(O Coro das Erínias entra tumultuosamente em cena em perseguição de Orestes)

CORIFEU

Óptimo! Cá estão os vestígios claros do nosso homem. Segui as indicações deste denunciante mudo. Como um cão a um veado ferido, assim nós lhe seguimos a pista pelas gotas de sangue. Mas sinto-me extenuada de fatiga e mal posso respirar. Percorri, com o meu rebanho, toda a terra e, em sua perseguição, sobrevoei o mar, num voo sem asas, tão rápida como um barco. Agora ele está para aqui agachado em qualquer parte: o cheiro de sangue humano sorri-me.

CORO

Atenção, dá atenção! Examina bem tudo, não vá ele escapar-se, fugir impune, o assassino de sua mãe!

(as Erínias descobrem Orestes)

Ah! Lá achou ele um novo refúgio: abraçado à estátua duma deusa imortal, quer ser julgado pelo acto de sua mão. Mas não pode ser! Uma vez derramado na terra o sangue materno, ai! não é assim tão fácil trazê-lo de novo às veias. O líquido espalhado no solo perde-se para sempre.
Em troca, ainda vivo, terás de deixar-me sorver a oferenda rubra do teu sangue. Que em ti eu possa saciar a minha sede dessa horrível bebida! E, quando estiveres seco em vida, arrastar-te-ei para debaixo da terra, para sofreres o castigo devido ao horror do matricídio. Lá verás todos os mortais que, impiamente, ofenderam um deus, um hóspede ou os seus progenitores, cada um sujeito à pena que lhe foi imposta pela justiça. É que Hades é o grande juiz dos humanos debaixo da terra e ele tudo vê e inscreve na sua memória.



Ésquilo

Oresteia (excerto da peça)
Edições 70, 1981
Tradução do Professor Doutor Manuel de Oliveira Pulquério
CLITEMNESTRA

Entretanto o homem desaparece e foge para longe: os que não são meus amigos têm quem os proteja!

(Rosnido do Coro)

Realmente, tu dormes demais e não tens dó do meu sofrimento. E Orestes, o assassino da própria mãe, escapa-se...

(Grito do Coro)

Gritas, dormes: levanta-te depressa! Que mais te reserva o destino do que fazer sofrer?

(Grito do Coro)

O sono e o cansaço fizeram uma sólida conjura para esgotar a fúria do terrível dragão.

(Rosnido duplo e estridente do Coro)

CORO

Agarra, agarra, agarra, agarra! Atenção!

CLITEMNESTRA

Persegues um animal em sonhos e ladras como um cão que não larga a preocupação da sua busca. Que estás tu a fazer? Levanta-te, não te deixes vencer pela fadiga nem, amolecida pelo sonho, ignores o mal que nos fazem. Deixa que o teu fígado sinta as minhas justas censuras, que são o aguilhão dos sábios.
E sobre este homem exala o teu hálito sangrento, secando-o ao sopro de fogo que irrompe do teu ventre, segue-o, consome-o numa nova perseguição.



Ésquilo

Oresteia (excerto da peça)
Edições 70, 1981
Tradução do Professor Doutor Manuel de Oliveira Pulquério

Das portas trancadas

Doem-me as portas trancadas.
As que abanamos e não se conseguem abrir.
Das que se perderam as chaves.

As chaves das portas trancadas que não se conseguem abrir.

Penso nas portas trancadas da tua casa.
As chaves que se escondem e não mais aparecem
a porta do teu quarto que range sempre que a abres
ou quando se tosse uma réstia de vento.

A madeira sólida do teu quarto
os raios anelares das árvores
agora sem vida
trancam o teu quarto
conservando a resina que cola os meus cabelos à tua porta.


As unhas negras.
O sangue coagulado.
A dor.
O horror.



De como a tua porta se tranca trilhando os meus dedos de solidão.



Joana Serrado
Emparedada/ Uit de Muur
Groningen, De Passage, 2009

A Fool's Word

A slag heap, the word,
beaten down with stones
in this slag heap, the echo
carted off (though I didn't
cart it away again)
call to us
that it was not
the beginning
it was the end.

The blessing of morphine,
but not
the blessing of a word,
the blessing of a fresh made bed,
but not
the blessing of holding hands.
And yet no hand,
no words, hold a blessing.



