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(Considerações de Ovídio acerca do seu desterro) 

Há quem julgue que nos meus versos me refiro aos deuses
e aos homens. Eu próprio contribuí para isso. Mas posso dizer-vos
que sigo outros caminhos. Falo dos seres. Sempre o fiz. As nuvens
chegam de longe e ficam reflectidas na superfície límpida
do mar. Se me perguntas o que é um ser, direi apenas
que tudo o que for trazido pelas ondas delas recebe
uma outra realidade, esse estremecimento que parece ter
origem num ventre materno fecundado pela areia
ou pela luz. Há quem olhe e não o reconheça; por isso tenho
de o escrever. Sento-me à frente de uma mesa circular,
de madeira. Reparo melhor nela. Vejo como são as estrias, algumas
das manchas, os nós, os seus leves desenhos. Toco neles e depois
encontro o relevo do que ficou escrito. Se te aproximares um pouco
ouves a minha voz cansada. A tudo queríamos dar um nome,
e quantas vezes se não pode reconhecer sequer onde se encontram
vestígios tão difíceis. Refiro-me talvez ao calor dos teus olhos e
                                                                                         [espero
pelas imagens que hão-de finalmente caber neles. Nada
é mais sereno. Vês? Os círculos na água afastam-se.



Fernando Guimarães 
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002
(Considerações de Ovídio acerca do seu desterro)


Todos se lembravam bem que ele era o romano, o exilado, o poeta. Onde 
estava sepultado? Mas, acaso, há uma lei que obrigue a que se responda
a um estrangeiro se este pergunta pelo paradeiro de outro estrangeiro? 

Christoph Ransmayr, O último mundo


Onde está esse homem que veio de Roma, o estrangeiro? Não
o sabemos. Todas as raízes convergem para o mesmo sítio. Talvez
                                                                                              [seja
o lugar onde esperamos encontrar uma planta que das próprias
                                                                                        [folhas
recebia a origem. Quem assim ficou sepultado não tem quaisquer
limites, confunde-se com o ar, com a brisa. Reconhecemos
que está para além de si mesmo, finalmente disperso
no seu pólen ou em qualquer reflexo esquecido de outros
olhares. A brisa passou de novo. Há quem se afaste nos caminhos
para encontrar o seu destino; e veremos como se torna maior
esta distância que ficou prometida, só para que se encontre
o que julgamos ser igual à sua ausência. Sempre
foi assim... De que serve este esforço para se ter uma outra espécie
de conhecimento, o que vai dissipar-se no vidro das janelas, espesso
e sem novas imagens? Talvez continue a mesma suspeita, Pode ser
                                                                                               [ali,
nesta terra revolta, suspensa sobre a noite e destinada
ao exílio, que se levanta um rosto ainda mais simples para ser igual
ao de um homem qualquer. Vemos as suas únicas feições, a curva
imóvel das pálpebras. Se ele era estrangeiro, nós o que seremos?


Fernando Guimarães 
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002
Procura o mínimo. O que talvez se torne no contorno
lanceolado das folhas, a cicatriz mais funda
que existe no ar, qualquer sussurro que continua
embargado. Não é isto o que fica ao teu alcance?
Procura-o sem descanso, embora mal o encontres.
Será preciso mais? Já descobriste agora
o que para ti há-de ficar completo, ainda que seja
menor que um pouco desta luz, que vês ao longe.

Fernando Guimarães
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002
Não queiras muitas coisas. Olha para as mãos
e vê tudo o que elas podem conter se estão vazias.
Há muito que esperam o gesto de uma oferenda, a que chega
para que se tornem mais amplas ou possam receber
as límpidas cores, os vestígios onde se conhecia
o sulco mais estreito que as vinha separar
até que sejam apenas tuas as margens deste rio
que se tornou maior e assim encontra o nada.

