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Blaise Cendrars





Blaise Cendrars, pseudónimo de Fréderic-Louis Sauser, nasceu em La Chaux-de-Fonds, cantão de Neuchâtel, Suíça,  a 1 de Setembro de 1887, tendo falecido em Paris a 21 de Janeiro de 1961. 
Novelista e poeta suíço, é o retrato do eterno viajante que reflecte em toda a sua poesia. Viveu em São Petersburgo, Nova Iorque, Londres, Paris, etc. Cendrars viajou ao longo de toda a sua vida e, numa dessas viagens, em 1920, visita o Brasil, onde é bastante influenciado por inúmeros artistas e escritores do modernismo brasileiro, entre os quais Oswald de Andrade, com cujos poemas da Poesia Pau-Brasil, e os seus poemas mais curtos, de construção cubista, apresentam forte semelhança formal e é implícito o desejo pelo rudimentar. Nessa incursão, interessou-se igualmente pelos índios do Brasil, sobre os quais escreveu diversos artigos em jornais.
Não obstante ter colaborado na revista "Portugal Futurista", de ter traduzido para francês “A Selva”, de Ferreira de Castro,  e de ter passado também por Portugal, foi até recentemente praticamente ignorado neste rectângulo de água estagnada.
Além de poeta e novelista, Cendrars foi crítico e fundador de algumas inovadoras revistas.
Paul Éluard considerou-o um dos grandes poetas do século XX, e muitos colam o nome de Cendrars a Allen Ginsberg, muito devido aos poemas longos e prosaicos, que o segundo também viria a adoptar, apontando-o como uma das referências do poeta norte-americano - uma das principais figuras da apelidada geração-beat.


Dados cronológicos:


1887. 1 de Setembro. Às 19 e 45 nasce em Chaux-de-Fonds (Suíça), no nº27 da Rue de la Paix, Fréderic-Louis Sauser, que usará o pseudónimo de Blaise Cendrars. Note-se que os seus primeiros «escritos» são assinados por Freddy Sausey, como o atestam vários papéis e cadernos inéditos compilados por Miriam Cendrars. 
Era filho de Georges-Fréderic Sauser e de Marie-Louise Donner, ambos suíços.


1887/1916. O pai, homem de negócios, gastrónomo e grande bebedor, arrasta a família de terra em terra. O Egipto, a Inglaterra e outros países fornecerão mais tarde abundante material poético a B.C.


1896. Aluno duma escola alemã.


1902. Para o castigar de inúmeros escândalos e dívidas contraídas em Neuchâtel, o pai fecha-o num quarto. B. C. foge pela janela depois de se ter apoderado de várias centenas de francos da mãe e dos cigarros do pai.


1902/1903. Acompanha a Moscovo um pacato representante de relojoaria, que o poeta «transformará» no fabuloso Rogovine, vendedor de pedras preciosas. Durante três anos visita duas vezes a China e uma vez a América.


1906. Um caderno desta época, situa-o em S.Petersburgo. Correspondente dum banco (domina perfeitamente o francês e o alemão), leva uma vida quase miserável. Mas nada o impede de declarar, ao evocar esses tempos, que ganhara já o primeiro milhão.


1907. Em Abril encontra-se em Neuchâtel junto dos pais. Alguns meses antes apaixonara-se por Hélène, que morre tragicamente queimada.
Na última linha dum caderno deste ano Freddy Sauseu escreve: je crache sur la vie que n´écoute pas la vie.


1909. Encontra-se em Berna, onde segue regularmente um curso universitário.
Abril. Morte da mãe de Blaise Cendrars. O poeta apaixona-se por Bella Bender, uma estudante polaca.
Maio. Conhece Féla (polaca) com a qual se casará em 1914.


