícios da 1.a e 6.a enfermarias de homens, um negro de calças pelos joelhos masturbava‑se freneticamente encostado a uma árvore, espiado com gáudio por um grupo de serventes. Adiante, perto da 8.a, dois sujeitos de bata branca erguiam o capot de um Toyota para lhe examinar o funcionamento das vísceras orientais. Estes amarelos sacanas começaram pelas gravatas ambulantes, já nos colonizam de rádios e automóveis e qualquer dia fazem da gente os kamikazes de Pearl Harbour futuras; marralhos para dar com os cornos nos Jerónimos no verão, a dizer banzai, quando casamentos e baptizados se sucedem em ritmo trepidante de metralhadora mística. A doente (quem entre aqui para dar pastilhas, tomar pastilhas ou visitar nazarenamente as vítimas das pastilhas é doente, sentenciou o psiquiatra no interior de si mesmo) apontou‑lhe ao nariz as órbitas enevoadas de comprimidos e articulou numa determinação tenaz:
– Seu cabrão.
A D. Maria II encolheu os ombros a fim de bolear as arestas do insulto:
– Está nisto desde que veio. Se assistisse à cena que ela armou para aí com a família o senhor doutor até se benzia. De curtas e compridas tem‑nos chamado de tudo.
O médico escreveu no bloco: cabrão, curtas, compridas, riscou um traço por baixo como se preparasse uma soma e acrescentou em maiúsculas Caralho.
A enfermeira, que lhe espreitava sobre o ombro, recuou um passo: educação católica à prova de bala, supôs ele medindo-a. Educação católica à prova de bala e virgem por tradição familiar: a mãe devia estar rezando a Santa Maria Goretti enquanto a fazia.
A Charlotte Brontë a cambalear à beira do KO químico voltou para a janela uma unha onde o verniz estalava:
– Alguma vez viu o sol lá fora, seu cabrão?
O psiquiatra gatafunhou Caralho + Cabrão = Grande Foda, rasgou a página e entregou-a à enfermeira:
– Percebe?, perguntou ele. Aprendi isto com a minha primeira mestra de lavores, diga‑se à puridade e de passagem que o melhor clitóris de Lisboa.
A mulher empertigou‑se de indignação respeitosa:
– O senhor doutor anda muito bem disposto mas eu tenho outros médicos para atender.
O homem lançou-lhe, num gesto largo, a bênção urbi et orbi que seguira uma vez pela televisão:
– Ide em paz, soletrou ele com sotaque italiano.
E não percais a minha mensagem papal sem a dar a ler aos bispos meus dilectos irmãos. Sursum corda e Deo gratias ou vice-versa.
Fechou cuidadosamente a porta atrás dela e voltou a sentar‑se à secretária. A Charlotte Brontë mediu‑o de pálpebra crítica:
– Ainda não decidi se você é um cabrão simpático ou antipático mas pelo sim pelo não cona da mãe.
Cona da mãe, meditou ele, que exclamação adequada. Moveu‑a dentro da boca com a língua como um caramelo, sentiu-lhe a cor e o gosto morno, recuou no tempo até a encontrar a lápis nos sanitários do liceu entre desenhos explicativos, convites e quadras e a recordação enjoada dos cigarros clandestinos comprados avulso na Papelaria Académica a uma deusa grega que varria o balcão com o excesso dos seios, demorando nele pupilas vazias de estátua. Uma senhora magrinha com ar subalterno apanhava malhas num canto sombrio anunciada por letreiro a escantilhão na montra (Malhas Com Perfeissão e Rapidês) tal como os cartazes pregados às grades do Jardim Zoológico avisam os nomes em latim dos animais. Cheirava persistentemente a lápis viarco e a humidade e as damas das redondezas com as compras da praça embrulhadas em papel de jornal vinham queixar‑se às mamas helénicas, em murmúrios desolados, das suas misérias conjugais povoadas de manicuras perversas e de francesas de cabaré que lhes seduziam os maridos ao dobrarem em quatro, ao ritmo afrodisíaco da Valsa da Meia‑Noite, a nudez experiente dos quadris.
O negro que se masturbava no pátio iniciou para edificação dos serventes contorções orgásticas desordenadas de mangueira à solta. L’arroseur arrosé. Incansável, a Charlotte Brontë voltou à carga:
– Oiça lá seu artolas, conhece a dona disto?
E depois de uma pausa destinada a deixar alastrar no médico o pânico escolar da ignorância assentou uma palmada proprietária na barriga:
– Sou eu.
Os olhos que desdenhavam o psiquiatra raiaram‑se de súbito de tracinhos métricos de duplo‑decímetro:
– Não sei se o despeço ou se o nomeio director: é consoante.
– É consoante?
– É consoante a opinião do meu marido domador de leões de bronze marquês de Pombal Sebastião de Melo. Vendemos bichos amestrados a estátuas, reformados barbudos de pedra para repuxos, soldados desconhecidos a domicílio.
