Põe-lhe a culpa a ele

Hoje foste com amigas para a festa e,
sem saber, dás-me
um tempo para estar só que já começa
a escassear na minha vida, um tempo útil
para procurar pensar em ti como se fosses
o que devias ser sempre,
quando eu pensava em ti: aquela pessoa,
semelhante em tudo a outra qualquer,
que uma noite longínqua teve o gesto
generoso e estranho de me entregar o seu amor.
Mas o amor transforma-nos, faz de nós espiões
ridículos do outro, implacáveis juízes
que condenam sem provas e compartem
suas estúpidas penas com o réu.
O amor confunde-nos e faz agora
que eu veja na tua festa uma traição.


Para escapar à armadilha chamo-me
os nomes adequados àquele que nela se enreda:
egoísta, ridículo, inseguro, ciumento...
E como um exercício de humildade penso em ti
a divertir-te sozinha, imaginando-te a dançar
e a olhar para os outros homens;
com o calor da bebida
confessas a uma amiga algumas coisas
minhas que te irritam sem eu saber,
saboreando por alguns momentos uma vida diferente
que te tenta esta noite porque és humana,
embora eu não lhe ache graça nenhuma.


Dou conta agora de que tu duvidas
como eu duvido por vezes e também te aborreces
e até algum dia terás sonhado
foder como uma louca com aquele tipo do anúncio
do perfume da moda.
Para acalmar-me um pouco
desta última ideia, digo a mim mesmo
que o amor é um jogo onde contam
muito mais os truques que as cartas,
e procuro ser razoável,
pensando que é mais giro que me ames
porque existem festas, e dúvidas,
e corpos da publicidade dos perfumes.
O que quero que saibas é que compreendo
certas coisas melhor do que pensas,
que sou semelhante a ti, que pensei beijar-te
quando chegares a casa; e que será o amor
- esse tipo grotesco e ardiloso -
que vai agredir-te com palavras
absurdas de censura, quando voltares, sim,
porque já estás a tardar, minha puta de merda.



Vicente Gallego
Antología poética
Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes
Tradução A.M.

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