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Funeral Blues
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.
The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Blues dos refugiados
Digamos que esta cidade tem cerca de dez milhões,
Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,
Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.
Já tivemos um país, que nos parecia bem,
Procurem-no no Atlas, que ainda lá vem:
Já não podemos voltar, amor, já não podemos voltar.
Cresce um velho teixo junto ao largo da igreja,
E todas as Primaveras de novo floreja,
Mas os velhos passaportes não, amor, os velhos passaportes não.
O cônsul deu um murro na mesa, impaciente:
«Não têm passaporte, estão mortos oficialmente.»
mas continuamos vivos, amor, continuamos vivos.
Fui a uma comissão, mandaram-me esperar sentado;
Que voltasse para o ano, disseram num tom educado.
Mas para onde iremos hoje, amor, para onde iremos hoje?
Fui a um comício em que o orador, de pé, dizia:
«Se os deixarmos entrar, roubam-nos o pão de cada dia.»
Falava de nós os dois, amor, falava de nós os dois.
Pensei ouvir trovões no céu a tremer;
Era Hitler na Europa, dizendo: «Devem morrer.»
Estava a pensar em nós, amor, estava a pensar me nós.
Vi um cão-de-água preso à lapela de um fato,
E uma porta a abrir-se para que entrasse um gato:
Mas não eram judeus alemães, amor, não eram judeus alemães.
Fui até ao porto, pus-me a olhar para a corrente,
Na água vi os peixes a nadar livremente:
Mesmo a dez pés de mim, amor, mesmo a dez pés de mim.
Andei pela floresta, vi os pássaros empoleirados,
Não tinham políticos e piavam os seus trinados,
Não eram a raça humana, amor, não eram a raça humana.
Sonhei que via um prédio com um milhar de andares,
E milhares de janelas, portas aos milhares,
E nenhuma era nossa, amor, nenhuma era nossa.
Cheguei a uma campina com a neve tombando,
Vi dez mil soldados de lá para cá marchando;
procurando-nos aos dois, amor, procurando-nos aos dois.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Tradução de Margarida Vale de Gato
Há os que vivem em buracos, há os que vivem em mansões,
Mas não há lugar para nós, amor, não há lugar para nós.
Já tivemos um país, que nos parecia bem,
Procurem-no no Atlas, que ainda lá vem:
Já não podemos voltar, amor, já não podemos voltar.
Cresce um velho teixo junto ao largo da igreja,
E todas as Primaveras de novo floreja,
Mas os velhos passaportes não, amor, os velhos passaportes não.
O cônsul deu um murro na mesa, impaciente:
«Não têm passaporte, estão mortos oficialmente.»
mas continuamos vivos, amor, continuamos vivos.
Fui a uma comissão, mandaram-me esperar sentado;
Que voltasse para o ano, disseram num tom educado.
Mas para onde iremos hoje, amor, para onde iremos hoje?
Fui a um comício em que o orador, de pé, dizia:
«Se os deixarmos entrar, roubam-nos o pão de cada dia.»
Falava de nós os dois, amor, falava de nós os dois.
Pensei ouvir trovões no céu a tremer;
Era Hitler na Europa, dizendo: «Devem morrer.»
Estava a pensar em nós, amor, estava a pensar me nós.
Vi um cão-de-água preso à lapela de um fato,
E uma porta a abrir-se para que entrasse um gato:
Mas não eram judeus alemães, amor, não eram judeus alemães.
Fui até ao porto, pus-me a olhar para a corrente,
Na água vi os peixes a nadar livremente:
Mesmo a dez pés de mim, amor, mesmo a dez pés de mim.
Andei pela floresta, vi os pássaros empoleirados,
Não tinham políticos e piavam os seus trinados,
Não eram a raça humana, amor, não eram a raça humana.
Sonhei que via um prédio com um milhar de andares,
E milhares de janelas, portas aos milhares,
E nenhuma era nossa, amor, nenhuma era nossa.