Fernando Guimarães
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002

Anna Akhmatova

Estou agora sozinha. A noite pronuncia os nomes necessários.
Havia outrora alguém que deixava cair sobre os meus ombros
a areia rugosa. Dissera mesmo, com um sorriso: «Os teus
ombros de clepsidra...» E eu sentia esse rumor límpido, que levava
as pessoas a fitarem-se durante instantes, com uma suspeita
inesperada; uma espécie de veneno, digo-vos. O olhar
pousado neste espelho imobiliza-se; os dedos que teceram
os dourados ícones esperam ainda. Ficou à minha volta
apenas um ligeiro odor de tabaco, porque há muito as conversas
esmoreceram. Recomeço o maquillage e sei como os dedos
perseguem um corpo frágil e destruído; ao tocarem
com cuidado as sobrancelhas ainda poderão erguer esse pó azul
que as transforma numa espécie de versos, quando Tomachevski
nos vinha explicar: «a rima é a forma canonizada, métrica
da eufonia.» E sinto ainda esse rumor triste, que ficou perdido
entre as vozes ciciadas, agora tornadas cúmplices. Uma mulher
aparecera com uma ave destruída nas mãos; o ar ficou
iluminado e sabíamos que ela pensava ainda num voo
que se tornara impossível. Foi assim que pude ver à minha volta
esta renda que chegava da idade, o tremor límpido que percorria
os braços, o contorno apenas adivinhado das veias. Sabia
que devagar começara o tempo a envolver-me; atravessei
um jardim e olhava para as folhas que ali alguém tinha calcado. Pensei
nos bolbos, nas escamas da terra. Junto às portas entreabertas podia-se ver
alguns sinais que não sabia interpretar: talvez as sementes que nasciam
da própria casa, e sozinha escutava o rumor que atravessa estes corredores
vegetais. Tornava-se maior a minha sombra
em cada quarto, um pouco inclinada para os móveis abandonados onde ficou um pano
estendido como se esquecêssemos o seu peso. Recebo daqueles que amei
a luz; assim me inclino um pouco sobre esta mesa e inicio
uma leitura morosa, paciente. Por vezes, em qualquer recanto, escuto ainda o grito
agudo dos que se suicidaram e reparo num vestígio de sangue
nas suas têmporas: como um fio vermelho que marca as páginas
de um livro. – Ficou caída, sobre os joelhos esta manta cujas pregas
componho devagar; atravessada pelo frio húmido, desce até ao soalho que cuidadosamente
enceraram. Quase em surdina, alguém ao meu lado disse: «Espero a noite
e os cavalos que a seduzem.» A noite... É nela que irei procurar os limites
silenciosos destas paredes a que me acolhi; a sombra e a luz confundem-se
sobre os meus cabelos que sempre gostei de ter um pouco curtos. Reparo
nos favos da casa; há uma janela próxima que estremece
quando as folhas a vêm tocar, e principio a escrever ali as palavras que ficaram esquecidas.
Era assim que começava um poema? Tornaram-se mais cansados os gestos. Apenas sei
que caminho ao encontro dos companheiros que nunca pude esquecer, e agora
os meus passos são de água.



Fernando Guimarães
Casa: o seu Desenho
IN-CM, 1985

Acerca do sentido [3]

A verdade cabia nos teus olhos, mas estes fecham-se
com um movimento que se torna simples. Apenas a espuma
era trazida pelas ondas e outros vestígios chegaram
de um dia humedecido; depois, vimos como se deteve
e ficou de novo submersa. Mas é dela que talvez se receba
um aviso. Ainda hoje a esperamos quando junto de nós
finalmente se encontra uma nova imagem abandonada
pela proximidade da noite. Sabias que a verdade é um aviso?



Fernando Guimarães
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002

Acerca do sentido [7]

O que podemos esperar? É mais perto que vês
um caminho. A ele nos habituamos. É deste modo
que consegues compreender-me melhor. Reparas agora
como os gestos podem ficar reduzidos a um único
movimento e as cores à mesma transparência
que as há-de tornar maiores. Encontras o sentido
que pertencia a tudo, para que finalmente seja
apenas nosso, como se olhássemos para longe.



Fernando Guimarães
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002

Acerca do sentido [1]

Aproxima-te. É assim que consegues encontrar
algumas palavras. Estão juntas. Têm um sentido
capaz de vir acompanhar-te como se pelos dedos
escorresse um pouco de água, a sua transparência
súbita. Recebe o que elas te podem dar agora,
a respiração que fica tranquila e o mesmo aceno
só para que depois consigas compreender
como é fácil que tudo se perca nos teus olhos.



Fernando Guimarães
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002

Acerca do sentido [6]

Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar
mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa
há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima
brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa
começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro
sem qualquer ruído, como se as mesmas folhas estivessem
ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio
chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.



Fernando Guimarães
Lições de Trevas
Quasi Edições, 2002

Conheço as suas raízes

Conheço as suas raízes. É tudo o que vejo.
Há um movimento que a percorre devagar. Não sei
se ela existe. Imagino apenas como são os ramos,
este odor mais secreto, as primeiras folhas
aquecidas. Mas eu existo para ela. Sou
a sua própria sombra, o espaço que fica à volta
para que se torne maior. É assim que chega
o que não passa de um pressentimento. Ela compreende
este segredo. Estremece. Comigo procuro trazer
só um pouco de terra, é a terra que ela precisa.



Fernando Guimarães
Algumas das Palavras - Poesia Reunida 1956 - 2008
Quasi Edições, 2008