incêndio

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto do mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão.



Al Berto
Horto de Incêndio
Assírio & Alvim, 2000

5 comentários:

luís nunes disse...

é dificil apontar um, mas é talvez o livro que mais me consome de al berto, adoro este poema. bela escolha .

bruno sousa villar disse...

Foi o primeiro poema que li do poeta.
O mais marcante mas não o melhor.

luís nunes disse...

não disse ser o melhor poema, é complicado até eleger um, o livro Horto de Incêndio é dos mais marcantes em mim, ainda assim gosto muito, muito mesmo, do poema.

José S. disse...

Um poema que também gosto e que também me marcou.

bruno sousa villar disse...

"Foi o primeiro poema que li do poeta.
O mais marcante mas não o melhor."

Faltou na segunda frase entre marcante e mas " para mim".