O homem cessara de a ouvir: o corpo dele mantinha a curva obsequiosa de ponto de interrogação na aparência atento de terceiro oficial a despacho, a testa, para onde todos os acidentes geográficos do seu rosto convergiam como passantes para um epiléptico a lagartixar na calçada, amarrotava‑se de asséptico interesse profissional, a esferográfica aguardava a ordem estúpida de um diagnóstico definitivo, mas no palco dos miolos sucediam‑se as imagens vertiginosas e confusas em que o sono se prolonga manhã fora, combatido pelo sabor do dentífrico na língua e a falsa frescura publicitária da loção de barbear, sinais inequívocos de se esbracejar já, instintivamente, na realidade do quotidiano, sem espaço para a cambalhota de um capricho: os seus projectos imaginários de Zorro dissolviam‑se sempre, antes de começarem, no Pinóquio melancólico que o habitava, a exibir a hesitação do sorriso pintado sob a linha resignada da sua boca autêntica.
O porteiro que todos os dias o acordava a golpes teimosos de campainha afigurava‑se‑lhe um são bernardo de barril ao pescoço a salvá-lo in extremis do nevão de um pesadelo. E a água do chuveiro, ao descer‑lhe pelos ombros, levava‑lhe da pele o suor de angústia de uma desesperança tenaz.
Desde que se separara da mulher cinco meses antes que o médico morava sozinho num apartamento decorado de um colchão e de um despertador mudo imobilizado de nascença nas sete da tarde, malformação congénita do seu agrado por detestar os relógios em cujo interior de metal palpita a mola taquicárdica de um coraçãozinho ansioso. A varanda pulava directamente para o Atlântico por sobre as roletas do casino, em que se multiplicavam americanas idosas cansadas de fotografarem túmulos barrocos de reis, exibindo as sardas esqueléticas dos decotes numa arrepiante audácia de quakers renegadas. Estendido nos lençóis sem descer a persiana o psiquiatra sentia os pés tocarem o escuro do mar, diferente do escuro da terra pela inquietação ritmada que o agita. As fábricas do Barreiro introduziam no lilás da aurora o fumo musculoso das chaminés distantes. Gaivotas sem bússola esbarravam, estupefactas, com os pardais dos plátanos e as andorinhas de loiça das fachadas. Uma garrafa de aguardente iluminava a cozinha vazia da lâmpada votiva de uma felicidade de cirrose. De roupa espalhada no soalho o médico aprendia que a solidão possui o gosto azedo do álcool sem amigos, bebido pelo gargalo, encostado ao zinco do lava‑loiças. E acabava por concluir, ao repor a rolha com uma palmada, assemelhar‑se ao camelo recheando a sua bossa antes da travessia de uma longa paisagem de dunas, que teria preferido nunca conhecer.
Era em momentos desses, quando a vida se torna obsoleta e frágil como os bibelots que as tias‑avós distribuem por saletas impregnadas do odor misto de urina de gato e de xarope reconstituinte, e a partir dos quais refazem a minúscula monumentalidade do passado familiar à maneira de Cuvier criando pavorosos dinossauros de lascas insignificantes de falangetas, que a recordação das filhas lhe tornava à memória na insistência de um estribilho de que se não lograva desembaraçar, agarrado a ele como um adesivo ao dedo, e lhe produzia no ventre o tumulto intestinal de guinadas de tripas em que a saudade encontra o escape esquisito de uma mensagem de gases. As filhas e o remorso de se ter escapado uma noite, de maleta na mão, ao descer as escadas da casa que durante tanto tempo habitara, tomando consciência degrau a degrau de que abandonava muito mais do que uma mulher, duas crianças e uma complicada teia de sentimentos tempestuosos mas agradáveis, pacientemente segregados. O divórcio substitui na era de hoje o rito iniciático da primeira comunhão: a certeza de amanhecer no dia seguinte sem a cumplicidade das torradas do pequeno-almoço partilhado (para ti o miolo para mim a côdea) aterrorizou‑o
no vestíbulo. Os olhos desolados da mulher perseguiam‑no pelos degraus abaixo: afastavam‑se um do outro como se haviam aproximado, treze anos antes, num desses agostos de praia feitos de aspirações confusas e de beijos aflitos, no mesmo turbilhonante e ardente refluxo de maré. O corpo dela permanecia jovem e leve apesar dos partos, e o rosto mantinha intactos a pureza dos malares e o nariz perfeito de uma adolescência triunfal: junto dessa beleza esguia de Giacometti maquilhado achava‑se sempre desajeitado e tosco no seu invólucro que começava a amarelecer de um outono sem graça. Havia alturas em que lhe parecia injusto tocá‑la, como se o contacto dos seus dedos despertasse nela um sofrimento sem razão. E perdia‑se entre os seus joelhos, afogado de amor, a gaguejar as palavras de ternura de um dialecto inventado.»



