Estou vivo e de manhã surpreendi as estrelas.
A companheira dorme ainda e não sabe.
Dormem todos, os companheiros. O claro dia
vejo mais nítido que os rostos submersos.
Passa um velho à distância, a caminho do trabalho
ou a gozar a manhã. Não somos diferentes,
ambos respiramos o mesmo esplendor
e fumamos tranquilos para enganar a fome.
Também o corpo do velho deve ser puro
e vibrante – deveria estar nu ante a manhã.
Esta manhã a vida escorre-nos na água
e em terra: em torno o fulgor da água
sempre jovem e a descoberto os corpos de todos.
Haverá o grande sol e a aspereza da praça
e o rude cansaço que nos verga para o chão
e a imobilidade. Estará a companheira
- um segredo de corpos. E cada um dará sua coisa.
Não há voz que rompa o silêncio da água
de manhã. Nem nada vibrando sob o céu.
Apenas um calor que dissolve as estrelas.
Treme-se ouvindo vibrar a manhã virginal,
como se nenhum de nós estivesse acordado.
Cesare Pavese
Tradução A.M.
Mostrar mensagens com a etiqueta cesare pavese. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cesare pavese. Mostrar todas as mensagens
Mulheres apaixonadas
As raparigas descem para a água ao fim da tarde,
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.
As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se a mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam de se sentar à vista de todos, na toalha em desordem.
Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo tremulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.
Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
quando o mar se esvai, estendido. No bosque
cada folha estremece quando emergem prudentes
na areia e se sentam nas dunas. A espuma
alonga-se em jogos inquietos na água distante.
As raparigas têm medo das algas escondidas
sob as ondas, que se agarram às pernas e aos ombros:
o que está nu do corpo. Sobem rápidas para as dunas
e chamam-se pelo nome, olhando à volta.
Também as sombras no fundo do mar, no escuro,
são enormes e vêem-se a mexer, incertas,
como atraídas pelos corpos que passam. O bosque
é um refúgio tranquilo ao pôr-do-sol,
mais do que o areal, mas as raparigas morenas
gostam de se sentar à vista de todos, na toalha em desordem.
Estão todas encolhidas, apertando a toalha
contra as pernas, e contemplam o mar plano
como um prado ao fim da tarde. Ousaria alguma delas
deitar-se agora nua na erva dum prado? Do mar
saltariam as algas que afloram os pés,
para agarrar o seu corpo tremulo e envolvê-lo.
No mar há olhos que às vezes reluzem.
Aquela estrangeira desconhecida, que nadava de noite
sozinha e nua no escuro quando muda a lua,
desapareceu uma noite e nunca mais volta.
Era alta e devia ser duma brancura deslumbrante
para que do fundo do mar aqueles olhos a alcançassem.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Desenraizados
Chega de mar. Já vimos mar que chegue.
Ao entardecer, quando deslavada a água se estende
e esfuma no nada, o meu amigo olha-a fixamente
e eu fixo o meu amigo e nenhum de nós fala.
Chegada a noite, acabamos por nos fechar nos fundos de uma taberna,
perdidos no meio do fumo, e bebemos. O meu amigo tem sonhos
(o bramir do mar torna os sonhos um tanto monótonos)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
que reflecte colinas salpicadas de flores selvagens e cascatas.
Quando bebe, dá-lhe para isto. De olhos postos no copo,
vê-se erguer colinas verdejantes sobre a planura do mar.
As colinas, a mim agradam-me; e deixo-o falar do mar
porque a água é tão clara que se vêem mesmo as pedras do fundo.
Eu, o que vejo é só colinas, e enchem-me o céu e a terra
com as linhas nítidas dos seus perfis, distantes ou próximas.
Mas as minhas são agrestes, estriadas de vinhedos
que crescem penosamente num solo calcinado. O meu amigo aceita-as
e quer vesti-las de flores e frutos selvagens
para nelas descobrir, entre risos, raparigas mais nuas que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais agrestes não falta um sorriso.
Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Ao entardecer, quando deslavada a água se estende
e esfuma no nada, o meu amigo olha-a fixamente
e eu fixo o meu amigo e nenhum de nós fala.
Chegada a noite, acabamos por nos fechar nos fundos de uma taberna,
perdidos no meio do fumo, e bebemos. O meu amigo tem sonhos
(o bramir do mar torna os sonhos um tanto monótonos)
em que a água é apenas o espelho, entre uma ilha e outra,
que reflecte colinas salpicadas de flores selvagens e cascatas.
Quando bebe, dá-lhe para isto. De olhos postos no copo,
vê-se erguer colinas verdejantes sobre a planura do mar.
As colinas, a mim agradam-me; e deixo-o falar do mar
porque a água é tão clara que se vêem mesmo as pedras do fundo.
Eu, o que vejo é só colinas, e enchem-me o céu e a terra
com as linhas nítidas dos seus perfis, distantes ou próximas.
Mas as minhas são agrestes, estriadas de vinhedos
que crescem penosamente num solo calcinado. O meu amigo aceita-as
e quer vesti-las de flores e frutos selvagens
para nelas descobrir, entre risos, raparigas mais nuas que os frutos.
Não é preciso: aos meus sonhos mais agrestes não falta um sorriso.
Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Disciplina
O trabalho começa ao romper do dia. Mas nós começamos,
um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos
nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros
transeuntes, cada um sabe que está sozinho
e que tem sono - perdido no seu próprio sonho,
cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.
Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos
a fixar o trabalho que agora começa.
Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono
e pensamos com calma os pensamentos do dia
até que o sorriso vem. Com o regresso do sol
estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento
menos claro - um esgar - surpreende-nos inesperadamente
e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.
A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.
Nada pode turvar a manhã. Tudo pode
acontecer e basta levantar a cabeça
do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam
e que ainda não fazem nada passam na rua
e alguns até correm. As árvores das avenidas
dão muita sombra e só falta a erva
entre as casas que assistem imóveis. São tantos
os que à beira-rio se despem ao sol.
A cidade permite-nos levantar a cabeça
para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos
nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros
transeuntes, cada um sabe que está sozinho
e que tem sono - perdido no seu próprio sonho,
cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.
Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos
a fixar o trabalho que agora começa.
Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono
e pensamos com calma os pensamentos do dia
até que o sorriso vem. Com o regresso do sol
estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento
menos claro - um esgar - surpreende-nos inesperadamente
e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.
A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.
Nada pode turvar a manhã. Tudo pode
acontecer e basta levantar a cabeça
do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam
e que ainda não fazem nada passam na rua
e alguns até correm. As árvores das avenidas
dão muita sombra e só falta a erva
entre as casas que assistem imóveis. São tantos
os que à beira-rio se despem ao sol.
A cidade permite-nos levantar a cabeça
para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Uma estação
Esta mulher outrora era feita de carne
sadia e firme: quando esperava um filho
fechava-se, escondida, e murchava sozinha.
Não gostava de se mostrar deformada na rua.
Nas outras ocasiões (era jovem e sem querer
fez muitos filhos) passava na rua
com um andar seguro e sabia gozar cada instante.
Os vestidos são vento nas tardes de Março
e colam-se e ondulam à volta das mulheres que passam.
O seu corpo de mulher movia-se seguro no vento
que se esvaía deixando-o mais forte. Não tinha outro bem
a não ser o corpo, hoje consumido por tantos filhos.
Nas tardes de vento espalha-se um odor de seivas,
o cheiro que tinha em jovem o corpo
por baixo dos vestidos supérfluos. Um sabor a terra molhada
que em Março volta sempre. Na cidade, mesmo onde não há avenidas
e nem chega com o sol um sopro de vento,
o seu corpo vivia, exalando sucos
fermentados, entre muros de pedra. Com os anos também ela,
que alimentou outros corpos, se quebrou e dobrou.
Não é bonito vê-la, perdeu toda a força;
mas, dos muitos, uma filha volta a passar
nas ruas, à tarde, e a ostentar ao vento
sob as árvores, sadio e firme, o seu corpo que vive.
