Mostrar mensagens com a etiqueta heiner müller. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta heiner müller. Mostrar todas as mensagens

Horácio

1

O arrivista com ódio ao seu bloco de partida.
Com Bruto no poder é democrata.
Morte ao tirano e uma quinta também para mim
Pacifista em Filipos, vai escandindo o terreno.
Depois aprende a lição (ele também), muda
De rumo. Passemos uma esponja por cima de tudo, Augusto.
A quinta
Mecenas lha concede por uma menção nas Odes
Oito espelhos no quarto de dormir e nem mais uma palavra sobre
Bruto.
Abre-se-lhe a porta de entrada nas crestomatias
Aere perennius favorito dos filólogos.

2


Roma a puta de sete tetas.
Louvor do comedimento, mãe dos impérios
Engolida pelos filhos a crescer
Com versos perfeitos - para quê, de resto? -, precisa
Do luxo. Saciado, Horácio canta. O loureiro
A carne o tempera. Veação da Capadócia!
(E a árvore em flor nos montes Albanos!)
Vinte e três punhaladas, a segunda mortal,
Numa carne epiléptica, o que é isso
Comparado com o peido de Priapo na oitava sátira?


Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
Tradução de João Barrento

Jogo-medeia

Da teia desce uma cama que é disposta ao alto. Duas  figuras de mulher com máscaras mortuárias trazem uma rapariga para o palco e colocam-na de costas para a cama. Vestem a noiva. Atam-na à cama com o cinto do vestido de noiva. Duas figuras de homem com máscaras mortuárias trazem o noivo e colocam-no de frente para a noiva. Ele faz o pino, anda com as mãos no chão, faz a roda à frente dela, etc.; ela ri sem se ouvir. Ele rasga o vestido de noiva e toma posição encostado a ela. Projecção: sexo. Com os farrapos do vestido de noiva as máscaras mortuárias masculinas amarram as mãos, as máscaras mortuárias femininas os pés da noiva à cama. O reste serve de mordaça. Enquanto o homem, diante do público (feminino) faz o pino, anda com as mãos no chão, faz a roda, etc., a barriga da mulher incha até rebentar. Projecção: parto. As máscaras mortuárias femininas tiram da barriga da mulher uma criança, desamarram-lhe as mãos, põem-lhe o filho nos braços. Ao mesmo tempo, as máscaras mortuárias masculinas carregam de tal modo com armas o homem que ele já só consegue andar de gatas. Projecção: morte. A mulher arranca o rosto, desmembra a criança e lança os pedaços na direcção do homem. Da teia caem sobre o homem escombros membros entranhas.


Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
Tradução de João Barrento

Motivo em A. S.

Debuisson na Jamaica
Entre seios negros
Em Paris Robespierre
Com o queixo partido.
Ou Joana d'Arc quando o anjo não veio
Os anjos acabam sempre por não vir
DANTON MONTE DE CARNE NÃO É CAPAZ DE DAR
  CARNE À RUA
VEDE VEDE BEM A CARNE NA RUA
CAÇA AO VEADO DE SAPATOS AMARELOS.
Cristo. O demónio mostra-lhe as riquezas do mundo
RENEGA A CRUZ E TUDO SERÁ TEU.
Em tempo de traição
As paisagens são belas.



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
Tradução de João Barrento

O pai

1

Um pai morto talvez tivesse
Sido um pai melhor. Melhor ainda
É um pai nado-morto.
Volta sempre a crescer erva sobre a fronteira.
Tem de ser arrancada a erva
Sempre sempre a erva que cresce sobre a fronteira.


2

Gostava que o meu pai tivesse sido um tubarão
E despedaçado quarenta pescadores de baleias
(E eu aprendido a nadar no seu sangue)
A minha mãe uma baleia azul o meu nome Lautréamont
Falecido em Paris
Incógnito em 1871



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
Tradução de João Barrento

Brecht

Em verdade, ele viveu em tempo de trevas.
Os tempos ganharam em luz.
Os tempos ganharam em trevas.
Quando a luz diz: Eu sou as trevas,
Disse a verdade.
Quando as trevas dizem: Eu sou
A luz, não mentem.



