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Se fôssemos cegos, surdos e desprovidos de sensibilidade, mas tendo a alma perfeitamente aberta, e o nosso espírito fosse para nós o que o nosso mundo actual é, estaríamos então com o mundo interior na mesma relação que com o actual mundo exterior e quem sabe se nos aperceberíamos de qualquer diferença – se pudéssemos comparar os dois estados. Quantas coisas não iríamos sentir, para as quais apenas nos faltaria o respectivo sentido externo, por exemplo a luz, o som, etc.? Iríamos apenas poder produzir transformações análogas aos pensamentos, e iríamos sentir uma ânsia de conseguir os tais sentidos a que agora chamamos sentidos externos. Quem sabe se, após múltiplos esforços, não conseguiríamos fazer nascer olhos, orelhas, etc., uma vez que o nosso corpo estaria então em nosso poder e constituiria parte do nosso mundo interior, tal como, presentemente, a nossa alma.



Novalis

Fragmentos de Novalis
Assírio & Alvim, 2000
Tradução de Rui Chafes
O comer é apenas uma vida acentuada. Comer, beber e respirar correspondem à tripla repartição do corpo em sólido, líquido e gasoso. Todo o corpo respira, apenas os lábios comem e bebem; justamente o órgão que, por meio de sons variados, selecciona o que o espírito preparou e que recebeu através dos restantes sentidos. Os lábios são tão importantes para a sociabilidade, tanto quanto eles merecem o beijo. Toda a suave e terna exaltação é um desejo simbólico de contacto. Assim, tudo na Natureza nos convida figurada e discretamente ao seu gozo, e bem podia toda a Natureza ser assim perfeitamente feminina, virgem e mãe simultaneamente.



Novalis

Fragmentos de Novalis
Assírio & Alvim, 2000
Tradução de Rui Chafes