Ingeborg Bachmann
Darkness Spoken: The Collected Poems
Zephyr Press, 2006
Tradução de Peter Filkins

O céu agrada-me pensar

O céu agrada-me pensar que é a memória de dois ou três amigos, aqueles contra cujos lábios a partir de dentro empurraremos docemente os nossos nomes e que, quando levam a comida à boca, sabem que é a nós que estão a alimentar. São dois ou três amigos, aqueles só em cujos corações enfiamos achas, o clarão atinge-lhes os olhos, pensarão: hoje a memória é como se a trouxéssemos em braços. Não sei se quando o mar lhes vier ao espírito o ouviremos rebentar, o certo é que por ele às vezes sobem as marés. Há ondas que se vê terem por ele passado antes de contra os nossos corpos deflagrarem.



Luís Miguel Nava
Poesia Completa 1979-1994
Publicações D. Quixote, 2002

Matadouro

__Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Dancei até que em mim houvesse espaço para um poema de que todas as imagens depois fossem desertando.
__ A luz que desse sangue irradiava, como se nele o sol tivesse mergulhado e os raios nele se houvessem diluído, atravessava-me os poros e fazia-me cantar o coração.
__Tratava-se de uma luz que nada tinha a ver com piedade ou a esperança, mas cuja música, sem me passar pelos ouvidos, ia direita ao coração, que nos animais acabados de abater por momentos encontrava um espelho ainda quente, tão diverso da algidez que habitualmente neles impera.
__Só num espelho assim saído há pouco das entranhas dum ser vivo se desenha a nossa verdadeira imagem, ao invés da frigorífica mentira onde é comum a vermos esboçar-se. Só esse espelho capta a espessa luz em que parecem ter-se consumido os próprios astros, essa luz que com os objectos que ilumina se confunde numa única substância capaz de arrancar-nos à treva e de dar cor à santidade.
__A luz do néon, ante aquela de que se esvazia o coração dum porco, é uma metáfora de impacto reduzido. A luz que das vísceras emana é a de deus, aquela que, por excessiva dose de trevas misturada, mais que qualquer outra se aproxima da de deus, que resplandece nas carcaças em costelas onde é fácil pressentir as incipientes asas de algum anjo.
__O berro do animal que qualquer faca anónima remete à condição daqueles cujo sangue se escoe ao nosso lado é o único som a que dançar merece a pena. O dia declinou-lhe nas entranhas, quantas manhãs as percorreram absorvidas pelas aberturas dos seus olhos mais não são agora do que um rastro de lume sobre a lâmina e nos baldes onde pinga, reduzidas a um furtivo clarão de dignidade de que todos de repente nos sentimos órfãos.



Luís Miguel Nava
Poesia Completa 1979-1994
Publicações D. Quixote, 2002

Birds in the night

O governo francês - ou foi o governo inglês? - colocou uma lápide
Na casa número 8 de Great College Street, Camden Town, Londres,
Onde Rimbaud e Verlaine, par exótico, tiveram um quarto,
Viveram, beberam, trabalharam, fornicaram
Durante algumas semanas tormentosas.
Ao acto inaugural assistiram decerto embaixador e pre-
_________________________sidente da câmara,
Todos os que foram inimigos de Verlaine e Rimbaud quando
__________________________________eram vivos.

A casa é triste, pobre, como o bairro,
Com a sórdida tristeza que diz bem com o que é pobre,
Não a tristeza fúnebre do que é rico e sem espírito.
Quando a tarde cai, como no tempo deles,
No passeio da rua, húmido e pardo o ar, um realejo
Toca, e os que aí moram, ao voltar do trabalho,
Dançam, se são jovens, e os outros vão para a taberna.

Curta foi a amizade singular de Verlaine, o bêbedo,
E de Rimbaud, o vadio, a discutir constantemente.
Mas podemos pensar que talvez um bom instante
Houve para ambos, pelo menos se cada um lembrava
Que deixaram para trás a mãe insuportável e a esposa maçadora.
Mas a liberdade não é deste mundo, e os libertos,
Rompendo com tudo, bem cara tiveram de pagá-la.

Sim, estiveram aí, diz a lápide, por trás dessa parede,
Presos do seu destino: a amizade impossível, a amargura
Da separação, o escândalo depois; e para este
O julgamento, dois anos de cadeia, devido aos seus costumes
Que a sociedade e a lei condenam, hoje ao menos; para aquele
_____________________________________ solitário
Errar de um canto ao outro da terra,
A fugir do nosso mundo e do seu progresso tão louvado.

