Em Movimento

O gaio azul arrastando-se por entre os arbustos persegue
Um desígnio oculto, as andorinhas voam em círculos,
E o deleite das aves, que fizeram ninhos nas árvores
E vegetação rasteira, jorra pelos campos.
À procura do seu instinto, do equilíbrio, ou ambos,
Algo que se encaminha com uma violência indefinida
Sob o pó lançado por um sentimento confuso
Ou sob o monótono estrondear de palavras que se aproximam.

Eles surgem ao longo da estrada em motorizadas:
Pequenos, negros, como moscas suspensas no calor, os Rapazes;
À medida que a distância os projecta em frente, o seu zumbido
Sobe até ao trovejar controlado pelas coxas e barriga das pernas:
Com os seus óculos, impersonalidade vestida
Com blusões deslumbrantes ornamentados de pó,
Eles usam cinturões numa incerteza simulada, mas robustos,
E quase entendem um significado no seu barulho.

O limite exacto de toda a sua audácia
Ainda não tem forma, mas de conhecidos paradeiros
Vêm eles, lugares onde os pneus deixam marcas.
Um bando de aves voa assustado pelo campo:
Muito do que é natural tem de render-se a uma vontade.
O homem fabrica a máquina e a alma,
E serve-se do que imperfeitamente controla
Para desafiar um futuro de percursos conquistados.

Afinal trata-se de uma solução parcial.
Qualquer um de nós não está necessariamente desorientado
Sobre a terra; ou é amaldiçoado porque, meio animal,
Lhe falta um instinto imediato, porque desperta
Livre no movimento que divide e separa.
Qualquer um de nós junta-se ao movimento num mundo sem valor,
Escolhendo-o até que, arremessado e arremessador,
Igualmente se mova em frente, em frente.

Um minuto retém os que vieram para partir:
Com determinação, montados sobre a vontade que tinham criado,
Seguem violentos; as cidades que atravessam
Não servem de lares para aves ou para a santidade,
Pois as aves e os santos atingem os seus fins.
Na pior das hipóteses, está-se em movimento, e na melhor,
Sem que se alcance qualquer absoluto apaziguador,
Está-se sempre mais próximo por não estarmos parados.

California



Thom Gunn

A Destruição do Nada e outros poemas
Relógio d'Água, 1993
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães

1 comentário:

Luís Filipe Nunes disse...

Já to tinha dito, mas repito: este tipo é fabuloso.