A estátua e eu

__Nos meus tempos mortos, ensino uma estátua a andar.
Dada a sua imobilidade exageradamente prolongada, não é nada fácil. Nem para ela. Nem para mim. Dou-me conta de que uma grande distância nos separa. Não sou tão imbecil que não me dê conta disso.
__Mas não se pode ter todas as cartas boas no nosso jogo. Ou então, adiante.
__O que interessa é que o seu primeiro passo seja bom. Para ela, tudo reside nesse primeiro passo. Bem sei. Sei disso muito bem. Daí a minha angústia. Por conseguinte, aplico-me. Aplico-me como jamais o fiz.
__Coloco-me junto dela de modo rigorosamente paralelo: o pé, como ela, levantado e rígido tal estaca enterrada na terra.
__Porém nunca é exactamente igual. Ou o pé, ou a curva, ou o porte, ou o estilo, há sempre qualquer coisa que falha e o tão esperado arranque não pode ter lugar.
__É por isso que cheguei a um estado em que eu próprio já quase não consigo andar, tomado de uma rigidez, todavia toda feita de impulso, e o meu corpo fascinado faz-me medo e já não me leva a parte alguma.



Henri Michaux
de Aparattions (1946)
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato

2 comentários:

bruno sousa villar disse...

Congratulo-te pelas tuas escolhas, sempre feitas com severo critério apaixonado. A bem de nós, amantes desta coisa chamada Poesia.

Cumprimentos

Luís Filipe Nunes disse...

Sim, este é, antes de mais, um espaço de paixão. Retribuo os cumprimentos.