Não, a luz não se acaba, se foi tua deveras.
Jamais se extingue. Está ocorrendo sempre.
Olha para dentro de ti,
com esperança, sem melancolia.
Não conhece a morte a luz do coração.
Viverá contigo enquanto existires:
não na lembrança, mas no teu presente,
no dia contínuo do sonho da tua vida.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
Mostrar mensagens com a etiqueta eloy sánchez rosillo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eloy sánchez rosillo. Mostrar todas as mensagens
A certa idade
Agora vês claramente que já não te interessam
tanto aquelas coisas que foram até há pouco
o centro da tua vida. Quase tudo
o que guardavas como se fosse
um íntimo tesouro inesgotável
é hoje cinza fria. E nem sequer lutas já
para conseguir o que o acaso não quis
deixar ao teu alcance. Em poucos anos,
Eloy, como mudaste, como te foram
impiedosamente abandonando os sonhos
que te sustentavam a vida. Não é costume,
chegado a certa idade, o homem continuar
efabulando sobre a ventura como nos bons tempos,
em que a juventude inflamava
seus ingénuos desejos. A passagem dos anos
faz-te ver a tua indigência. E sentes-te vazio
nesta tarde lenta de verão
que seria óptima para ti se o teu peito
albergasse ilusão ou, pelo menos, o desejo
de ter ilusões. Tudo flui,
como um rio impossível de quiméricas águas,
junto do ermo onde moras. Nada aqui se detém,
nem tu desejas que nada
se detenha a teu lado.
Que mais dá. Se estás só
é porque assim tem de ser.
Vai caindo a tarde.
Olhas - indiferente, conformado, sem tristeza –
como chegam as sombras. As chamas do crepúsculo
apagam-se ao longe.
E por fim fechas os olhos
e invade-te a noite.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
tanto aquelas coisas que foram até há pouco
o centro da tua vida. Quase tudo
o que guardavas como se fosse
um íntimo tesouro inesgotável
é hoje cinza fria. E nem sequer lutas já
para conseguir o que o acaso não quis
deixar ao teu alcance. Em poucos anos,
Eloy, como mudaste, como te foram
impiedosamente abandonando os sonhos
que te sustentavam a vida. Não é costume,
chegado a certa idade, o homem continuar
efabulando sobre a ventura como nos bons tempos,
em que a juventude inflamava
seus ingénuos desejos. A passagem dos anos
faz-te ver a tua indigência. E sentes-te vazio
nesta tarde lenta de verão
que seria óptima para ti se o teu peito
albergasse ilusão ou, pelo menos, o desejo
de ter ilusões. Tudo flui,
como um rio impossível de quiméricas águas,
junto do ermo onde moras. Nada aqui se detém,
nem tu desejas que nada
se detenha a teu lado.
Que mais dá. Se estás só
é porque assim tem de ser.
Vai caindo a tarde.
Olhas - indiferente, conformado, sem tristeza –
como chegam as sombras. As chamas do crepúsculo
apagam-se ao longe.
E por fim fechas os olhos
e invade-te a noite.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
Lembra-te
Quando o acaso ou o costume, dentro de muitos anos,
de novo aqui te tragam, se fores vivo, e a vida
para ti seja só lembrança dissipada
dos antigos dias, lembra-te que houve um tempo
em que as coisas, por milagre, foram de outra maneira:
lembra-te que hoje este jardim
te ofereceu sua paz, das roseiras
em flor, do sol que te acompanha
e te ajuda com a sua luz tépida
a ser feliz e a saber que és jovem.
Eloy Sánchez Rosillo
As coisas como foram
Assírio & Alvim, 2004
Tradução de José Bento
de novo aqui te tragam, se fores vivo, e a vida
para ti seja só lembrança dissipada
dos antigos dias, lembra-te que houve um tempo
em que as coisas, por milagre, foram de outra maneira:
lembra-te que hoje este jardim
te ofereceu sua paz, das roseiras
em flor, do sol que te acompanha
e te ajuda com a sua luz tépida
a ser feliz e a saber que és jovem.