E há um filho que deambula e sabe estar sozinho
e sabe divertir-se sozinho. Mas olha-se nas montras,
satisfeito com a maneira como leva pelo braço
a companheira. Gosta, com um jeito dos músculos,
de a puxar para si e que ela resista e de a beijar no pescoço.
Gosta sobretudo, depois de gerar naquele corpo,
de o deixar murchar e voltar a estar sozinho.
Um abraço fá-lo unicamente sorrir e um filho
írrita-lo-ia. Sabe-o a rapariga e espera,
e prepara-se para esconder o ventre deformado
e entrega-se-lhe, complacente, e admira a força
daquele corpo que serve para fazer tantas outras coisas.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
sadia e firme: quando esperava um filho
fechava-se, escondida, e murchava sozinha.
Não gostava de se mostrar deformada na rua.
Nas outras ocasiões (era jovem e sem querer
fez muitos filhos) passava na rua
com um andar seguro e sabia gozar cada instante.
Os vestidos são vento nas tardes de Março
e colam-se e ondulam à volta das mulheres que passam.
O seu corpo de mulher movia-se seguro no vento
que se esvaía deixando-o mais forte. Não tinha outro bem
a não ser o corpo, hoje consumido por tantos filhos.
Nas tardes de vento espalha-se um odor de seivas,
o cheiro que tinha em jovem o corpo
por baixo dos vestidos supérfluos. Um sabor a terra molhada
que em Março volta sempre. Na cidade, mesmo onde não há avenidas
e nem chega com o sol um sopro de vento,
o seu corpo vivia, exalando sucos
fermentados, entre muros de pedra. Com os anos também ela,
que alimentou outros corpos, se quebrou e dobrou.
Não é bonito vê-la, perdeu toda a força;
mas, dos muitos, uma filha volta a passar
nas ruas, à tarde, e a ostentar ao vento
sob as árvores, sadio e firme, o seu corpo que vive.
E há um filho que deambula e sabe estar sozinho
e sabe divertir-se sozinho. Mas olha-se nas montras,
satisfeito com a maneira como leva pelo braço
a companheira. Gosta, com um jeito dos músculos,
de a puxar para si e que ela resista e de a beijar no pescoço.
Gosta sobretudo, depois de gerar naquele corpo,
de o deixar murchar e voltar a estar sozinho.
Um abraço fá-lo unicamente sorrir e um filho
írrita-lo-ia. Sabe-o a rapariga e espera,
e prepara-se para esconder o ventre deformado
e entrega-se-lhe, complacente, e admira a força
daquele corpo que serve para fazer tantas outras coisas.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
lo steddazzu, a estrela da manhã
O homem só levanta-se quando o mar ainda está escuro
e as estrelas vacilam. Uma tepidez de hálito
eleva-se da margem, onde o mar tem o seu leito
e adoça a respiração. Esta é a hora em que nada
pode acontecer. Até o cachimbo entre os dentes
pende apagado. Nocturno é o marulhar tranquilo.
O homem só acendeu já um grande fogo de ramos
e vê-o avermelhar o terreno. Também o mar
dali a pouco será como o fogo, flamejante.
Não há coisa mais amarga do que a aurora dum dia
em que nada acontecerá. Não há coisa mais amarga
do que a inutilidade. Pende cansada no céu
uma estrela esverdeada, surpreendida pela madrugada.
Vê o mar ainda escuro e a mancha de fogo
a que o homem, para fazer alguma coisa, se aquece ;
vê e cai de sono entre as pardas montanhas
onde há um leito de neve. A lentidão da hora
não tem piedade de quem já nada espera.
Vale a pena que o sol se levante do mar
e o longo dia comece? Amanhã voltará
a cálida aurora com a diáfana luz
e será como ontem e nada mais acontecerá.
O homem só apenas gostaria de dormir.
