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A Klopstock

Se eu não quisesse o
que é real, este dizer
rio e floresta,
mas atei aos meus
sentidos a escuridão,
voz do pássaro célere, o golpe de flecha
da luz pela encosta

e as águas cheias de ecos -
como eu diria
o teu nome
se uma ínfima fama sobre
mim descesse -
fui guardando aquilo por que passei,
a fábula ensombrada das culpas
e da expiação:
tal como nas acções
confio - tu as usaste - confio
na linguagem dos que esquecem,
digo para o fundo dos invernos,
sem asas, a sua palavra feita
de juncos.


Johannes Bobrowski
Como um respirar: antologia poética
Livros Cotovia, 1990
Tradução de João Barrento

Enfim temos

Enfim temos
as duas mãos cheias de luz –
as estrofes da noite, as agitadas
águas batem de novo nas orlas
da margem, no sono cru,
sem olhos, dos animais no canavial
depois do abraço – então
voltamo-nos para a encosta
lá fora, contra o céu
branco que desce
frio sobre o
monte, a cascata de brilhos,
e cristaliza, gelo,
como caído de estrelas.

Na tua fronte
quero viver o pequeno
tempo, esquecido, deixar
passar silencioso
o meu sangue pelo teu coração.


Johannes Bobrowski
Como um respirar: antologia poética
Livros Cotovia, 1990
Tradução de João Barrento

Infância

Nesse tempo eu
amava o papa-figos -
o som dos sinos a levantar-se
ao longe, a descer
pela cobertura da folhagem

quando nos reuníamos na orla da floresta,
numa folha de erva alinhavam-se
bagas vermelhas; com o seu
carrinho passava
o judeu cinzento.

Depois, ao meio-dia, na sombra
negra dos amieiros o gado
chicoteava com o rabo, irritado,
a afugentar as moscas.

Depois caía do céu
aberto a torrente larga
da chuva; passada a escuridão
sabiam bem as gotas,
como terra.

Ou eram os moços que chegavam
pelo carreiro da margem com os cavalos,
montados nos dorsos castanhos
reluzentes passavam a rir
o fundo vau.

Atrás da cerca
acastelava-se o zumbido de abelhas.
Mais tarde, pelo mato de espinhos junto ao lago
desfilava o matraquear argênteo
do medo.
Uma sebe, afogada
em escuridão porta e janela.


Aí cantava a velha no seu
quarto com cheiros. O candeeiro
zoava. Entravam os homens,
chamavam os cães
por cima do ombro.

Noite, repartindo-se longa no silêncio -
Tempo, cada vez mais fugindo, mais amargo
ficando de verso para verso:
infância -
nesse tempo eu amava o papa-figos -


Johannes Bobrowski
Como um respirar: antologia poética
Livros Cotovia, 1990
Tradução de João Barrento

A nomear, sempre

A nomear, sempre:
a árvore, o pássaro em voo,
o rochedo avermelhado por onde passa
o rio, verde, e o peixe
no fundo branco, quando desce a noite
sobre as florestas.

Sinais, cores, é
um jogo, receio
que o resultado possa ser in-
justo.

E quem me ensina
o que esqueci? - O sono
das pedras, o sono
dos pássaros em voo, o sono
das árvores, a sua fala
anda pelo escuro -

Houvesse aí um deus
e incarnado
e que me pudesse chamar, eu andaria
por aí, eu esperaria
um pouco.



Johannes Bobrowski

Como um respirar: antologia poética
Livros Cotovia, 1990
Tradução de João Barrento