Eloy Sánchez Rosillo
As coisas como foram
Assírio & Alvim, 2004
Tradução de José Bento
A casa vazia
Abre a porta e acende a luz.
____________________É muito tarde
e sabe que ninguém o espera em sua casa.
______________________________Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
______________Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
__________________Depois, ouve
enfadado uma música.
________________Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
______________Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
Eloy Sánchez Rosillo
As coisas como foram
Assírio & Alvim, 2004
Tradução de José Bento
____________________É muito tarde
e sabe que ninguém o espera em sua casa.
______________________________Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
______________Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
__________________Depois, ouve
enfadado uma música.
________________Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
______________Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
Eloy Sánchez Rosillo
As coisas como foram
Assírio & Alvim, 2004
Tradução de José Bento
Primeiro amor
Abro a varanda e olho. Nas varandas
da casa em frente o sol de Junho
brinca com as sardinheiras.
Acena-me
de lá uma rapariga: levanta a mão,
faz-me sinais, sorri e é mais bela
que o fulgor do verão.
Os minutos
aquietam-se no céu e acontece
muita luz. Dir-se-ia
que um estranho sortilégio deteve
o tempo esta manhã.
Mas fecho
os olhos por um instante, e ao abri-los
nada resta: nem casa, nem rapariga,
nem varandas com sol. Tudo isso
faz já vinte anos.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
da casa em frente o sol de Junho
brinca com as sardinheiras.
Acena-me
de lá uma rapariga: levanta a mão,
faz-me sinais, sorri e é mais bela
que o fulgor do verão.
Os minutos
aquietam-se no céu e acontece
muita luz. Dir-se-ia
que um estranho sortilégio deteve
o tempo esta manhã.
Mas fecho
os olhos por um instante, e ao abri-los
nada resta: nem casa, nem rapariga,
nem varandas com sol. Tudo isso
faz já vinte anos.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
A luz
É imprevisível. Sucede sempre
quando menos se espera. Pode ser que vás
rua fora, depressa, porque se te faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
estejas em casa à noite, lendo
um livro que não te convence; pode
acontecer também que seja verão
e que te hajas sentado na esplanada
de um café, ou que seja Inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou cansado,
que tenhas trinta anos ou tenhas setenta.
Não se pode prever. Nunca se sabe
quando nem como ocorrerá.
Tua vida
transcorre igual a ontem, vulgar e quotidiana.
“Um dia mais”, dizes tu. E, de repente,
desata-se uma luz poderosíssima
no teu peito, e deixas de ser a pessoa que eras
há momentos. O mundo, agora,
para ti é diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
compridos da infância, e respiras à margem
de seu obscuro fluir e seu dano.
Campinas do presente, por onde vagas livre
de cuidados e culpas. Uma acuidade insólita
habita-te o ser: está claro tudo,
tudo ocupa seu lugar, tudo coincide, e tu,
sem luta, entende-lo.
Dura talvez
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes de essa luz te dar
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te bem, limpo, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
quando menos se espera. Pode ser que vás
rua fora, depressa, porque se te faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
estejas em casa à noite, lendo
um livro que não te convence; pode
acontecer também que seja verão
e que te hajas sentado na esplanada
de um café, ou que seja Inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou cansado,
que tenhas trinta anos ou tenhas setenta.
Não se pode prever. Nunca se sabe
quando nem como ocorrerá.
Tua vida
transcorre igual a ontem, vulgar e quotidiana.
“Um dia mais”, dizes tu. E, de repente,
desata-se uma luz poderosíssima
no teu peito, e deixas de ser a pessoa que eras
há momentos. O mundo, agora,
para ti é diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
compridos da infância, e respiras à margem
de seu obscuro fluir e seu dano.
Campinas do presente, por onde vagas livre
de cuidados e culpas. Uma acuidade insólita
habita-te o ser: está claro tudo,
tudo ocupa seu lugar, tudo coincide, e tu,
sem luta, entende-lo.
Dura talvez
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes de essa luz te dar
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te bem, limpo, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.
Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.
Subscrever:
Mensagens (Atom)