A pouco e pouco

Há entre o coração e a pele cumplicidades para cujo enten-
dimento apenas corpos como o dele às vezes contribuem.
Olhando-o nos olhos não é fácil destrinçar do alcantilado
coração a cama onde dormíamos, ao mais pequeno sopro o sol
parece evaporar-se.
Por esse coração, ainda que escarpado, era, no entanto, fá-
cil alcançar a pele, o mar à força de bater na rocha ia ficando a
pouco e pouco em carne viva.



Luís Miguel Nava
Como alguém disse
Contexto, 1982

2 comentários:

bruno sousa villar disse...

Direi simplesmente : gostei do poema erosivo.

Paradoxos disse...

exemplarmente coerente e real como as palavras devem ser!
adorer cada frase!!

abraços meus