1910. Na véspera do «doctorat» abandona tudo e instala-se em Paris.


1911. Trava conhecimento com o escultor suíço August Suter, com o qual manterá uma longa correspondência. 


Féla está em Nova Iorque e Blaise em S. Petersburgo. Passa o tempo na biblioteca onde lê muitíssimo. A par de livros de poesia, pintura, música, arqueologia, encontram-se várias referências a autores místicos: S. Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santa Teresa de Ávila, S. João da Cruz. Escreve que Loyola é le patron des accouchements!
Tenta, sem êxito, arranjar emprego. Os velhos amigos parecem tê-lo esquecido.
1 de Novembro. Com um bilhetes enviado por Féla, o poeta parte para a América.
Num caderno desta época, encontra-se esta nota curiosa: Rimbaud: Littératuricide d´un rhétoricien émancipé: Racine:...Peuh! Victor Hugo...pouah! Homère...oh! la la! L´ École parnassienne... pfuit!
Começa a escrever vários livros ao mesmo tempo. O texto Hic Haec Hoc é assinado por Blaise Cendrart (com um t no final). É a primeira vez que surge o pseudónimo.


1912. Maio. Numa carta a um amigo, diz: «Só tenho um pensamento: escrever».
São deste ano Aléa, Séquences e Les Pâques à New York. Freddy Sausey transforma-se em Blaise Cendrars. Dirige-se a Genebra.
Julho. Instala-se em paris. Com dois amigos lança a revista Les hommes Nouveaux.
Setembro. É preso por ter roubado, numa livraria, L´Hérésiarque de Apollinaire.
Novembro. PublicLes Pâques à New York. Conhece Apollinaire, Sonia e Robert Delaunay, Modigliani, Chagall, etc. Entra no mundo das letras e das artes.


1913. Aparece Prose du Transsibérien, «le premier livre simultané». A obra provoca grande polémica.
Féla regressa da América e junta-se a B.C.


1914. 7 de Abril. Nasce Odilou o primeiro filho de Féla e Blaise.


28 de Agosto. Escreve a August Suter, participando-lhe que parte para a guerra. Juntamente com Riccioto Canudo redigira um apelo aos estrangeiros residentes em França para que seguissem para a frente.


1915. Uma rajada arranca-lhe a mão direita. Numa carta de 23 de Novembro enviada a Suter escreve: Você tem razão, duas pernas e uma mão bastam...


1916. Começa a escrever com a mão esquerda. Inicia o poema Rússia, santa Rússia.


9 de Abril - Nasce o segundo filho de Féla e Blaise. Chama-se Rémy, em homenagem ao poeta Rémy de Gourmont, que blaise tanto admirava.
Maio. É novamente operado. Numa carta a Suter lê-se: Tenho um belo braço mecânico.


1917. Período difícil. A perda do braço transforma-o. Recusa usar um braço articulado. A pouco e pouco afasta-se da família. Os cadernos de Freddy Sausey desaparecem. B.C. «encontra-se» como escritor. Surge Profond aujourd´hui. Conhece Raymone, com a qual virá a casa em 1944.
Sonia Delaunay publica em Portugal Futurista o poema inédito de Blaise, Tour.


1918. Fevereiro. Prepara o texto dum filme para Abel Gance. Publica Le Panama e J´ai tué. Faz planos e escreve títulos sobre obras a publicar. Os projectos cumprem-se quase inteiramente.


1919. Nascimento de Miriam, a primeira menina da família. Segundo escreve a Féla no seu Récit d´une vie, Blaise disse-lhe: A família está completa. A filha será uma ajuda para ti. Os rapazes ganharão o pão com o suor do rosto.


1921. Colabora na realização de La Roue de Abel Gance.


1922. Trabalha em Londres.


1923. Está em Roma, onde termina La Vénus Noire.
Parte para África, onde se demora cerca de seis meses. Objectivo: um documentário sobre a vida dos elefantes.


1924. Blaise descobre o Brasil, país onde voltará várias vezes e onde fará dezenas de amigos. Viaja constantemente e, segundo Louis Parrot, só vem a França para deixar os manuscritos dos seus livros.