António Lobo Antunes
Memória de Elefante
Dom Quixote, 1983
«Chegava sempre antes da sineta quando ia buscar a minha filha e
tirando a madrinha da aluna cega a cochichar cumprimentos em tom
de desculpa sem que eu a entendesse
(de tão exagerada na infelicidade dava vontade de gritar
– Afaste-se de mim não me aborreça)
não havia ninguém ao portão de modo que o recreio vazio excepto
uma árvore de que nunca soube o nome com as folhas demasiado pequenas
para o tronco e se calhar composta de várias árvores diferentes
(as mãos do meu pai minúsculas no fim de braços enormes, se calhar
composto de vários homens diferentes)
o escorrega a que faltavam tábuas com o letreiro Não Usar e a
porta e as janelas trancadas, derivado à impressão que ninguém lá dentro
compreendi a madrinha da aluna cega, disse-lhe sem palavras
– Não é exagerada perdão
e como deixei de ter filha cessei de respirar, não só a porta e as janelas
trancadas, compartimentos desertos, poeira, o edifício da escola
afinal abandonado e velho, a madrinha da aluna cega aproximou-se
carregando cheiros antigos e nisto que alívio a sineta
(– Pieguice minha és exagerada sim)
a sacudir as folhas da árvore
(ou os braços do meu pai)
os dedos cessaram de atormentar o fecho da mala e o coração diminuiu
nas costelas, os pulmões graças a Deus respiram, estou aqui,
quantas vezes ao acordar me surpreendia que os móveis fossem os
mesmos da véspera e recebia-os com desconfiança, não acreditava neles,
por ter dormido era outra e no entanto os móveis obrigavam-me
às recordações de um corpo a que não queria voltar, que desilusão esta
camilha, esta cadeira, eu, cochichar à madrinha da aluna cega o que
me cochichava a mim, pedir desculpa sem que me liguem e a porta e
as janelas abertas, a professora nas escadas, as primeiras crianças, pais
(não o meu pai)
ao portão comigo, não o meu pai que não lhe sobrava tempo
– Não te mexas que me dás nervos
a conversar com o empregado ou a falar ao telefone na secretária
do jornal cheia de cartas, retratos, ganharia muito dinheiro você pai
(não acredito)
não finja que não alcança o que lhe digo
– Pões-me nervoso tu
morreu há uma data de anos, passa da meia-noite
(– Tardíssimo filha)
e não finja que não alcança o que lhe digo, meia-noite nesta vivendinha
do Pragal, daqui a pouco sons húmidos de foca no primeiro andar
e a senhora
– Pões-me nervosa tu
era o meu pai que eu punha nervoso apesar de calada
(– Ainda aí estás que mania)
a senhora o meu nome
– Ana Emília
a chapinhar no colchão e os rebentos do arbusto de groselha ao
comprido do muro, a sineta da escola acelerava o tempo, as folhas da
árvore a pularem sílabas muito depressa
– Ana Emília
na porta a aluna cega, a minha filha, as gémeas e a ruiva gorda que
era preciso empurrar na ginástica, a empregada da limpeza destrancava
as janelas e nem compartimentos desertos nem poeira, nenhum defunto
todo direito de gravata branca a espiar-me, somente mapas, carteiras,
restos de números a giz, a testa do meu pai um lençol de cama por
fazer
– Vens pedir-me dinheiro para a tua mãe é isso?
remexia na algibeira e escutavam-se as chaves, desistia, o jornal
dois ou três cubículos escuros
(uma garrafa a um canto e aí sim, julgo que defuntos de gravata
branca)
isto numa travessa perto de um convento, mulheres de cabelo pintado
vestidas de domingo nas suas ilhas de perfume espanhol, a minha
filha apertava a cabeça na minha barriga, fazia-a girar uma ou duas
voltas a segurar-lhe os ombros com medo que se soltasse de mim e se
aleijasse numa esquina, meia-noite no Pragal
(a minha mãe antes de falecer
– Não necessito de ti
incapaz de fechar a boca, a tremer os joelhos)
na Austrália e no Japão manhã e todas as mães vivas, os trastes onde
o candeeiro não chegava invisíveis ou seja nódoas mais densas, adivinhava
o armário em que durante a chuva as loiças tilintavam, se a
aluna cega estivesse comigo havia de alarmar-se a medir o ar com as
orelhas
– O que foi?
e corrido um instante a senhora
– Ana Emília
a perguntar as horas, o que os doentes se inquietam com as horas,
como os intrigam que estranho
– Que horas são?
isto de segundo a segundo, duvidam, insistem
– De certeza?
que raio significam as horas para eles, continuará a existir a escola,
a árvore de que nunca se soube o nome e a madrinha a vigiar a sineta
nos seus cochichos de desculpa
– Continuo ao seu lado repare
subindo do Pragal para Almada principiava a suspeitar-se o Tejo
nos intervalos dos prédios, estes comércios de pobres, estas pessoas, se
achasse a minha mãe na rua aposto que se me atravessava à frente
– O teu pai deu-te o dinheiro ao menos?
nunca vi uma criatura cortar com tal fúria de dentes o que sobejava
de coser um botão e aí estava a Ana Emília a pensar nisto ao entregar
o comprimido à senhora que deslizava para o interior do sono a
teimar
– Gardénia
(uma prima, ela mesma?)