Quando a última estrela se apaga no céu,
o homem prepara lentamente o cachimbo e acende-o.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
e as estrelas vacilam. Uma tepidez de hálito
eleva-se da margem, onde o mar tem o seu leito
e adoça a respiração. Esta é a hora em que nada
pode acontecer. Até o cachimbo entre os dentes
pende apagado. Nocturno é o marulhar tranquilo.
O homem só acendeu já um grande fogo de ramos
e vê-o avermelhar o terreno. Também o mar
dali a pouco será como o fogo, flamejante.
Não há coisa mais amarga do que a aurora dum dia
em que nada acontecerá. Não há coisa mais amarga
do que a inutilidade. Pende cansada no céu
uma estrela esverdeada, surpreendida pela madrugada.
Vê o mar ainda escuro e a mancha de fogo
a que o homem, para fazer alguma coisa, se aquece ;
vê e cai de sono entre as pardas montanhas
onde há um leito de neve. A lentidão da hora
não tem piedade de quem já nada espera.
Vale a pena que o sol se levante do mar
e o longo dia comece? Amanhã voltará
a cálida aurora com a diáfana luz
e será como ontem e nada mais acontecerá.
O homem só apenas gostaria de dormir.
Quando a última estrela se apaga no céu,
o homem prepara lentamente o cachimbo e acende-o.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Virá a morte e terá os teus olhos
Virá a morte e terá os teus olhos
- esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês, em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados
Desceremos o remoínho juntos.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
- esta morte que nos acompanha
de manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.
Assim os vês, em cada manhã
quando sobre ti só te inclinas
ao espelho. Ó querida esperança,
nesse dia saberemos também nós
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como largar um vício,
como ver ressurgir
no espelho um rosto morto,
como escutar lábios fechados
Desceremos o remoínho juntos.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Fumadores de papel
Trouxe-me para ouvir a sua banda. Senta-se a um canto
e pega no clarinete. Começa um chinfrim infernal.
Lá fora, um vento furioso e as bofetadas, entre os relâmpagos,
da chuva fazem com que haja cortes de luz
de cinco em cinco minutos. Cá dentro, às escuras,
os rostos transtornados esforçam-se por tocar de cor
uma música de dança. Enérgico, o meu pobre amigo
dirige, lá do fundo. E o clarinete torce-se,
rompe a confusão dos sonos, eleva-se, alivia-se
como uma alma solitária, num silêncio seco.
Esses pobres cobres amolgam-se com demasiada frequência:
camponesas as mãos que primem os registos, camponesas
as cabeças teimosas que mal levantam os olhos da terra.
Miserável sangue, derreado, extenuado
de tanto lidar, sente-se mugir
nas notas, e o meu amigo dirige-os com dificuldade,
ele que tem as mãos calejadas de dar ao formão,
de manejar a galorpa, de dar cabo da vida.
Teve o seu tempo e camaradas e tem só trinta anos.
É dos de a seguir à guerra, que cresceram com fome.
Também ele veio para Turim, à procura duma vida,
e encontrou a injustiça. Aprendeu a trabalhar
nas fábricas sem um sorriso. Aprendeu a medir
pela sua própria fadiga a fome dos outros,
e em todo o lado encontrou injustiças. Tentou ter paz
caminhando ensonado pelas avenidas sem fim
durante a noite, mas apenas viu os candeeiros aos milhares,
lucidíssimos, sobre a iniquidade : mulheres roucas, bêbados,
fantoches cambaleantes, perdidos. Chegara a Turim no inverno,
no meio das luzes das fábricas e das nuvens de fuligem;
e sabia o que era o trabalho. Aceitava o trabalho
como um duro destino do homem. Mas que todos os homens
o aceitassem e houvesse justiça no mundo.
Mas encontrou camaradas. Sofria os longos discursos
e teve de os ouvir, à espera que acabassem.
Encontrou camaradas. Em todas as casas havia famílias.
A cidade estava cercada por eles. Sentiam no íntimo
um desespero tal que chegava para vencer o mundo.