O silêncio de um e a eloquência banal do outro
Compensaram-se. Rimbaud rejeitou a mão que oprimia
A sua vida; Verlaine beija-a, aceitando o seu castigo.
Um arrasta no cinto o ouro que ganhou; o outro
Esbanja-o em absinto e rameiras. Mas ambos
Sempre interditos pelas autoridades, pela gente
Que com trabalho alheios se enriquece e triunfa.

Então até a negra prostituta tinha direito a insultá-los;
Hoje, como o tempo passou, como passa no mundo,
A vida à margem de tudo, sodomia, bebedeira, versos escar-
___________________________________ necidos
Já não importam neles, e a França usa os nomes e as obras
__________________________________de ambos
Para maior glória de França e da sua arte lógica.
Seus actos e seus passos investigam-se, dando ao público
Pormenores íntimos de suas vidas. Ninguém se assusta agora,
_________________________________ nem protesta.

«Verlaine? Deixe-se disso, amigo, um sátiro, um verdadeiro sátiro
Ao tragar-se de mulheres; bem anormal era o homem,
Como você e eu. Rimbaud? Um católico sincero, como está
______________________________demonstrado.»
E recitam-se trechos do «Barco Ébrio» e do soneto às «Vogais».
Mas de Verlaine não se recita nada, pois não está na moda
Com o outro, de quem se lançam textos falsos em edições
__________________________________ de luxo;
Poetas jovens de todos os países falam muito dele em suas pro-
______________________________________víncias.

Ouvem os mortos o que os vivos dizem depois deles?
Oxalá nada oiçam: deve ser um alívio esse silêncio interminável
Para aqueles que viveram com a palavra e morreram por ela,
Como Rimbaud e Verlaine. Mas o silêncio lá não evita
Aqui a farsa elogiosa repugnante. Alguém um dia desejou
Que a humanidade tivesse uma só cabeça, para assim lha cortar.
Talvez exagerasse: que fosse só uma barata, e esmagá-la.



Luis Cernuda
Antologia Poética
Livros Cotovia, 1990
Selecção, tradução, prólogo e notas de José Bento

O Domesticador e o Falcão

Eu que pensava ser tão duro,
Mas, domado pelas tuas mãos,
Não consigo ser assim veloz
Ao voar para ti e mostrar
Que quando parto, parto
Às tuas ordens.

Até voando lá no alto
Já não sou livre;
Selaste-me com o teu amor,
Cegaste-me para as outras aves...
O hábito das tuas palavras
Vendou-me.

Como antigamente, rodo,
Pairo e volteio,
Mas apenas quero a sensação,
No meu espírito possessivo,
De quem captura e é capturado
Sobre o teu pulso.

Tu, que és quase ignorante,
Ensinaste-me desta maneira.
Por ter apenas olhos
Para ti, receio tudo perder,
Eu que perco para conservar e escolho
O domesticador como presa.



Thom Gunn

A Destruição do Nada e outros poemas
Relógio d'Água, 1993
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

Gerações

Antes de morrer, minha mãe disse-me mamã, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamã, fica
abraçando o seu corpo diminuto
envolto em panais e cheiro a talco;
minha filha disse mamã, não chores
e acariciou-me a cabeça a consolar-me.


Quando mamã morreu, por momentos
não eram claros os laços que nos uniam
não sabíamos quem tinha partido
e quem tinha ficado
nem em que momento das nossas vidas
estávamos vivendo
ou morrendo.



Ana Pérez Cañamares
La alambrada de mi boca
Baile del Sol, Tenerife, 2007

Tradução A.M.

7.