Cheguei a uma campina com a neve tombando,
Vi dez mil soldados de lá para cá marchando;
procurando-nos aos dois, amor, procurando-nos aos dois.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Tradução de Margarida Vale de Gato
As criaturas
São o nosso passado e o nosso futuro: os pólos entre os quais o
_____nosso desejo incessantemente é descarregado.
Um desejo em que o amor e o ódio se opõem de modo tão per-
_____feito que não nos conseguimos mover voluntariamente;
_____mas aguardamos a extraordinária compulsão do dilúvio e
_____do terramoto.
Os seus afectos e indeferenças têm guiado todos os reformadores
_____e tiranos.
As suas ocorrências nos nossos sonhos de maquinaria produzi-
_____ram uma visão de épocas fabulosas.
Ó orgulho, tão hostil a nossa Caridade.
Mas aquilo que o seu orgulho reteve, podemos nós por caridade
_____reaver mais generosamente.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Tradução de Margarida Vale de Gato
_____nosso desejo incessantemente é descarregado.
Um desejo em que o amor e o ódio se opõem de modo tão per-
_____feito que não nos conseguimos mover voluntariamente;
_____mas aguardamos a extraordinária compulsão do dilúvio e
_____do terramoto.
Os seus afectos e indeferenças têm guiado todos os reformadores
_____e tiranos.
As suas ocorrências nos nossos sonhos de maquinaria produzi-
_____ram uma visão de épocas fabulosas.
Ó orgulho, tão hostil a nossa Caridade.
Mas aquilo que o seu orgulho reteve, podemos nós por caridade
_____reaver mais generosamente.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Tradução de Margarida Vale de Gato
Epitáfio de um tirano
A perfeição, ao seu estilo, era o que mais queria,
E escrevia uns versos de fácil compreensão;
Conhecia a loucura como a palma da mão,
E interessava-se imenso por tropas e armadas,
Senadores respeitáveis riam quando se ria,
E, quando chorava, crianças morriam nas estradas.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Tradução de Margarida Vale de Gato
E escrevia uns versos de fácil compreensão;
Conhecia a loucura como a palma da mão,
E interessava-se imenso por tropas e armadas,
Senadores respeitáveis riam quando se ria,
E, quando chorava, crianças morriam nas estradas.
W.H. Auden
Outro tempo
Relógio D` Água, 2007
Tradução de Margarida Vale de Gato
Rimbaud
As noites, as pontes de comboio, a má estrela,
os seus temíveis companheiros não as conheciam;
Mas nessa criança a mentira do retórico
Queimava como uma fornalha: o frio fizera um poeta.
As bebidas que o seu amigo tíbio e lírico
Lhe comprava, perturbavam-lhe os cinco sentidos,
Teimando com todo o nonsense corriqueiro;
Até se alhear dos pecados e da lira.
Os versos eram uma doença específica do ouvido:
a integridade era de menos; parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo.
Agora, galopando pela África, ele sonhava
Um novo eu, um filho, um engenheiro,
Cuja verdade mentirosos aceitassem.
os seus temíveis companheiros não as conheciam;
Mas nessa criança a mentira do retórico
Queimava como uma fornalha: o frio fizera um poeta.
As bebidas que o seu amigo tíbio e lírico
Lhe comprava, perturbavam-lhe os cinco sentidos,
Teimando com todo o nonsense corriqueiro;
Até se alhear dos pecados e da lira.
Os versos eram uma doença específica do ouvido:
a integridade era de menos; parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo.
Agora, galopando pela África, ele sonhava
Um novo eu, um filho, um engenheiro,
Cuja verdade mentirosos aceitassem.
W. H. Auden
O Massacre dos Inocentes: Uma Antologia
Assírio & Alvim, 1994
Tradução de José Alberto Oliveira
funeral blues
Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
W.H. Auden
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
no blogue Insónia
( Ao António Nobre, ontem falecido)
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e com os tambores em surdina
Tragam o féretro, deixem vir o cortejo fúnebre.
Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe em volta dos pescoços das pombas da cidade,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão.
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Este e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
O meio-dia, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: enganei-me.
Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Emalem a lua e desmantelem o sol;
Despejem o oceano e varram o bosque;
Pois agora tudo é inútil.
W.H. Auden
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
no blogue Insónia
( Ao António Nobre, ontem falecido)
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