Toca com secura esta noite, apesar dos músicos
que ensinou um a um. Não presta atenção ao fragor
da chuva nem à luz. O rosto severo,
mordendo o clarinete, fixa atento uma dor.
Vi-lhe estes olhos uma noite em que, sozinhos,
com o irmão, mais triste do que ele dez anos,
passávamos o serão a uma luz exígua. O irmão estudava
um torno inútil que ele mesmo construíra.
E o meu pobre amigo acusava o destino
que os tinha atado à galorpa e ao malhete
para sustentar dois velhos que não tinham pedido.
De repente gritou
que se o mundo sofria, se a luz do sol
arrancava blasfémias, não era o destino:
o culpado era o homem. Ao menos pudéssemos partir,
rebentar de fome em liberdade, dizer não
a uma vida que utiliza o amor e a piedade,
a família, o bocado de terra, para nos atar as mãos.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
e pega no clarinete. Começa um chinfrim infernal.
Lá fora, um vento furioso e as bofetadas, entre os relâmpagos,
da chuva fazem com que haja cortes de luz
de cinco em cinco minutos. Cá dentro, às escuras,
os rostos transtornados esforçam-se por tocar de cor
uma música de dança. Enérgico, o meu pobre amigo
dirige, lá do fundo. E o clarinete torce-se,
rompe a confusão dos sonos, eleva-se, alivia-se
como uma alma solitária, num silêncio seco.
Esses pobres cobres amolgam-se com demasiada frequência:
camponesas as mãos que primem os registos, camponesas
as cabeças teimosas que mal levantam os olhos da terra.
Miserável sangue, derreado, extenuado
de tanto lidar, sente-se mugir
nas notas, e o meu amigo dirige-os com dificuldade,
ele que tem as mãos calejadas de dar ao formão,
de manejar a galorpa, de dar cabo da vida.
Teve o seu tempo e camaradas e tem só trinta anos.
É dos de a seguir à guerra, que cresceram com fome.
Também ele veio para Turim, à procura duma vida,
e encontrou a injustiça. Aprendeu a trabalhar
nas fábricas sem um sorriso. Aprendeu a medir
pela sua própria fadiga a fome dos outros,
e em todo o lado encontrou injustiças. Tentou ter paz
caminhando ensonado pelas avenidas sem fim
durante a noite, mas apenas viu os candeeiros aos milhares,
lucidíssimos, sobre a iniquidade : mulheres roucas, bêbados,
fantoches cambaleantes, perdidos. Chegara a Turim no inverno,
no meio das luzes das fábricas e das nuvens de fuligem;
e sabia o que era o trabalho. Aceitava o trabalho
como um duro destino do homem. Mas que todos os homens
o aceitassem e houvesse justiça no mundo.
Mas encontrou camaradas. Sofria os longos discursos
e teve de os ouvir, à espera que acabassem.
Encontrou camaradas. Em todas as casas havia famílias.
A cidade estava cercada por eles. Sentiam no íntimo
um desespero tal que chegava para vencer o mundo.
Toca com secura esta noite, apesar dos músicos
que ensinou um a um. Não presta atenção ao fragor
da chuva nem à luz. O rosto severo,
mordendo o clarinete, fixa atento uma dor.
Vi-lhe estes olhos uma noite em que, sozinhos,
com o irmão, mais triste do que ele dez anos,
passávamos o serão a uma luz exígua. O irmão estudava
um torno inútil que ele mesmo construíra.
E o meu pobre amigo acusava o destino
que os tinha atado à galorpa e ao malhete
para sustentar dois velhos que não tinham pedido.
De repente gritou
que se o mundo sofria, se a luz do sol
arrancava blasfémias, não era o destino:
o culpado era o homem. Ao menos pudéssemos partir,
rebentar de fome em liberdade, dizer não
a uma vida que utiliza o amor e a piedade,
a família, o bocado de terra, para nos atar as mãos.
Cesare Pavese
Trabalhar cansa
Livros Cotovia, 2008
Tradução De Carlos Leite
Subscrever:
Mensagens (Atom)