Dizer, fazer

Entre o que vejo e digo,
Entre o que digo e calo,
Entre o que calo e sonho,
Entre o que sonho e olvido
A poesia.
Desliza entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que olvido.
Não é um dizer,
mas um fazer.
Um fazer
que é um dizer.
A poesia
diz-se e ouve-se,
é real.
E mal eu digo
é real,
dissipa-se.
É mais real assim?
Ideia palpável,
verbo
impalpável,
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e destece.
A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.
Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.
Ouvir
o pensamento,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo
da ideia.
Os olhos
fecham-se.
Abrem-se as palavras.


Octavio Paz
Tradução A.M.

2 comentários:

Marcelo Saldanha Teodoro disse...

Bela tradução A.M. Tenho algumas traduções de Octavio Paz do "Libertad bajo palabra / La Estación Violenta" em meu blogue:

http://cartassideradas.blogspot.com/

abraços

Albino M. disse...

Muito obg.
Fica a informação.