Giánnis Ritsos




















Giánnis (ou Yiánnis) Ritsos nasceu em Monemvasia, uma aldeia medieval na costa este do Peloponeso, localizada a cerca de setenta quilómetros de Esparta, no dia 1 de Maio de 1909. A sua família era constituída por latifundiários que tinham em tempo sido prósperos mas que caíram em decadência e o poeta conheceu na juventude uma pobreza quase extrema.
Desde muito jovem, Yiánnis teve de trabalhar para sobreviver. Teve uma passagem muito breve pela Faculdade de Direito da Universidade de Atenas (em 1925) e desempenhou diversos trabalhos: dactilógrafo, ajudante de notário, actor e bailarino, revisor na editora Govotsios e jornalista no jornal Avyi.
Casou-se em 1954 com a médica Falitsa Yiorgiádis, que foi, até 1970, data em que a actividade de Ritsos como escritor começou a ser sistematicamente premiada, o principal sustento económico da família. Em 1955 tiveram uma filha chamada Elefteria (Liberdade), celebrada pelo pai no livro Proino Astro (Estrela da Manhã).
Durante a vida, Ritsos lutou contra várias doenças, primeiro a tuberculose, de que sofreu pela primeira vez entre os dezassete e os vinte anos de idade e o forçou a passar quatro anos internado em diferentes sanatórios (entre 1927 e 1931) e de novo entre os vinte e oito e os trinta e dois anos de idade. Aos sessenta e um anos sofreu de cancro.
Foi nos primeiros anos em que padeceu de tuberculose que Ritsos tomou contacto com o marxismo, no Sanitório Sotirias de Atenas, e que aderiu ao partido comunista, ao qual pertenceu toda a vida.
Aos doze anos sofreu a perda do irmão, cadete da escola naval, e poucos meses depois a perda da mãe, a quem era muito unido. Outro duro golpe foi o internamento do pai num hospital psiquiátrico, quando Ritsos tinha vinte e dois anos. O pai viria a falecer e seis anos mais tarde seria a sua irmã, Lula, a quem o poeta dedica o livro A Canção de Minha Irmã, que seria internada por loucura, embora se tivesse posteriormente curado.
Nos primeiros anos da sua produção poética, a poesia de Ritsos é vista como estando muito ligada à de Kariotákis, mas mesmo nesta fase se percebe que também as dificuldades porque passou marcaram tanto (ou mais) a sua escrita quanto esta influência.
Esteve preso por razões políticas nos campos de concentração de cinco pequenas ilhas do Egeu, primeiro entre 1948 e 1953, que corresponderam aos dois últimos anos da Guerra Civil e aos três primeiros do governo supostamente democrático de Papagos.
Esteve de novo preso durante os três primeiros anos da Ditadura dos Coronéis, até que, pela sua saúde debilitada, foi internado durante seis meses num hospital de Atenas. A sua pena foi então comutada para prisão domiciliária em Samos, ilha de onde era oriunda a sua esposa, e onde costumavam passar o Verão. Paradoxalmente, este parece ter sido para Ritsos o período mais duro do tempo em que esteve confinado pela Ditadura dos Coronéis, porque nas ilhas tinha pelo menos o apoio dos companheiros.
Durante o tempo em que esteve preso, Ritsos nunca parou de escrever. É desta altura um verso seu em que diz «temos dentro de nós mil estrelas, e essas não podereis matá-las» (em «Os vizinhos do mundo», I Yitoniés tu Kosmu). Ao ser transferido de Macronisos para Ai Strati, teve de enterrar os seus manuscritos em garrafas para salvá-los.
Em 1956, Ritsos venceu o Prémio Nacional de Poesia pelo seu livro Sonata ao Luar e foi por esta altura que a sua poesia se começou a difundir fora da Grécia, particularmente em França.
Porém, é com o fim da Ditadura dos Coronéis, nos seus últimos vinte anos de vida, que o poeta começa a vencer inúmeros prémios e distinções: seis prémios internacionais de poesia; seis doutoramentos honoris causa; torna-se membro honorário de diversas academias literárias; quatro medalhas de cidades; cidadanias honoríficas; três prémios internacionais relacionados com a Paz (entre eles o Prémio Lenin e o Joliot-Curie, atribuído pelo Conselho Mundial para a Paz).
Ritsos morreu a 11 de Novembro de 1990, na sua casa de Atenas, enquanto dormia, como consequência de uma doença prolongada que já o havia forçado a ser hospitalizado durante uns meses.
Ritsos é, a par com Seféris e Élytis, um dos nomes maiores da chamada geração de 30. Os últimos dois escaparam ao «Kariotakismo», poesia tradicional, centrada na expressão de ideias auto-compassivas e auto-destrutivas, cujo nome deriva do nome do poeta Kostas Kariótakis, expoente máximo desta estética, por meio de uma renovação formal e temática, enquanto Ritsos levou mais tempo a adoptar novidades formais.
Onde Ritsos é inovador é no conteúdo. Em 1936 publica-se o seu poema «Epitáfio» em que, explorando formas tradicionais da poesia grega, Ritsos expressa numa linguagem simples e imediata uma ideia comovente de fraternidade. Este poema foi escrito em sequência da grande manifestação do 1º de Maio de Maio em Tessalónica, que foi reprimida com recurso a violência policial. Após esta manifestação, o jornal do partido comunista publicou a fotografia de uma mãe ajoelhada junto do corpo do filho, morto pela polícia. No seu poema, Ritsos empresta a voz ao lamento da mãe, recorrendo a uma forma usada em poesia grega que é o mirológio («pranto fúnebre»). Em Agosto desse mesmo ano, «Epitáfio» foi simbolicamente queimado no sopé da Acrópole, num acto que, em 1936, provocou a reacção do regime ditatorial de Metaxas. Este gesto de se colocar ao lado dos mais fracos é uma das constantes da sua poesia e da sua vida.
A maior parte dos seus poemas são de tema e extensão amplos e, à custa disto, a sua força poética é excessivamente esbatida entre elementos prosaicos. Uma excepção são os seus poemas amorosos e um conjunto de poemas mais curtos, intitulados Parêntesis e Testemunhos.
Ritsos produziu uma obra poética de extraordinária extensão: treze enormes volumes de poemas reunidos que não chegam a recolher as mais de cem colecções de poemas extensos que foram publicados como livros. O que resta da sua produção escrita é, em contrapartida, escasso: nove novelas curtas, treze traduções de poesia, alguns ensaios, quatro peças de teatro, alguns artigos de jornal. Nesta enumeração não contámos com a parte da sua obra que permanece inédita, que é, também ela, extensa.

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