O Sol
é feroz
é atroz

O lírio
foi
quebrado

O ouro
do tesouro
foi
roubado

Não chores
sobre o ouro
derramado

Rasgo
o meu coração
e o meu pão

As vestes
que me restam
são serpentes

*

Ícaro
cai a pique
no mar azul
as asas de cera
derretidas

E o mar azul
é um labirinto
de safiras
frias



Adília Lopes
Dobra: Poesia Reunida
Assírio & Alvim, 2009
«Eva deslizou, deitou-se na cama e deixou a janela aberta, uma noiva, o cinzento espesso sufocava-a, pôs os olhos no tecto à espera de perceber, começou a procurar indícios, achava-o estranho, tinha sempre pressa quando se encontravam, gastava mais dinheiro, parecia feliz, era isso, quase parecia feliz, era isso que Eva estranhava, o ar ausente tão próprio dos apaixonados, de olhos fixos no tecto tentava apanhar a verdade para a destruir, não pode estar noivo, encontrava-se com ele sempre que queria, foi a primeira vez que faltou a um encontro, sempre teve aquele sorriso tonto, sempre foi um caso perdido, a verdade, saiu de manhã cedo com a noiva, as palavras do reformado aos tombos na cabeça, ele desmentiria tudo, tinha a certeza, quando o visse chegariam à conclusão que era um mal-entendido, rir-se-iam, noiva, saiu de manhã com a noiva, ele rir-se-ia, e a estranheza daquele ar quase feliz, a esperança no ano novo, fico sempre assim em vésperas de um ano novo, não deveria ter acreditado, há quanto tempo não tens ninguém, sempre ficou calado, deixava que ela o beijasse nos lábios, estão noivos, eles dizem que sim, as palavras do reformado aos tombos na cabeça, ele estava noivo e no quarto da casa grande, Eva enrolou-se sobre si mesma para chorar, não viu mais nada, não quis compreender, um caso perdido, é capaz de tudo até de trair, se não morasse tão longe, se não tivesse que esperar pelo marido que viria jantar como noutro dia qualquer, Eva continuou enrolada sobre si a chorar, o peito tão apertado, há quanto tempo ele a traía, o frio entrava e enroscava-se em Eva que continuava deitada, deixou-se ficar, um vazio tão grande, e se ficasse assim para sempre sem sentir mais nada a não ser aquele vazio, o que fazer com a certeza que tinha, uma noiva, se me aperceber que tu me enganaste sou capaz de te matar, e ele tinha-a traído, deixou-se ficar a chorar sobre si mesma, o frio em todo o corpo, não sabia libertar-se daquele amor tão exagerado, quase uma doença, és um caso perdido, nunca serás capaz de amar alguém, o que fazer com os casos perdidos que eram os dois, foi o que Eva lhe disse no dia em que entregaram as chaves da casa, foi a única vez que lhe disse, não consegues amar-me, não consigo deixar de te amar, somos dois casos perdidos, se descobrir que me enganaste sou capaz de te matar, uma noiva, um frio em todo o corpo, o cinzento cada vez mais espesso, o que somos nunca está ao alcance da nossa vontade, e se fosse mesmo verdade, se ele quebrasse para sempre a ilusão, não podia perdoá-lo, cada pessoa tem a sua utilidade, tinha coberto de mágoa o seu amor tão exagerado, quase uma doença, há muito tempo que se tinha completado com aquele amor, o que iria agora colocar no vazio que lhe crescia no peito, Eva chorou durante muito tempo enrolada sobre si, no quarto da casa grande junto ao mar e quando anoiteceu, os dias no inverno são tão pequenos, Eva tinha adormecido.»



Dulce Maria Cardoso
Campo de Sangue
Edições ASA, 2002

Deus certamente, o diabo provavelmente

1
Odeio
quem me ama
e os que me procuram
de madrugada
não me acham

2
Se estou bem
é culpa de Deus
se estou mal
a culpa é minha

3
O que
tenho a dizer
grito-o
do alto dos telhados

4
Quem
muita sacha
muita acha
(a viúva
não sabe
da peúga)

5
Não é
com as pernas
que se fazem
as merdas
(é com a alma)



Adília Lopes

Dobra: Poesia Reunida
Assírio & Alvim, 2009

Um deus irado

Um deus irado
Batia num homem;
Espancava-o ruidosamente
Com golpes atroadores
Que soavam e ressoavam pela Terra.
Toda a gente veio a correr.
O homem gritava e procurava libertar-se,
E mordia furiosamente os pés do deus.
As pessoas exclamavam: "Ah, que homem malvado!"
E -
"Ah, que deus formidável!"



Stephen Crane

Antologia de Poesia Anglo-Americana
Campo das Letras, 2002
Tradução de António Simões

Carta de um náufrago

Com o consentimento da neve
caminharei devagar.

Alguém haverá à espera junto do fogo
e eu, que estarei cega pelo frio,
farei paragens breves,
sacudirei o guarda-chuva e começarei de novo.

O único segredo é não sentir-se
imensamente cheio de verdades.
Não aceitar nunca os convites
que o nevoeiro
sugere ao fazer ninho com os seus disfarces
de paisagem feliz, de grandes sonhos.

Alguém haverá que diga, perdeu-se,
alguém sairá a procurar-me,
e levará o calor de uma garrafa
onde poderei mandar-te esta mensagem.



Ana Merino
Poesia Espanhola- Anos 90
Relógio D’Água, 2000
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães
A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo.



Ana Merino

Poesia Espanhola- Anos 90
Relógio D’Água, 2000
Tradução de Joaquim Manuel Magalhães