o comprimido obrigava-a a uma zona mais funda na qual um cavalheiro
de idade designava o globo terrestre com a unha suja
– O mundo é grande menina
e regressava ao caixão para estender-se nele, o arbusto de groselha
iluminava o muro e anulava-se em seguida, ao iluminar o muro um tijolo
despontava do reboco e adivinhava-se o postigo da arrecadação
em que uma panela eléctrica avariada e cebolas que grelaram, a minha
filha de volta a casa comigo, dois passos meus, três passos dela, um cachorro
a farejar memórias e a minha filha a puxar-me a saia
– O bicho vai morder-nos mãe
até as memórias
(de uma tigela de carne, da dona a assobiar-lhe, do cesto onde enrolar-
se)
conduzirem o cachorro no sentido do parque em que talvez a tigela
ou a dona
(– Pões-me nervosa tu)
o animassem ao passo que no meu caso, quando chego do Pragal a
Lisboa com o muro do arbusto de groselha a diluir-se em mim, nenhuma
unha suja a apontar-me nada, o globo terrestre empenado no
seu eixo e o mundo pensando bem não grande coisa, acanhado, pare
des e paredes, o biombo que me impedia o quarto, o mundo uma esfera
encolhida a desbotar as cores, do reposteiro, do abajur, das
almofadas do sofá e a boneca da minha filha na mesinha, apertei-lhe a
cabeça na barriga e tentei uma volta com medo que se soltasse de mim
e se aleijasse, os defuntos muito direitos de gravata branca
– Cuidado
e pode ser que chovesse porque um tilintar de loiças que o armário
fechado atenuava, o meu marido a impedir-me de girar agarrada à boneca
– O que vão pensar de nós já viste?
as flores do arbusto de groselha no meu cabelo e na gola a impedirem-
me a aluna cega, as gémeas e a ruiva gorda que falhava os degraus,
eu a afastar o meu marido
– Pões-me nervosa tu
com a macieira do quintal na ideia, maçãzinhas insignificantes,
verdes e o banco tombado, recordo-me dos besouros junto ao poço
apesar de o taparmos com uma chapa, ao recordar os besouros sons
húmidos de foca e a senhora
– Ana Emília
o casaquito de malha de botões trocados, uma espécie de sorriso a
justificar-se
– Não dizia que não a um chazinho
de lucialima, de tília, das ervas que cercavam a macieira e não cortávamos
nunca, apetece-lhe um chazinho das ervas junto às quais a
minha filha se enforcou aos quinze anos senhora, apetece-lhe assustar-
-se com a boneca no chão, a cara contra barriga nenhuma que não
deixava de girar, uma altura não à meia-noite como hoje
(ignoro como não tenho vergonha de dizer isto)
mais cedo, encontrei o meu marido a experimentar uma saia minha
e os meus brincos, igualzinho às mulheres vestidas de domingo na
travessa, o meu pai da secretária
– Ainda aí estás que mania
a conversar com o empregado ou a tapar o bocal, um jornal de
anúncios de casamento que os clientes mandavam pelo correio e o
meu pai a ler as cartas ao empregado
– Que tontos
a minha mãe na paragem do autocarro cem metros abaixo parecendo
tão acabada ao trotar para mim a misturar sílabas no cansaço
– Deu-te o dinheiro ao menos?
enquanto eu pensava
– Nem um nem outro compreende quem sou desconhecem-me
se o automóvel do homem que prometeu visitar-me contornasse a
praceta até lhe agradecia as mentiras, o meu marido viu-me no espelho
e tirou um dos brincos convencido que tirara tudo, a saia, o camiseiro,
o colar, os frutos da macieira já não verdes, grandes, um primo nosso
desatou a corda que a minha filha roubara do estendal e a indignação
dele gritava, auxiliei a senhora com a chávena e na segunda tentativa
de engolir um suspiro
– Não posso mais
no mesmo cochicho de desculpas que a madrinha da aluna cega a
devolver-me o portão da escola e as janelas trancadas, eu continuando
a acreditar diante do recreio vazio e aposto que não escola hoje em dia,
uma repartição, escritórios, a árvore e o escorrega um vazadouro onde
se deixam restos e metade de uma persiana a bater, a bater, ao fim do
mês na sala, se é que pode chamar-se sala àquilo
(um Buda numa réplica de altar)
a sobrinha da senhora fazia as contas ao tempo, a minha mãe embora
falecida a roubar-me o envelope verificando-lhe a espessura
– Deu-te o dinheiro ao menos?
a aferrolhá-lo à chave e a sumir a chave no avental maldizendo o
meu pai enquanto interrogava sombras
– Expliquem-me como pude acreditar no camelo?
