Jeremy Taylor diz que deve ser tão difícil nascer como morrer. Acho que é muito provável. E durante o longo período em que fui diminuindo a dose de ópio, passei todos os tormentos de quem deixa um modo de existência para entrar noutro. O resultado não foi a morte mas uma espécie de regeneração física; e posso acrescentar que, desde então, a intervalos, sinto ter de algum modo recuperado a juventude, embora sob a pressão de dificuldades, que, num menos feliz estado de espírito, teria chamado infortúnios. Resta-me a recordação do estado em que vivi: os meus sonhos ainda não são perfeitamente calmos; não amainaram a turbulência e a agitação da tempestade; as legiões que povoavam os meus sonhos começaram a retirar, mas ainda não partiram todas; o meu sonho continuava a ser tumultuoso e as portas do Paraíso, como quando os nosso primeiros pais olharam para nós, continuam (como diz o verso tremendo de Milton) guardadas

Por caras ameaçadoras e braços de fogo armados.



Thomas de Quincey

Confissões de um Opiómano Inglês
Contexto Editora, 2001
Tradução de Manuel João Gomes

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