janela para oriente / eduardo white

Tenho uma janela amarela virada para Oriente. Docemente e sem assombro. Todos os dias me sento defronte dela para a olhar. E o vento que a bate faz-me um incêndio para escrever, desce devagar a rampa por onde vou saltar. Minha e sem fim esta natureza fresca dos seus vidros, a luz que por ela é uma magia tão purissima. Tenho a janela num quarto que amo, unido com o sangue verde do vale que dela eu vejo, dos livros fechados em seus destinos, dos jornais aos montes e sem notícias. O ar deste quarto está de sorrisos e de surpresas, de desgostos que irão viver, cheio de lugares que ainda não sou. Oiço músicas dentro dele, caladas e brancas de repente, oiço cores incessantes e um poeta que pressinto esteja a morrer. Leio as palavras que o são. Frias. Concretas. Óbvias e desertas. E a morte é um murmúrio por detrás de tudo o que gritam sem dizer. Um sibilar envenenado e arrepiante, um voar rasante e precipitante. A morte desenha-lhe as mãos que daqui posso ver a tremerem. E, por isso, fica o quarto mais cinzento, mais frio, severo como a pedra de um deus.
É directo e dói o poeta, dói como um peregrino que amanhece sem dormir.


Eduardo wWhite
Janela para Oriente
(excertos)
Caminho

3 comentários:

mar disse...

um dia quererei que a minha janela se vire para o oriente.
este é um belo texto, recheado de imagens, de dores que se encravam como pêlos na pele. gosto, principalmente da última frase. pensei que só em mim doíam os peregrinos.

boa escolha moriana.
um beijo
deste
mar.

moriana disse...

todo o livro é belissimo :)

José Maria de Aguiar Carreiro disse...

Eduardo White, em Janela para Oriente, apresenta um discurso metaliterário, de modo que, logo no início do livro, o poeta declara que o motor da sua inspiração, aquilo que provoca “um incêndio para escrever”, é a ideia de Oriente (o vento que bate).

Depois, o sujeito poético centra a sua atenção sobre si próprio e diz ouvir-se como poeta a morrer, isto é, a atingir um estado-limite da consciência (“oiço […] um poeta que pressinto esteja a morrer”). White sugere, então, dois estados de consciência, já que o sujeito escrevente é aquele que toma consciência do sujeito oculto: “Leio as palavras que o são […]. E a morte é um murmúrio por detrás de tudo o que gritam sem dizer”. Assim, o sujeito poético assume-se como aquele que numa espécie de transe (veja-se a atenção que dá ao valor estupefaciente do cigarro e do álcool ao longo do livro) comunica e dá voz a esse eu interior.

No final do livro, o poeta reafirma-se como “exímio fazedor” de um “lírico fervor que” guarda “pela imaginação”. Eis então especificados os elementos necessários para a escrita literária: “ferramentas deste trabalho”, “paixão”, “visões que encerro”, “minuciosa observação dos espaços”.

A escrita é, portanto, para White, uma tomada de consciência: “Eu nada sabia desta remota possibilidade, deste lírico fervor que guardo pela imaginação”. (José Carreiro, Março de 2008, http://lusofonia.com.sapo.pt/white.htm)