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
Tradução de João Barrento
O ANJO SEM MORTE. Atrás dele o passado dá à costa, acumula entulho sobre as asas e os ombros, um barulho como de tambores enterrados, enquanto à sua frente se amontoa o futuro, esmagando-lhe os olhos, fazendo explodir como estrelas os globos oculares, transformando a palavra em mordaça sonora, estrangulando-o com o seu sopro. Durante algum tempo vê-se ainda o seu bater de asas, ouvem-se naquele sussurrar as pedras a cair-lhe à frente por cima atrás, tanto mais alto quanto mais frenético é o escusado movimento, mais espaçadas quando ele abranda. Depois fecha-se sobre ele o instante: no lugar onde está de pé, rapidamente atulhado, o anjo sem sorte encontra a paz, esperando pela História na petrificação do voo do olhar do sopro. Até que novo ruído portentoso bater de asas se propaga em ondas através da pedra e anuncia o seu voo.



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
tradução de João Barrento

As Imagens

As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas.
Mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto.
Já o céu não há imagem que o fixe. A nuvem vista do
Avião: um vapor que nos tira a vista, o grou, um pássaro, mais
__nada
Até o comunismo, a imagem final, sempre refrescada
Porque lavada com sangue tantas vezes, o dia-a-dia
Paga-lhe um salário modesto, sem brilho, cego de suor,
Escombros os grandes poemas, como corpos muito tempo
__amados e
Postos de lado agora, no caminho da espécie exigente e finita
Nas entrelinhas lamentos

_______________sobre ossos feliz o carregador de pedra

Porque o belo significa o fim provável dos terrores.



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
tradução de João Barrento
Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de manhã.



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
tradução de João Barrento

Duas cartas

1

Vejo-te a suar à máquina de escrever
Fabricando versos abusáveis
Sobre a morte por asfixia na rede
Das leis necessárias. Os pedreiros, escreves,
Foram usados como argamassa já
Na construção da Grande Muralha, e continuam
A construir-se grandes muralhas. Nada de novo
Sob o Sol, escreves tu. Não escreves nada de novo.
Aprendeste a interrogar as respostas.
O aplauso que te ensurdece não é uma delas?
Os efeitos rápidos não são os novos.
Um encontro à noite depois da nossa conversa:
Dois republicanos a caminho da cama
Discutem sobre a democracia
PoisissoéaFormamasondeéqueficaoConteúdo?
Contam os anos pelos aumentos de ordenado
Os meses pela saída do Magazine
Cada um é um sábio, modelo Keuner
Não há pensamento que não passe pelo estômago
Nem medo das poças de água como em Büchner
Pequenas cabeças, mas têm razão
Quando, lendo os teus versos, dizem:
Que tem, afinal, este Alguém para nos dizer?
Será que não entendeu a importância da reforma agrária?

2

Que pode uma rima contra as cabeças ocas?
Perguntas tu. Nada, dizem alguns. E outros: pouco.
Shakespeare escreveu o Hamlet, uma tragédia,
A história de um homem que deitou fora o seu saber
Curvando-se a um costume estúpido.
Não conseguiu acabar com a estupidez.
Não quereria escrever mais que um mandato de captura?
Hamlet o dinamarquês príncipe e comida de vermes tropeçando
De buraco em buraco até ao buraco final desanimado
Atrás de si o fantasma que o gerou
Verde como a carne de Ofélia depois de dar à luz
O horizonte a armadura dura mais
E pouco antes de o galo cantar pela terceira vez um louco
Rasga o gibão de guizos do filósofo
E um mastim corpulento enfia a couraça.
Ou então Bertolt Brecht o incompreendido
Com grande persistência e alguma esperança
Também ele mais não podia fazer senão esticar o arco
Quantas cabeças ocas lhe sobreviveram?
Durante toda a vida procurou uma maneira
De não matar o outro. Perto do fim
Tinha-a descortinado de longe
Meio escondida por uma névoa de sangue.
Becher suou muito a construir sonetos
Para que se encontrassem as águas do Volga e do Neckar.
Terão os camponeses do Jura lido
Os Sonetos quando o comunismo
Lhes tirar a terra de cima dos ombros?
A nós resta-nos o espaço que vai do Nada ao Pouco.



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
tradução de João Barrento

Poema antigo

De noite atravessando o lago a nado o momento
Que te põe em causa Já não há outro
Finalmente a verdade Que tu mais não és que uma citação
De um livro que não escreveste
Podes escrever uma vida para negar isto na tua
Fita de máquina descorada O texto lê-se à transparência



Heiner Müller
O anjo do desespero
Relógio D´Água, 1997
Tradução de João Barrento