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Não sou dona de nada

Não sou dona de nada
nem muito menos podia sê-lo de alguém.
Tu não devias temer
quando te estrangulo o sexo,
não penso dar-te filhos, nem anéis, nem promessas.


A terra que tenho é nos sapatos.
Minha casa é este corpo a parecer uma mulher,
não preciso de mais paredes e cá dentro
tenho muito espaço:
este deserto negro que tanto te assusta.


Miriam Reyes
Tradução A.M.

Só o frio respira na sala

Só o frio respira na sala.
Teu corpo agora é uma imagem que adoramos.
Diante dele persignamo-nos baixamos a cabeça rezamos
de braços cruzados as mãos atadas atrás das costas
dominando-nos de algum modo
para não cair sobre o vidro
que começa já a embaciar nas bordas.

Alguns lêem as inscrições nos ramos,
teus filhos teus netos tua irmã...
revendo um a um
como se o código de cor das flores
ou da posição de umas e doutras
pudesse trazer uma mensagem tua
agora que tu és uma flor decepada.

Esperamos um sinal teu falamos todos à uma
pedimos-te coisas parecidas.
Aqui estamos
a amar-te
a desejar-te com um desejo quase blasfemo,
o desejo de ter-te entre nós também em corpo vivo
doce carne e sangue nosso.


Miriam Reyes
Tradução A.M.

Ensinas-me a viver?

Ensinas-me a viver?
Eu deixo-te pegar na minha colecção de cascas
reparto contigo as unhas que guardo no bolso.
As sementes que nos deram
são pastilhas para dormir
e do umbigo adormecidas
crescem-nos fruteiras.

Dou-te de comer.

Anda.
A terra prometida é para os outros.
Para nós é a areia,
uma paisagem que muda com o vento.


Miriam Reyes
Tradução A.M.
¿Vas a enseñarme a vivir?
Te dejaré tocar mi colección de cáscaras
compartiré contigo las uñas que guardo en los bolsillos.
Las semillas que nos dieron
son pastillas para dormir
y del ombligo dormidos
nos crecen frutales.

Te daré de comer.

Ven.
La tierra prometida es cosa de otros.
Para nosotros la arena:
un paisaje que cambia con el viento.


Miriam Reyes
Desalojos
Hiperión ediciones, 2008
Sólo el frío respira en la sala.
Tu cuerpo es ahora una imagen que adoramos.
Frente a él nos persignamos bajamos la cabeza rezamos
con los brazos cruzados con la manos atadas detrás de la espalda
sujetándonos de alguna manera
para no caer contra el cristal
que ya empieza a empañarse por los bordes.

Algunos leen una y otra vez las inscripciones en los ramos:
tus hijos tus nietos tu hermana…
y los repasan pieza a pieza
como si en el código de color que siguen las flores clavadas en sus corchos]
o en la posición de una respecto a la otra
pudiera descodificarse un mensaje tuyo
ahora que tú eres una flor cortada.

Esperamos tu señal te hablamos todos a la vez te pedimos cosas parecidas.
Aquí estamos
queriéndote
deseándote con un deseo casi blasfemo:
el deseo de tenerte entre nosotros también en cuerpo palpitante
dulce carne y sangre nuestras.


Miriam Reyes
Desalojos
Hiperión ediciones, 2008