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A noite no olhar d'artilheiro

A noite no olhar d'artilheiro
abriu o abismo. O vulto que corria
sob andaimes para o tanque
das chamas agita rastilhos
do tufão.

A luz num golpe desfez
folhas falsas.
Acordou.
Dos ombros, em vez de sombra,
pedra fina quase areia caiu.

Amaram-te e nunca mais.

Sem possível aura, foge.
À sombra de ramos mergulha
a semente e o sal dos sonhos.
Nos umbrais as chamas
das comuns encantações.

E se puderes, nega quatro
vezes a solitária
veia destroçada.
O ar da minha à tua boca
noutro chão findou.



Fernando Luís Sampaio

Sólon
Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987
Deixo-te o menos sombrio silêncio,
as gavetas arrumadas,
o chá no armário azul
da cozinha.

Para mim posso dizer mentiras
e deixas as coisas lembradas.
Poder mover-me onde não estás,
afastar algumas mágoas

evoca a primeira ausência
de raízes. O cansaço, o sarro
dos espíritos,
o violento olhar no verão,

os muros iluminados, lentas
todas estas coisas
sobem no esquecimento. E
irrompem ao contágio doutro corpo.



Fernando Luís Sampaio
Sólon
Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987

Na margem do coração

Não voltes a perguntar se é isto
o destino porque não sei o que essa palavra
encobre, ou finta, ou derruba, sei
pouco do mundo para dizer isto ou aquilo.

Esta rua conduz a uma outra
que é cruzada por outra ainda. E
os ventos ali se cruzam, as vidas
também, há sempre engarrafamentos.

Mais abaixo fica o rio, apanhavas muitas
vezes o barco já de madrugada,
na manhã seguinte o percurso inverso.

Por mais que não desejes o infinito
prende-se a estes restos,
vegetação rasteira, inquietações,
e na margem do coração

perguntas de novo por que,
em tudo isso,
ninguém te repete o corpo.


Fernando Luís Sampaio
Falsa Partida
Assírio & Alvim, 2005

Entardecer

Para o Fernando Pinto do Amaral 

Uma água mineral e um café.
O cinzeiro cheio de fantasmas.
Um jogo de bilhar tardio disfarça
não saber o que fazer das mãos.
A chuva caía com aparato o chaval
serviu o café e a água fria que repousa
sob os meus olhos.
A rapariga moura trazia certamente
sandálias com uma imperceptível
chama de rancor. Pediu um copo de
sidra e rarefazia os olhos ao bebê-la.
Ouvi abrir-se uma clareira nas conversas
das mesas quando ela se ergueu
e os seus seios brilharam unânimes.


Fernando Luís Sampaio
Falsa Partida
Assírio & Alvim, 2005