«dois tipos olham-se:
um diz: amo-te
outro diz: que sim
um chora com a tristeza dos livros que leu,
o outro pensa: que me faça um broche;
nus, dirigem-se para a janela e descobrem a abelha reduzida à quitina; um deles, com a unha, empurra o tule contra o vidro, e, no movimento descendente, um rasgão, elimina tanta fragilidade; no quarto translúcido, olhar é uma contabilidade rigorosa; no ecrã, a Lee Remick vai morrer em breve, o Humphrey Boggart murmura: quanto te amo, em inglês, claro: a palavra fim: um dos tipos arranja as unhas com uma lima, de vez enquando pára numa teimosa atenção a qualquer falha, com a língua tenta perceber asperezas mínimas que o polegar num movimento anterior não conseguiu detectar; satisfeito, muda de unha, retoma os rápidos gestos de vaivém, o outro beija-lhe o ombro, depois, a língua no sovaco e o cuspo pelo tronco, e um sente na cara os pêlos da barriga, ouve o ruído das tripas e um riso breve; todos os movimentos ficaram suspensos: o da lima na unha, o da face na pele, já não dizia amo-te, já não dizia nada, então?»



Rui Nunes
Mensageiro Diferido
Relógio D'Água, 2004

1 comentário:

luís nunes disse...

já o reli algumas vezes.tenho mesmo de conhecer mais deste senhor.