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Back to the old house

à Sandra Carmo

Boy meets girl na biblioteca. Os teus olhos eram
tão cúmplices, dir-se-ia que tínhamos escrito juntos
todos esses livros. Uma única tarde podia levar-nos
longe demais para os barcos, era fácil esquecer
que lá fora havia apenas uma cidade pequena
com o inverno nos vidros.

Os livros permanecem onde os abandonámos
mas o tempo baralhou as pistas que nos guiavam
nesse labirinto. Lembrar-me de ti significa
medir uma distância dentro de mim próprio.
Serve isto para dizer o quanto nos afastámos da casa velha
onde era costume estar perto de ti dias inteiros.


Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença, 1997

My funny valentine

tu estás do meu lado
a noite inteira, anjo de mãos pequenas
nos despenhadeiros da terra

esta estrada não nos levará muito longe
mas sim eu serei o teu amigo
até ao fim



Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença, 1997

Prelude n.º24

De regresso ao meu palácio adormecido, esta luz deve significar
que foste apenas uma das invenções da noitada. Tinha começado
  [a chover
outra vez, todos os fogos estariam mortos se eu não tivesse trazido
  [uma parte
das tuas mãos nos meus bolsos. Mas eu não me lembro de te ter dito
como é que as coisas funcionam para mim. À força de estar sempre
  [tão calado
já não distingo nada por detrás da minha cara. Como é que te serviu
  [o meu desejo
entre a desordem que fazíamos? O tempo era tão comprido
  [nos meus sentidos
que eu poderia ter dito: quero ficar contigo para sempre. Ainda bem
  [que as circunstâncias
não me levaram a dizer uma mentira.

Por enquanto ainda te reconheço
nos movimentos do que faço, ponho a roupa no armário com a tua pele.
Mas não verei muito do dia que se aproxima, acho que já o gastei
  [todo contigo
esta noite. Vai ser fácil encontrar nos esconderijos da música
um bom lugar para o sono. E contra isso, tu também não tens
  [muitas hipóteses.



Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença, 1997

Kentucky avenue

Estás à minha espera desde o começo
da tarde, as tuas janelas não dão
para lugar nenhum. Mas eu só posso fazer
o teu retrato. As fotografias coladas na parede
dizem muito pouco sobre ti.

Tu já gostaste de alguém até ao fim
de um rio - e então, onde é que está
o teu prémio?

Sais de casa, o céu corre para ti à altura
do cimento. O pouco que te resta nos dedos
é esse peso encravado em redor dos olhos.



Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença

Our darkness

para a Otília


Os dois tínhamos vindo do interior e fumado
os primeiros charros em garagens a cheirar a óleo
e a vinho azedo. O ar do atlântico que entrava pela avenida
era uma aventura, as casas faziam uma roda para proteger
a nossa inépcia. E na altura em que prendemos as mãos
nas águas fundas sobre a mesa e prometemos
que havíamos de ser sempre assim, como sabíamos
tão pouco ainda das regras naturais e do espaço sem luz
que já ameaçava essa promessa. De noite era onde fermentavam
as canções, e nós podíamos abrir uma garrafa de champanhe
na Praça da República, até parecia que nunca mais voltaríamos
a estar sós.


Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença, 1997

big night

A noite em que nos sentámos no muro
entre os quintais. O mundo estava aninhado
sob o tecto dos teus sentidos, recuava
à posição pouco óbvia
de um jardim.

Vinhas com o tempo certo sobre
as silvas, já punhas o amor a arder
nos canteiros. Não valia a pena explicar
uma coisa tão rara.


Rui Pires Cabral

Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença

the boy with the thorn in his side

Vendo bem, as vozes mais ingratas
foram as que acordaram em nós um violento
amor à vida : por essa beleza indócil
sofreríamos tudo, até ao fim. Mas, depois
da música, era como se uma estrela

morresse de repente: tínhamos 18 anos
e andávamos sempre de luto. Os velhos muros
das quintas, recreios da nossa infância,
estrangulavam ruas tortas no entardecer inerte
dum feriado nacional. Descíamos a ribanceira

por detrás do cemitério - estávamos já muito sós
e ainda queríamos tudo: um beijo e um charro
molhado de lágrimas para render mais. Porém,
a vida tardava ( como tardaria sempre) , era um lento
desengano com pequenos interstícios musicais.


Rui Pires Cabral
Capitais da Solidão
Teatro de Vila Real, 2006

[trânsito de sentido único]

Ao nascer do Sol descemos à praça
por desfastio ou engano: a noite,
que parecia eterna, termina agora
com um intragável gosto a cinza,
a quase nada.

A experiência, o nosso obstáculo.

Nas janelas de um autocarro
os madrugadores de cara lavada
guardam o segredo de uma sorte
que nunca pudemos seguir.
Mesmo assim, enternecem-nos:
ao fim de décadas de solidão
e desastres, ainda acreditam
no mundo. E, vendo bem,
por que não?

A alternativa não é grande coisa.

Rui Pires Cabral
Capitais da Solidão
Teatro de Vila Real, 2006

I was made to love magic

A manhã com as suas proibições
na tua fala. A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos não coincidiam
com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido uma mudança
onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.



Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze Cidades
Editorial Presença

O solitude

Eu gosto da tua cara contra o fundo
circunstancial, ocupas o espaço por onde a rua
se intromete, as tuas pernas magras no passeio
como as de um fantoche que só mexe os braços.

Ao canto uma árvore fazia sombra pequena
na desconversa. Estavas mais ou menos
a dizer: nenhum futuro neste sofrimento.
O teu melhor ângulo.


Rui Pires Cabral
Música Antológica & Onze cidades
Editorial Presença, 1997