XX

Estão diante de mim como uma filarmónica. Estão à roda da sala e eu em frente a olhá-los com muita atenção. São dez, contei-os de um a um, todos à volta, encostados à parede. E a certa altura reparo que todos remoem a boca em silêncio. São cinco homens e cinco mulheres, intervalados uns nos outros, os homens em cadeiras de rodas e as mulheres quase acocoradas, nas suas cadeirinhas rasas. E as cabeças um pouco inclinadas, esmoem mudos interminavelmente. Não costumam estar assim intervalados - estão. Vejo-lhes agora só as bocas em fileira a toda a volta, estão no ar e em fila na sua moedeira infindável. Fixo-lhes o movimento contínuo, os lábios em redemoinho lento na tarde quente imóvel. E a certa altura reparo que o rodopio das bocas se altera. Agora as dez bocas vêm à frente e atrás, um pequeno inchaço, de quem sopra, devem estar a soprar em qualquer instrumento invisível. E pouco a pouco os instrumentos são já visíveis, nítidos agora no seu niquelado amarelo. Trompetes trombones, todas as bocas sopram neles uma música no eterno. Não a ouço e há escuro à sua volta. Contra o fundo negro da sala, só as bocas soprando nos instrumentos metálicos. »




Vergílio Ferreira
em nome da terra
Bertrand Editora, 1990

2 comentários:

mar disse...

há sempre pedaços de literatura que nos completam. em vergílio encontro-me. sei-me às vezes capaz de comer dele todos os conceitos, abraçar até a casualidade das palavras para me dedicar depois à morte de pequenas coisas, simples.

obrigada pela partilha susana.
um beijo
mar.

susana disse...

obrigada por leres mar,
um beijo*