a família seguia-a das molduras e a imagem dela em nova já amarga,
já séria, nunca a visito no cemitério conforme nunca visito a minha
filha, um lugar a ferver de ossos que procuram exprimir-se, a sineta da
capela mais grave que a da escola, nomes que se decifram mal e a nin
guém pertencem, a ilusão que uma criança um dia destes no portão e
a gente a rodopiar contentes, o meu marido estendeu-me o brinco na
palma, além da boneca o aquário sem peixes nem água com um alicate
no bojo já não na entrada nem no quarto, na despensa, sinto-o brilhar
no meio das conservas e talvez a surpresa de um peixe, o olho fixo que
me estuda, a cauda sacode-se e que é dele, na época da minha filha
plantas artificiais e um frasquito de comida que sabia a giz, a minha
filha
– Sabe a giz
a quantidade de episódios que gostava de deitar fora
– Aguentem-me esta tralha um bocadinho tomem
intimidades que até hoje ocultei, pedir ao homem que prometeu
visitar-me e não visita
– Escuta
sentar-me à sua frente demasiado cheia de palavras, começar baralhando
tudo, a trocar frases, a enganar-me e ele quase comovido, feliz,
inventar que o meu pai comigo ao colo, o jornal importante numa rua
importante, não uma travessa de comerciozitos e mulheres vestidas de
domingo nas suas ilhas de perfume espanhol, o meu pai um fato como
deve ser em vez do casaco curtíssimo, empregados que o respeitavam,
não um, vários, uma unha suja
(não dele)
a apontar o globo terrestre
– O mundo é grande menina
na crença que eu imaginasse regiões infinitas numa porção de lata
amolgada no Pacífico e a povoasse ao meu gosto, pretos com flechas,
naufrágios, arranjar um marido, uma filha e um quintal com uma macieira,
que tonta, como se um galho de macieira aguentasse sem quebrar
uma rapariga de quinze anos, um arbusto de groselha ao
comprido do muro no Pragal e uma senhora inválida no primeiro andar,
a quantidade de episódios que apesar de tudo me enterneciam e
gostaria que alguém, prestando-me atenção, soubesse, a noite e os pavores
que o silêncio traz consigo menos difícil para mim, em miúda
morei perto do cemitério e vi as fosforescências que se erguiam das lápides,
presumo que os defuntos embaraçados em pedregulhos e raízes
desejosos de ressuscitarem, os que não cheguei a conhecer inspeccionando
a casa a interrogarem-me acerca da utilidade dos objectos, a
quantidade de episódios que gostava de dizer a alguém, darem-me um
bocadinho de consideração, de simpatia e no fundo de mim uma sineta
de escola que não pára, não pára sem que criatura alguma lhe toque
salvo o vento, aproximo-me e o badalo sozinho, a minha avó a enterrar
as crias da gata que chiavam gemidos encavalitando-se, rastejando,
protestando, começava por prender a gata na copa
(e o bicho furioso contra a porta)
a seguir juntava as crias num cabaz
(tudo isto calada)
suspendendo-as pelo pescoço, o rabo, uma pata, abria a cova e entornava
o cabaz enquanto o desespero da gata derrubava boiões, a minha
mãe
(– Deu-te o dinheiro ao menos?)
embuçava-se no avental com as sobrancelhas de garota aflita
– Não me habituo a isto
numa agitação de lágrimas sem lágrimas, o meu avô para a minha
mãe a procurar fosse o que fosse nos bolsos sem procurar nada ou a
descobrir uma moeda, a examiná-la um instante e a lançá-la pela janela
ele que não deitava nem um prego torto fora
– Não se pode contrariar a tua mãe desculpa
a minha mãe
– Pai
e o meu avô a desviar-se de nós com o osso da garganta para baixo
e para cima enquanto a minha avó ia tapando as crias, alisava a terra
com as botas e os gemidos cessavam, a gata por fim resignada na copa,
à espera, horas no relógio da consola, quatro ou cinco, com o mecanismo
a obrigá-las a despenharem-se que bem se percebia o esforço das
molas conduzindo-as até à bordinha e deixando-as cair, no cair da última
a minha avó esfregava as solas no capacho a olhar para a gente
num desafio ou assim
(e se calhar procurando moedas nos bolsos por trás do desafio)
à medida que a gata farejava a terra alisada, sumia-se nos feijoeiros
e regressava dois dias depois a dobrar-se-lhe de desgosto nas pernas, se
tivesse herdado o relógio que venderam com os tarecos ao venderem a
casa confirmava que meia-noite, um relógio de medalhão de porcelana
representando um coche, dois cavalos
(um castanho e um pardo, ou seja um castanho e um branco que
a vida empardeceu)
e um sujeito de chicote a segurar nas rédeas, no interior pesos e
volantes fabricando as horas, arredondando-as, trazendo para cima esses
pingos de som, quem terá comprado a quinta, quem sofrerá como
eu dantes os gemidos das crias encavalitando-se, rastejando, protestando,
quem se interroga a inclinar a orelha
– O que é isto?
