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faço amor contigo como escrevo / eduardo white

Faço amor contigo como escrevo e só escrevo em plena liberdade e ouvindo os runores, os arfares, os gritos, os rumores que implicam profundamente essa palavra.

Mais exemplar ou mais conclusivo eu seria...bem, nem exemplar, nem conclusivo, mas convincente. É essa a palavra certa se eu disser faço amor com a liberdade a enrouquecer da mais insossegável gritaria.

Tens qualquer coisa de cigana, qualquer coisa que se desmascara, desinibe-se ou te torna forte e segura e não mais nada. Só tu, os itinerários que se aparentam desconhecidos, o estares aqui hoje e amanhã ali e, depois, noutro lugar qualquer.

Retrato contundente do lado laminado da tua navalha, aquela em cujo corte se equilibram o estranho e o conhecido do fulcro que as amealha.



Eduardo White
Dos Limões Amarelos
do Falo às Laranjas
Vermelhas da Vulva

Campo das Letras

o manual das mãos / eduardo white

A minha verdade relativa é esta: não sei se é maduro o poeta em mim com quem converso ou se amadureceu a poesia que lhe peço. Posto isto, escrevo para dentro algum olhar. Sei que está vivo e respira. Peço a retina desse milagre, o mundo fora de mim que ele divisa. Oiço, dali, uma saudade que borbulha, as mãos que são dela e que marulham. Subo à traqueia um pouco do que de dentro deste ar é puro. O amor, por exemplo, que sinto, a vontade que é deitar-me sobre o chão do mundo, vestir-me de veludo e com a candura das estrelas. Assobio uma canção de entre os lábios, um perfume imóvel a visitar essa harmonia. Danço com as notas uma viagem melódica, uma letra vestida na sua nudez, rumo. Para onde não sei. Mas rumo, como se evoluísse para um horizonte líquido, para um acontecimento feliz. Oiço as vozes das palavras chegarem-me com delicadeza, alvas, profundas, flutuantes e azuis.


Eduardo White
O Manual das Mãos
Campo das Letras

janela para oriente / eduardo white

Tenho uma janela amarela virada para Oriente. Docemente e sem assombro. Todos os dias me sento defronte dela para a olhar. E o vento que a bate faz-me um incêndio para escrever, desce devagar a rampa por onde vou saltar. Minha e sem fim esta natureza fresca dos seus vidros, a luz que por ela é uma magia tão purissima. Tenho a janela num quarto que amo, unido com o sangue verde do vale que dela eu vejo, dos livros fechados em seus destinos, dos jornais aos montes e sem notícias. O ar deste quarto está de sorrisos e de surpresas, de desgostos que irão viver, cheio de lugares que ainda não sou. Oiço músicas dentro dele, caladas e brancas de repente, oiço cores incessantes e um poeta que pressinto esteja a morrer. Leio as palavras que o são. Frias. Concretas. Óbvias e desertas. E a morte é um murmúrio por detrás de tudo o que gritam sem dizer. Um sibilar envenenado e arrepiante, um voar rasante e precipitante. A morte desenha-lhe as mãos que daqui posso ver a tremerem. E, por isso, fica o quarto mais cinzento, mais frio, severo como a pedra de um deus.
É directo e dói o poeta, dói como um peregrino que amanhece sem dormir.


Eduardo wWhite
Janela para Oriente
(excertos)
Caminho