O carrasco

Dada a fragilidade do meu braço nunca consegui ser carrasco. Nunca teria cortado um pescoço como deve ser, de maneira nenhuma. Nas minhas mãos, a arma letal deter-se-ia não apenas no obstáculo imperial do osso, mas também nos músculos da região do pescoço desses homens, tensos pelo esforço, pela resistência.
Porém, um dia, apresentou-se para morrer um condenado com um pescoço tão branco, tão frágil, que eles se recordaram da minha candidatura ao posto de carrasco, conduziram o condenado até à minha porta, e ofereceram-no para o matar.
Como o seu pescoço era esguio e delicado, poderia ter sido cortado como uma fatia de pão. Apercebi-me disso imediatamente, era verdadeiramente tentador. Contudo, recusei educadamente, sem esquecer de lhes agradecer vivamente.
Quase imediatamente depois, lamentei a minha recusa; mas era demasiado tarde, já o carrasco de serviço lhe estava a cortar a cabeça. Cortou-a naturalmente, como a qualquer cabeça, seguindo o costume que ele tinha com as cabeças, desinteressado, sem sequer ver a diferença.
Então, lamentei, tive pena, e censurei-me por ter recusado assim tão depressa, nervosamente e quase sem me dar conta.



Henri Michaux
de Entre Centre et Absence
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato


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