a gata ficou a inspeccionar a cova agachada nas dálias, dizer também
da gata antes que o inverno comece e com ele choupos negros, os
cachos do arbusto de groselha no chão, sons húmidos de foca no primeiro
andar e a senhora que me perdeu o nome
– Você
tacteando ruínas do passado, um grupo de parentes a suspender o
jogo de cartas
– Gardénia
e um barquinho a remos que se detinha em junquilhos e lodo,
tentou segurá-lo e escapou-se, chamou-o e não obedeceu, apercebeu-se
que o barquinho não vazio, uma miúda de vestido lilás a sorrir-lhe
– Nunca mais nos vemos
e era ela mesma a acenar-se adeus, compassos de música e um padre
a trinchar um frango à cabeceira da mesa, a senhora a dirigir-se à
miúda que cessara de sorrir-lhe, ocupada a colocar flores no chapéu
– Você
enquanto a filha me estendia o ordenado
– Já nem os nomes distingue
consoante não distingue o tilintar das loiças no armário e as mil
crepitações dos barrotes, os insectos que apesar da alfazema
(sinto o cheiro à distância, rocas de alfazema que uns lacinhos
unem)
lhe roem as fronhas e as toalhas da arca, as pilhas de revistas
(La Femme Idéale, Maravilhas de Renda, O Bom Cozinheiro)
a cantoneira de relevos trabalhados e o homem que prometeu visitar-
me em Évora com a mulher a receber da boca dele confidências
que me pertencem, são minhas, segredos que me comovem e até hoje
calei, mistérios provavelmente idênticos aos de toda a gente, banalidades
de pacotilha, falsidades, a minha filha com quinze anos
(creio ter afirmado quinze anos)
a pegar na boneca ela que não lhe ligava fazia séculos dado que as
paixões vai-se a ver e passam
– Chame-me quando o jantar estiver pronto que vou lá fora ao
quintal
de modo que nem sequer a olhei a pensar no mar da Póvoa de
Varzim que tantas vezes me regressa à ideia, o mar, a praia e o cheiro
das ondas, o nevoeiro da manhã que quase me impede de assistir à minha
avó a enterrar as crias e a enchente que lhes abafa o terror, sempre
que um assunto me preocupa aí estão o vento e a espuma a salvarem-
-me, o vento nas frinchas dos caixilhos e apesar da minha mãe se enervar
com a areia no soalho obrigada vento, nem calculas o que te devo,
a nossa casa não na Póvoa de Varzim, no interior a que os gritos das
traineiras não chegavam a não ser em abril no caso de tudo em silêncio,
a bomba do poço, os tentilhões no pomar, o meu avô desdobrava
redes para os pássaros e embora estrangulados eu insistia em libertá-
-los, batia palmas diante de asas mortas
– Desapareçam
a impacientar-me
– Sumam-se-me da vista num ai
e a procurar fosse o que fosse nos bolsos sem procurar nada, não a
examinar a moeda nem a lançá-la fora porque não tinha um prego
torto para amostra, na hipótese de um rebuçado dava-o aos tentilhões
– Se prometerem que se vão embora ofereço-o
havia alturas em que o mar tão sereno em agosto com uma paz de
nuvens em cima, basta o mar em agosto e a recordação do Casino e
emociono-me logo, as lágrimas que eu choraria se lá estivesse amigos,
ganas de beijar as pedras ao reencontrá-las, senti-las na palma, aproximá-
las da bochecha, chamei a minha filha em Lisboa enquanto as ondas
iam e vinham na Póvoa, provavelmente uma única onda sem
cessar repetida, o meu marido no espelho com o brinco suspenso, o
queixo bambo do gado de focinho inerte mas de membros rigídos, depois
de se lhes martelar um espigão na nuca ei-los a tombarem de banda,
a senhora acotovelou o padre que trinchava o frango à cabeceira da
mesa a pronunciar o meu nome
– Ana Emília
borboletas no verão fosse na Póvoa de Varzim fosse no Entroncamento
onde também morei
(se tiver oportunidade escrevo acerca dos comboios, oito anos da
minha vida sob o signo dos comboios, sou da época das locomotivas a
carvão, vozes de almas do Purgatório sofrendo na caldeira que imploravam
socorro)
fosse na Póvoa de Varzim fosse no Entroncamento fosse aqui em
Lisboa borboletas, uma azul e duas brancas quando chamei a minha
filha para jantar
(continuarão a existir redes e tentilhões?)
ou duas azuis e uma branca ou três azuis ou três brancas tanto faz,
o importante é que borboletas, porventura mais que três, meia dúzia,
uma dúzia, quarenta, sessenta, centenas de borboletas em torno da
macieira, pronto, se alguém
(aquele a quem gostava de dizer uma porção de coisas, intimidades
que por pudor escondi)
se o homem que prometeu visitar-me com a mulher em Évora a
dar-lhe uma atenção que devia ser minha, é minha, me pertence, quiser
subtrair algumas que subtraia
(pode ser que na província redes e tentilhões e um velho a mascará-
las de caniços)
por conseguinte a borboleta azul e as duas brancas, os canteiros
que me esqueci de arranjar, a minha filha
já lá vamos à minha filha, antes da minha filha e pela última vez
repito que o mar da Póvoa de Varzim tão sereno em agosto com uma
paz de nuvens em cima e por falar na minha filha uma paz de nuvens
em cima também, estiradas ou redondas
(uma redonda no horizonte)
basta o mar em agosto e a recordação do Casino para me enternecer,
