Anna Akhmatova

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.
Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros
a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: «Os teus
ombros de clepsidra...» E eu sentia esse rumor límpido, que levava
as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita
inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar
pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram
os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta
apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas
esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos
perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem
com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul
que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski
nos vinha explicar: «a rima é a forma canonizada, métrica
da eufonia.» E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido
entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher
aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou
iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo
que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta
esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria
os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia
que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei
um jardim e olhava para as folhas que ali alguém tinha calcado. Pensei
nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia-se ver
alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam
da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessa estes corredores
vegetais. Tornava-se maior a minha sombra
em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde ficou um pano
estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei
a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio
uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito
agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue
nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas
de um livro. – Ficou caída, sobre os joelhos esta manta cujas pregas
componho devagar; atravessada pelo frio húmido, desce até ao soalho que cuidadosamente
enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: «Espero a noite
e os cavalos que a seduzem.» A noite... É nela que irei procurar os limites
silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se
sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo
nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece
quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que ficaram esquecidas.
Era assim que começava um poema? Tornaram-se mais cansados os gestos. Apenas sei
que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora
os meus passos são de água.



Fernando Guimarães
Casa: o seu Desenho
IN-CM, 1985

2 comentários:

ana salomé disse...

grandessíssimo poema.

Luís Filipe Nunes disse...

Espero que não só em tamanho. Beijo.