1928. Habita num castelo. As viagens continuam. Até 1936 viajará por diversos países do continente americano.


1929. Afirma numa entrevista dada à Rèvolution Surréaliste: Só ponho no amor uma esperança: a esperança do desespero. O resto é literatura.


1934. Novas viagens. Vai a Espanha e Portugal.


1936, Visita Holywood. Conhece Al Jennings, o rei-dos-fora-da-lei, e visita, na prisão, O´Henry.


1938. Trabalha na rádio Luxemburo com Jacques-Henry Lévesque.


1939. Tem um Alfa-Romeo de desporto que ele próprio conduz com uma só mão. A carroçaria fora desenhada por Braque. Entre 3 de Setembro e 14 de julho de 1940 percorre 100 000 km.


1940. Correspondente da guerra junto do Q.G. britânico. Depois do armistício habita em Aix-en.-Provence. Escreve Ches L´ armée Anglaise, que será destruído pelos alemães.


1945. 26 de Novembro. Morte do filho Rémy, piloto de caça.


1947. Blaise tem 60 anos. No dia do seu aniversário declara que começa a acreditar na vocação de escritor.


1949. Regressa definitivamente a Paris.


1951/56. Colabora em programas radiofónicos com Nino Franck. Assinale-se a publicação de Emmène-moi au Bout du Monde! Em Ouchy tem um ataque. Mas a morte só chegará cinco anos mais tarde.


1957. O lançamento do primeiro Sputnik entusiasma o velho viajante. O editor Pierre Berès conta tê-lo encontrado felicíssimo com a proeza.


Publicação de Trop c´est Trop.


1958. Novo ataque; quase não fala e arrasta-se com dificuldade.


André Malraux, Ministe des Affaires Culturelles, põe-lhe o colar da Légion d´Honneur. A condecoração destinava-se «ao único sobrevivente dos grandes poetas do espírito moderno».


A doença agrava-se. Faz ginástica e recebe massagens para evitar a paralisia. Muda-se para um rés-do-chão da Rua José Maria Hrédia, donde sai  de dois em dois dias.
Nino Franck revela que Blaise se sentava num banco da avenida para contemplar as bandeiras do mundo inteiro hasteadas no edifício da Unesco.


1961. 20 de Janeiro. Morte de Blaise Cendrars. Construire... parece ter sido a última palavra que pronunciou.

Ó Paris
Grande lareira ardente com os tições entrecruzados
    das tuas ruas e velhas casas que se debruçam
    por cima e se aquecem
Como os avós
E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como
    o meu passado em resumo amarelo
Amarela a cor altiva dos romances da França
    no estrangeiro.
Nas grandes cidades gosto de me meter nos
   autocarros em movimento
Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me
    ao assalto da Butte
Os motores mugem como touros de ouro
As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Couer
Ó Paris
Estação central cais das vontades cruzamento das
    inquietações
Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima
   das portas
A Companhia internacional das Carruagem-Camas
    e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me
    um prospecto
É a mais bela Igreja do mundo
Tenho amigos que me rodeiam como barreiras
Têm medo quando eu parto que nunca mais volte

Todas as mulheres que conheci erguem-se
    nos horizontes
Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos
    à chuva
Bela, Inês, Catarina e a mãe do meu filho na Itália
E ainda a mãe do meu amor na América
Há gritos de sirene que me rasgam a alma
Na Manchúria um ventre estremece ainda como num
    parto
Gostaria
Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens
Esta noite um grande amor atormenta-me
E contra a minha vontade penso na jovem Joana
    de França.
Foi num noite de tristeza que escrevi este poema
    em sua honra
Joana
A jovem prostituta
Estou triste estou triste
Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude
    perdida
E beber copinhos
Depois voltarei sozinho para casa