as lágrimas que eu choraria não de tristeza, contente, se lá estivesse
amigos, pensei que a minha filha entretida por exemplo com as crias
da gata sob a terra encavalitando-se, rastejando, protestando e ela a tapar
os ouvidos conforme tenho vontade de tapá-los ao recordar a sineta
ou o murmúrio da árvore composta de várias árvores diferentes, de
folhas demasiado pequenas para o tronco
(as mãos do meu pai no fim dos braços enormes, gestozinhos impelidos
pela aragem das seis
– Pões-me nervoso tu)
a minha filha enquanto as ondas iam e vinham, aposto que uma
única onda sem cessar repetida, densa, grande, a areia quase brilhante
(brilhante, a areia brilhante)
e sem marcas de pés ao retirar-se, uma linha de alcatrão por junto,
sons húmidos de foca no primeiro andar
– Ana Emília
um casaquito de malha de botões trocados
– Não dizia que não a um chazinho
e uma espécie de sorriso a desculpar-se, chá de lucialima, de tília,
das ervas que cercavam a macieira e não aparávamos nunca, quer um
chazinho das ervas junto às quais a minha filha se matou aos quinze
anos minha senhora, ao descer os degraus a boneca no chão, o banco,
de início não vi a corda nem me passou pela cabeça que uma corda,
para quê uma corda, vi a borboleta, a boneca no chão e o banco, a boneca
por sinal não deitada, sentada, de braços afastados e cabelo preso
na fita usando o vestidinho que lhe fiz, a boneca a quem eu
– Desaparece
capaz de lhe oferecer um rebuçado para que desaparecesse num ai
antes do meu avô pegar na caçarola e na banha, vitorioso no umbral
– Um molho de passarinhos fritos como deve ser
vi as borboletas, centenas de borboletas e não somente brancas e
azuis, várias cores, centenas de asas contra a macieira, não ondas, asas,
não pedras que me apetecesse beijar ao reencontrá-las, senti-las na palma,
aproximá-las da bochecha, asas, à medida que avançava asas, que
chamava a minha filha asas, não uma corda grossa, aliás não tínhamos
cordas, tínhamos guitas e atilhos de embrulho na gaveta da tintura de
iodo, da turquês e das chaves de móveis que não possuíamos já numa
caixita de alumínio porque nunca se sabe, a caixita proclamava Graxa
Parisiense com uma botina a cintilar no rótulo, podia continuar horas
sem fim a descrever a caixita na mira de adiar dizer o que é inevitável
que diga e a minha boca recusa, a minha cabeça recusa, toda eu
recuso, um resto de pasta negra grudava-se à lata
– Pões-me nervosa tu
destroços de raciocínios, lixo de dias, uma lamúria desiludida
– Gardénia
zonas submersas nas quais domingos, um cavalheiro de idade a designar
o globo terrestre
(meia-noite)
com a unha suja
– O mundo é grande menina
(afirmei que meia-noite)
o arbusto de groselha iluminado no muro e a apagar-se em seguida,
no arbusto não uma corda, o fio do estendal que nem se percebe
como não quebrou com o impulso porque a minha filha desviou o
banco com os pés, um dos pés pelo menos, deve ter principiado por
colocar a boneca no chão
– Quero mostrar-te uma coisa repara
a amarrar a corda no galho, vou regressar à Póvoa de Varzim, às
borboletas, à aluna cega estudando o ar sem entender a sacudir a madrinha
– O que foi?
e o que foi minha querida é que a porta e as janelas trancadas,
compartimentos desertos, poeira, o edifício da escola afinal abandonado
e velho, o que foi minha querida é uma borboleta branca e duas
azuis ou uma borboleta azul e duas brancas tanto faz, o que me ralaram
as borboletas nessa altura, o que me ralam agora, ainda se fosse o
mar da Póvoa, o Casino, o que foi era a boneca parecia que divertida,
eu à medida que compreendia com medo da rede dos tentilhões
– Põem-me nervosa vocês
e dos canteiros que me esqueci de arranjar, eu a procurar fosse o
que fosse nos bolsos sem procurar nada, o osso da garganta para baixo
e para cima no momento em que uma unha suja
– O mundo é grande menina
designava a minha filha a girar abraçando-me a cintura e uma volta,
duas voltas com receio que se desprendesse, não tivesse forças para
continuar a dançar e uma esquina a aleijasse, centenas de asas entre a
macieira e eu, não ondas, asas, receio que uma das pernas tocasse na
boneca, no banco, o brinco a diminuir na mão do meu marido, a imagem
do espelho a afastar-se, se o homem que prometeu vir e não veio
me ajudasse
– Ajuda-me
me pudesse ajudar, me desse a ilusão de poder ajudar, responder-
-lhe
– Não preciso de nada
sem conseguir fechar a boca e de joelhos a tremerem à medida que
iam passando por mim o tilintar das loiças com a chuva e a arrecadação
onde as cebolas grelaram, eu indiferente ao chá
– Não preciso de nada
e aí está a Ana Emília sozinha dado que não precisa de nada, para
além de não precisar de nada não espera nada, não deseja nada nem
sequer uma última onda, com a última onda um friso de alcatrão na
praia que ali permanecerá para sempre, observava a filha, observava a
boneca, observava a filha de novo a estranhar-lhe o silêncio, olhos não
aumentados, distraídos
(a imaginarem o quê?)
