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Viro costas à cidade
e falo com o mar
devolvida a voz
como a onda
os destroços guardaram as cicatrizes
de memórias vagabundas
a espuma vem depositar o sal na âncora
espantalho das crianças órfãs


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto
a morte na mira de uma espingarda
a cidade despedaçada
por um grito
um homem monta um cavalo louco
desperta as pedras pesadas
não se pode devolver à vida um corpo
caído
de costas ao mar


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto
o muro
vestido de cal
conta os dias retidos na pedra
envergonhado
esconde a miséria e a mão que se ergue


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto
eu sou um segredo que estremece
um livro aberto para crianças medrosas
sou o cemitério dos necessitados
mas não sou uma aparição
dizem
depois de eu ter adormecido no regaço de Rouhania
ele é filho da solidão
sabes
quando Nachoude, o velho pescador, morreu, levado
  pela espuma suja
fizeram-lhe um pomposo funeral
os gatos choraram
e o mar retirou-se a perder de vista e a lua velou muito tempo
  a sepultura


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto
É o fim do lusco-fusco
o peixe já chegou
e o barco voltou a partir
as últimas cintilações apagam-se
um copo grande com chá
para aquecer as mãos e a alma
a palavra sincera
olha-se o mar
e fala-se do futuro
joga-se às cartas
esfuma-se um pensamento lazúli
não se olha mais o mar
olha-se para a televisão


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto
Ele abandonou a família
deixou crescer a barba
e encheu a sua solidão com pedras e sombra

Chegou ao deserto
a cabeça enrolada num sudário
o sangue derramado
em terra ocupada

E não era
nem herói nem mártir
era
cidadão do sofrimento.


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto
eu sou a inércia criminosa e o exílio dos cães
tenho a amizade dos gatos e dos pobres
todas as minhas esposas me foram infiéis
soçobraram numa insensível loucura
das imagens e não das almas
eles dizem que estou doido
mas o que estou é sozinho
um pouco triste
escutai-me
vou contar-vos tudo...
eu tinha-lhe dado uma cabra...
não
não estou doido
se me deres um cigarro continuo a história...


Tahar Ben Jelloun
Arzila, Estação de Espuma
Hiena Editora, 1987
Tradução de Al Berto