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Luz que nunca se extingue

Não, a luz não se acaba, se foi tua deveras.
Jamais se extingue. Está ocorrendo sempre.
Olha para dentro de ti,
com esperança, sem melancolia.
Não conhece a morte a luz do coração.
Viverá contigo enquanto existires:
não na lembrança, mas no teu presente,
no dia contínuo do sonho da tua vida.


Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.

A certa idade

Agora vês claramente que já não te interessam
tanto aquelas coisas que foram até há pouco
o centro da tua vida. Quase tudo
o que guardavas como se fosse
um íntimo tesouro inesgotável
é hoje cinza fria. E nem sequer lutas já
para conseguir o que o acaso não quis
deixar ao teu alcance. Em poucos anos,
Eloy, como mudaste, como te foram
impiedosamente abandonando os sonhos
que te sustentavam a vida. Não é costume,
chegado a certa idade, o homem continuar
efabulando sobre a ventura como nos bons tempos,
em que a juventude inflamava
seus ingénuos desejos. A passagem dos anos
faz-te ver a tua indigência. E sentes-te vazio
nesta tarde lenta de verão
que seria óptima para ti se o teu peito
albergasse ilusão ou, pelo menos, o desejo
de ter ilusões. Tudo flui,
como um rio impossível de quiméricas águas,
junto do ermo onde moras. Nada aqui se detém,
nem tu desejas que nada
se detenha a teu lado.
Que mais dá. Se estás só
é porque assim tem de ser.
Vai caindo a tarde.
Olhas - indiferente, conformado, sem tristeza –
como chegam as sombras. As chamas do crepúsculo
apagam-se ao longe.
E por fim fechas os olhos
e invade-te a noite.


Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.

Lembra-te

Quando o acaso ou o costume, dentro de muitos anos,
de novo aqui te tragam, se fores vivo, e a vida
para ti seja só lembrança dissipada
dos antigos dias, lembra-te que houve um tempo
em que as coisas, por milagre, foram de outra maneira:
lembra-te que hoje este jardim
te ofereceu sua paz, das roseiras
em flor, do sol que te acompanha
e te ajuda com a sua luz tépida
a ser feliz e a saber que és jovem.



Eloy Sánchez Rosillo

As coisas como foram
Assírio & Alvim, 2004
Tradução de José Bento

A casa vazia

Abre a porta e acende a luz.
____________________É muito tarde
e sabe que ninguém o espera em sua casa.
______________________________Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
______________Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
__________________Depois, ouve
enfadado uma música.
________________Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
______________Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.


Eloy Sánchez Rosillo
As coisas como foram
Assírio & Alvim, 2004
 Tradução de José Bento

Primeiro amor

Abro a varanda e olho. Nas varandas
da casa em frente o sol de Junho
brinca com as sardinheiras.
Acena-me
de lá uma rapariga: levanta a mão,
faz-me sinais, sorri e é mais bela
que o fulgor do verão.
Os minutos
aquietam-se no céu e acontece
muita luz. Dir-se-ia
que um estranho sortilégio deteve
o tempo esta manhã.
Mas fecho
os olhos por um instante, e ao abri-los
nada resta: nem casa, nem rapariga,
nem varandas com sol. Tudo isso
faz já vinte anos.



Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.

A luz

É imprevisível. Sucede sempre
quando menos se espera. Pode ser que vás
rua fora, depressa, porque se te faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
estejas em casa à noite, lendo
um livro que não te convence; pode
acontecer também que seja verão
e que te hajas sentado na esplanada
de um café, ou que seja Inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou cansado,
que tenhas trinta anos ou tenhas setenta.
Não se pode prever. Nunca se sabe
quando nem como ocorrerá.


Tua vida
transcorre igual a ontem, vulgar e quotidiana.
“Um dia mais”, dizes tu. E, de repente,
desata-se uma luz poderosíssima
no teu peito, e deixas de ser a pessoa que eras
há momentos. O mundo, agora,
para ti é diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
compridos da infância, e respiras à margem
de seu obscuro fluir e seu dano.
Campinas do presente, por onde vagas livre
de cuidados e culpas. Uma acuidade insólita
habita-te o ser: está claro tudo,
tudo ocupa seu lugar, tudo coincide, e tu,
sem luta, entende-lo.


Dura talvez
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes de essa luz te dar
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te bem, limpo, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.


Eloy Sánchez Rosillo
Tradução A.M.