os frutos da macieira pontinhos verdes, nos últimos anos nem chegaram
a maçãs, apodreciam minúsculos, a boneca que não tinha que
dizer-me, como a senhora, como a Ana Emília para o que prometeu
vir e não veio
– Não preciso de nada
dado ser óbvio que não precisava de nada, satisfazia-se em girar
não tão rápido quanto no portão da escola, devagarinho, sem peso,
aproximei-me da minha filha a enxotar as borboletas
(dúzias de borboletas)
que surgiam da erva para subirem, até ao vértice das copas, na direcção
da tal única onda sem cessar repetida que me acompanha desde
o meu nascimento, aproximei-me não da minha filha, da boneca e a
sineta da escola calou-se na memória, lá estava o pátio, o escorrega
(intactos, nítidos)
a madrinha da aluna cega a cochichar cumprimentos em tom de
desculpa, vontade de gritar-lhe consoante a boneca me gritou
– Afaste-se de mim não me aborreça
e tirando a madrinha da aluna cega ninguém, não havia a macieira,
não havia a minha filha de modo que eu diante de um ramo sem
nada, a minha filha em casa à mesa de jantar começando a comer não
por falta de educação
(– Espero um bocadinho pela minha mãe cinco minutos vá lá)
por fome, a empurrar para a borda com a delicadeza do garfo
(no que respeita a delicadeza não é por ser minha filha mas sempre
teve modos distintos)
os legumes de que não gostava
– Como nunca mais vinha fui começando a comer
por consequência uma boneca e é tudo, não um ser vivo e muito
menos alguém que eu conheça e conheço tanta gente, muito menos a
minha filha, a minha filha a começar a comer, não merece a pena apoquentar-
me, esconder-me no avental onde as sobrancelhas de uma garota
aflita numa agitação de lágrimas sem lágrimas, não merece a pena
encavalitar-me, rastejar, protestar, tentar fugir da cova dado que não
existe cova, ninguém me enterra, ninguém me quer matar, espero um
bocadinho
(cinco minutos vá lá)
que me toquem à porta e se não me tocarem à porta acerto o fecho
de segurança encalhado no ressalto inferior, no de cima não há
problema mas no inferior empena, corrijo-o com o martelo, guardo os
cálices no aparador
(outrora seis e cinco hoje em dia, tudo na vida tem a sua duração
até os cálices)
e deito-me sem pensar que um automóvel na rua, passos na escada,
um indicador cauteloso, quase tão delicado como o da minha
filha, a raspar a madeira
– Sou eu
e que juro não ouvir, não oiço, se por acaso ouvir atribuo-o ao sono
no qual ecos, sinais de conversas, ameaças, o galho da macieira a
sussurrar mistérios de baú no interior da alma visto que é nas trevas e
quando menos se espera que os baús se lamentam, portanto e até amanhã
unicamente o mar da Póvoa de Varzim tão sereno em agosto,
uma paz de nuvens em cima e eu acocorada a olhá-lo, dou com as
borboletas
(não importa a cor nem o número, escolham a cor e o número
que quiserem, divirtam-se)
as ervas que um dia destes, para a semana por exemplo, auxiliada
pela tesoura ou a foice ou o ancinho hei-de arranjar prometo, com um
pouco de atenção darei pela senhora igualmente
– Ana Emília
ou seja primeiro espasmos húmidos de foca e a seguir
– Ana Emília
não no Pragal, no meu sono ou na Póvoa de Varzim em agosto,
no que respeita ao horizonte tornava-se difícil distinguir o céu do mar,
não um risco como de costume, o risco ausente de forma que impossível
saber o sítio em que o céu se dobrava e começava a onda, em que a
espuma a franzir-se, percebia-se a boneca, não a minha filha, na ponta
da corda ou do fio de estendal que ia girando devagar, não de braços
afastados, pegados ao corpo numa atitude de entrega, uma boneca de
que as borboletas
(dúzias de borboletas)
de que dúzias de borboletas me impediam de notar as feições, notar
a minha filha em casa a começar a comer empurrando para a borda
do prato com a delicadeza do garfo
(não é por ser minha filha mas sempre teve modos distintos)
os legumes de que não gostava, a minha filha a começar a comer,
acho que fui clara e peço que não me contrariem neste ponto, a minha
filha a começar a comer desculpando-se
– Como nunca mais vinha fui começando a comer
a minha filha a começar a comer, a minha filha viva e de uma vez
por todas se não me levam a mal
(espero que não me levem a mal)
não se fala mais nisso.»



António Lobo Antunes
Ontem Não Te Vi Em Babilónia
Dom Quixote, 2006
Sozinho na noite da rua Augusto Gil, sentado no carro de motor desligado e luzes apagadas, o psiquiatra apoiou as mãos no volante e começou a chorar: fazia os possíveis para não emitir nenhum som, de modo que os ombros se lhe sacudiam como o das actrizes do cinema mudo, escondendo os caracóis e as lágrimas no abraço de um avô de barbas: Porra porra porra porra porra, dizia ele no interior de si mesmo, porque não achava dentro de mim outras palavras que não fossem essas, espécie de débil protesto contra a tristeza cerrada que me enchia. Sentia-me muito indefeso e muito só e sem vontade, agora, de chamar por ninguém porque (sabia-o) há travessias que só se podem efectuar sozinho, sem ajudas, ainda que correndo riscos de ir a pique numa dessas madrugadas de insónia que nos tornam Pedro e Inês em cripta de Alcobaça, jacentes de pedra até ao fim do mundo. E lembrei-me de uma pessoa me contar que em miúda a mãe a levara a fazer visitas numa época em que criaturas se relacionavam umas com as outras em bicos de pés de delicadezas excessivas; e então ela entrava em casas hirtas povoadas de grandes relógios e de pianos com castiçais onde a música se inclina a tremer na direcção do vento, escutava os lamentos das senhoras afogadas pelo damasco dos reposteiros e os suspiros dos mortos nos retratos da parede, e pensava: Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde. De forma que anos e anos volvidos vertia álcool das farmácias nas jarras de flores para o beber às ocultas e conseguir desse jeito um meio-dia perpétuo.

(...)



António Lobo Antunes
Memória de Elefante
Publicações Dom Quixote, 1983