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Sois como gente

Sois como gente que chegasse à praia
Quisesse passar para o lado de lá e só tivesse uma colher
Para esgotar o mar. Ou como gente
Que caísse duma torre e durante a queda fosse pensando
Como as torres se poderiam fazer mais altas.

Como se vivêsseis em grandes tempos. - E assim é também.



Bertolt Brecht

Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

Regresso de Odisseu

É este o tecto. O primeiro cuidado recua.
Pois da casa sai fumo: há gente dentro.
No navio já pensavam: Se lá entro
Verei que sem mudança aqui só há a Lua.



Bertolt Brecht

Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

Abetos

De manhãzinha
Os abetos são cor de cobre.
Assim os vi eu
Há um meio século
Antes de duas guerras mundiais
Com olhos jovens.



Bertolt Brecht

Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

Nunca te amei tanto

Nunca te amei tanto, ma soeur,
Como quando de ti parti naquele pôr-de-sol.
O bosque engoliu-me, o bosque azul, ma soeur,
Sobre que já pousavam as estrelas pálidas a oeste.
Não me ri nem um pouco, nada, ma soeur,
Eu que a brincar ia ao encontro dum destino escuro -
Enquanto os rostos já atrás de mim
Devagar empalideciam no anoitecer do bosque azul.

Tudo era belo naquele anoitecer único, ma soeur,
Nunca mais depois e nunca antes assim -
Verdade é: só me ficaram as grandes aves
Que ao anoitecer têm fome no céu escuro.



Bertolt Brecht

Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

Ao ler Horácio

Nem mesmo o dilúvio
Durou eternamente.
Um dia escoaram-se
As águas negras.
Em verdade, quão poucas
Duraram mais tempo!



Bertolt Brecht
Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

V - Sátiras Alemãs: A queima dos livros

Quando o Regime ordenou que queimassem em público
Os livros de saber nocivo, e por toda a parte
Os bois foram forçados a puxar carroças
Carregadas de livros para a fogueira, um poeta
Expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
Dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
Livros tinham sido esquecidos. Correu para a secretária
Alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me! escreveu com pena veloz, queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixeis de fora! Não disse eu
Sempre a verdade nos meus livros? E agora
Tratais-me como um mentiroso! Ordeno-vos:
Queimai-me!



Bertolt Brecht
Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

Ao nascimento de um filho

Su Tung-p'o, 1036 - 1101

As famílias quando lhes nasce um filho,
Desejam-no inteligente.
Eu, que pela inteligência
Arruinei toda a minha vida,
Só tenho a esperança de que o meu filho
Venha a sair
Ignorante e tardo no pensar.
Então terá ele vida tranquila
Como ministro no Gabinete.



Bertolt Brecht
Poemas
Asa, 2007
Tradução de Paulo Quintela

Elogio da dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração
Isto é apenas o meu começo


Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos


Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã


Bertolt Brecht

Dificuldade de governar

1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
como é difícil governar. Sem os ministros
o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
ele nasceria por certo fora do lugar.

2
É também difícil, ao que nos é dito,
dirigir uma fábrica. Sem o patrão
as paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
ele nunca chegaria ao campo sem
as palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
de outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3
Se governar fosse fácil
não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
e se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4
Ou será que
governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
são coisas que custam a aprender?



Bertolt Brecht
Tradução de Arnaldo Saraiva