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Assim

[...]
A regra geral, no futebol e noutras coisas é a seguinte: quando vir qualquer coisa que pareça gravemente errada, avariada, mal acabada ou mal pensada, inaceitável ou incrível, é escusado pôr-se com dúvidas porque aquilo é mesmo assim.
Portugal é mesmo assim. O mundo é mesmo assim. Até a vida é mesmo assim. Neste fatalismo já tão famoso se compreende a atitude portuguesa de aceitar as coisas tal e qual elas nos chegam às mãos. «É o que se vê.» «É o que se sabe.» «O que é que quer?» «Do que é que estava à espera?» É mesmo assim. «É pegar ou largar».
O «mesmo assim», é, ele sim, uma das forças dissolventes da nossa alma. Esperemos que a selecção portuguesa se redima nos relvados mexicanos. E que ninguém tenha de perguntar «Estão a jogar mal de propósito ou é mesmo assim que jogam?».

Miguel Esteves Cardoso
A causa das coisas
Assírio & Alvim, 1986
Quando Eva está sozinha, só a alma a surpreende. Em tantas pequenas alegrias e tristezas é bom não haver mais ninguém presente. Só o alívio de não ouvir «O que é que foi?» cada vez que qualquer coisa é! As pessoas perguntam muito. Não se pode rir, ou deitar fogo a umas flores secas, ou encharcar de lágrimas um urso de pelúcia, sem alguém estragar tudo e perguntar «O que é que tens?», «O que é que estás a fazer?»

As pessoas têm todas uma costela alfandegária - querem sempre saber o que trazemos dentro de nós. Põem o nariz entre a roupa suja, à procura de diamantes ou de droga, como se estivéssemos a esconder qualquer coisa. De preferência, espectacular. Como, por exemplo, a nossa razão de ser.
(...)


Miguel Esteves Cardoso
A Vida Inteira
Assírio & Alvim, 1995

merda/ miguel esteves cardoso

Aquilo que está cada vez pior, isto segundo a mais divulgada opinião pública, é esta merda. De facto, não se entabula actualmente em Portugal conversa nenhuma que não contenha obrigatoriamente a proposição esta merda está cada vez pior.
Que merda afinal vem a ser esta? É, pelos vistos, uma merda que está cada vez pior. Deve ser, por conseguinte, o agravamento de uma merda que já esteve melhor. Um endurecimento da situação, em suma. É que, embora não possa haver, logicamente, merdas que estejam sempre melhores, pode concluir-se ser sempre melhor a merda que se tem hoje (mesmo que esteja cada vez pior), do que a merda que vai haver amanhã, a qual irá ser, segundo este raciocínio de merda, ainda pior.
A pergunta frequente_ Como é que vai essa merda?_ não é, no contexto sociolinguístico português, uma pergunta no verdadeiro sentido do termo. Trata-se simplesmente de uma espécie cerimonial de senha, passa exclusivamente com o fito de obter do outro a resposta apetecida do está cada vez pior.
As pessoas sofrem, é certo, com esta merda. Faz por isso sentido perguntar a um amigo Então estás melhor do Portugal?, tal qual se tratasse de um fígado agonizante ou de uma coronária em vias de dar o bafo.
E tal como as doenças mais esquesitas, Portugal é uma condição que só no estrangeiro se trata, necessitando invariavelmente de longas estadas, longe da Pátria-Mãe ou, como proverbialmente se metaforiza a dura separação, longe desta merda toda.
Antigamente, se bem se lembram, esta merda não ia estando, como agora, cada vez poior. O mais frequente era aquela merda estar rigorosamente cada vez mais na mesma. Qual era o cidadão de pendor ordinário que nesses tempos não gostava de declarar que as moscas mudam mas a merda é a mesma?
Bons tempos, sfinal, esses em que a merda não piorava, limitando-se a ficar na mesma! Hoje já nenhum cidadão se atreve a repetir a frase vetusta, acerca daquela merda, em que só as moscas mudavam. Porque esta merda, em contrapartida, já não é para ele a mesma. As moscas há muito deixaram de realizar esses exercícios periódicos de render da guarda. Imagina-as, decerto, a cochichar entre si, em desesperados acordes de mosca Ó pá, esta merda está impossível. Fugiram, adivinha ele, quem sabe se à procura de outras merdas.
Uma merda para os portugueses o que é? É tudo. Basta dizer num recinto público É tudo uma merda para ver abanar com compungida concordância todas as cabeças presentes. Se se falar noutra coisa qualquer, não há duas oponiões semelhantes. Contudo, instala-se a unanimidade em torno dessa ideia-matriz, segundo a qual, é infalível, é tudo uma merda.

excerto da crónica "merda"
de miguel esteves cardoso
em: a causa das coisas
Assírio & Alvim
1987