Os violinos de dvorák

Assim trabalharei a mão, o linho, o cristal paralelo,
os violinos de Dvorák.
Pelos gumes da linguagem, um tecido frágil do lado
da pobreza
dizendo o caminho nómada, a candeia de cinza.

Algures, um coração ardente, um homem que escreve,
um rosto imóvel, apesar,
no silêncio abnegado, denso e radical.

E mergulho nesse dizer aparente, amplo e subjectivo,
erguendo lírios, teias rarefeitas,
loucos interstícios, pelo magma luminoso,
onde o ouro inacessível se propaga,
pelos pórticos de melancolia,

o tempo desconexo percorrendo o caminho das esfinges,
a terra febril,
dizendo as aves, o orvalho e as feridas inteiras,
como violinos,
na extensão dos seus arcos, das suas células secretas,
erguendo o cristal prospectivo,
a chuva, o turbilhão,
caminhos de mel, meteoros de água.



Maria do Sameiro Barroso
idades sonâmbulas

3 comentários:

moriana disse...

também a descobriste, ou então fui eu que demorei a conhecê-la :)

luís nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria do Sameiro disse...

Obrigada a ambos. Escrevi este poema
pensando no Herberto Helder a quem pensei dedicar o poema, mas depois achei que não era necessário porque me pareceu que a dedicatória estava implícita. Pelos vistos, não me enganei.
saudações amigas
Maria do Sameiro Barroso