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Criava alfabetos nos sulcos que o tempo imprimia
na superfície do granito e soletrava as incisões
na estância milimétrica que cada uma ocupava
enquanto itinerário de silêncio ou epifania luminosa.

Depois a mesa enchia-se como um útero
e o fogo tomava o seu lugar e todos falavam
e riam e a casa em combustão para fora
como janelas ou portas entreabertas, e tudo
desmoronava.

Falavam e riam sob os escombros,
no segredo do fim como os talheres pousados
e os copos vazios. Depois morriam
com os ventres inchados e os olhos doentes.

Quando era criança mergulhava a cabeça
debaixo de água, porque a apneia trazia o silêncio
estrutural dos abismos e a iminência da morte.



José Rui Teixeira
O fogo e outros utensílios da luz
Quasi Edições, 2005

1 comentário:

susana a. disse...

escreves pouco mas escolhes bem. estou a gostar muito de ler as tuas escolhas. continua. *