Blaise Cendrars
Poesia em Viagem
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Liberto Cruz
No entanto, eu era muito mau poeta.
Não sabia ir até ao fim.
Tinha fome.
E todos os dias e a todas as mulheres dos cafés
    e a todos os copos
Gostaria de bebê-los e parti-los
E a todas as montras e a todas as ruas
E todas as casas e todas as vidas
E a todas as rodas dos fiacres que rodavam
    em turbilhão pelas más estradas
Gostaria de mergulhá-los numa fornalha de gládios
E triturar todos os ossos
E arrancar todas as línguas
E liquefazer todos os enormes corpos estranhos e nus
    sob vestimentas que me transtornam...
Pressentia a vinda do grande Cristo Vermelho
    da revolução russa...
E o sol era uma chaga terrível
Que se abria como um braseiro.

Nesse tempo estava eu na adolescência
Tinha apenas dezasseis anos e já não me lembrava
    do meu nascimento
Estava em Moscovo, onde queria alimentar-me
    de chamas
E não estava farto das torres nem das estações
    que os meus olhos constelavam
Na sibéria troavam canhões, era a guerra
A fome o frio a peste a cólera
E as águas lamacentas do Amor arrastavam
    milhões de cadáveres
Via partir em todas as estações os últimos comboios
Já ninguém podia partir porque não havia bilhetes
E os soldados que partiam gostariam de ficar...
Um velho monge cantava a lenda de Novgorode.

Eu, o mau poeta que não queria ir a lado nenhum,
    podia partir para toda a parte
E os comerciantes também pois possuíam dinheiro
    suficiente
Para irem tentar fazer fortuna.
O comboio deles partia todas as sextas-feiras
    de manhã.
Dizia-se que havia muitos mortos.
Um levava cem caixas de despertadores e cucos
    da Floresta Negra
Outro, caixas de chapéus, cilindros e um sortido
    de saca-rolhas de Sheffield
E um outro, ataúdes de Malmöe cheios de latas
de conserva e de sardinhas e azeite
E havia muitas mulheres
Mulheres entre pernas para alugar que podiam
    também servir
Caixões
Pagavam todas imposto
Dizia-se que havia por lá muitos mortos
Elas viajavam a preços reduzidos
E tinham todas conta-corrente no banco.


Blaise Cendrars
Poesia em Viagem
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Liberto Cruz
O Kremlin era como um imenso bolo tártaro
Coberto de ouro,
Com as grandes amêndoas das catedrais muito
    brancas
E o ouro meloso dos sinos...
Um velho monge lia-me a velha lenda de Bovgorode
Eu tinha sede
E decifrava caracteres cuneiformes
Depois, subitamente, os pombos do Espírito-Santo
    levantavam voo na praça
E as minhas mãos voavam também, com sussurros
    de albatroz
Eram as últimas reminiscências do último dia
Da última viagem
E do mar.



Blaise Cendrars
Poesia em Viagem
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Liberto Cruz

Vida perigosa

Hoje sou talvez o homem mais feliz do mundo
Possuo tudo o que não desejo
E a única coisa que quero na vida aproxima-se a
cada volta da hélice
E ao chegar talvez tenha perdido tudo



Blaise Cendrars
Folhas de Viagem
Assírio & Alvim, 2004
Tradução de Liberto Cruz
Naquele tempo era eu adolescente
Tinha apenas dezasseis anos e já não me lembrava da minha infância
Estava a 16 000 léguas do lugar onde nasci
Estava em Moscovo, na cidade dos mil e três campanários e das sete
..............................................................................................................gares

Mas não estava farto das sete gares e das mil e três torres
Porque a minha adolescência era então tão ardente e tão louca
Que o meu coração ardia, como o templo de Éfeso ou a Praça
.................................................................................Vermelha de Moscovo

Ao pôr do sol.
E os meus olhos iluminavam caminhos antigos.
E era já tão mau poeta
Que não sabia ir ao fundo das coisas.



Blaise Cendrars
Poesia em Viagem
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Liberto Cruz