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Bairro livre

Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça

Então não se faz a continência
perguntou o comandante

Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro

Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante

Ora essa
disse o pássaro
toda a gente se pode enganar


Jacques Prévert
(Trad. Eugénio de Andrade)

Paris at night

Três fósforos um a um acesos na noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O terceiro para ver a tua boca
E toda a escuridão para recordar tudo isso
Apertando-te nos braços.


Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres

Domingo

Entre as filas de árvores da avenida dos Gobelins
Uma estátua de mármore leva-me pela mão
Hoje é domingo os cinemas estão cheios
Os pássaros nos ramos contemplam os humanos
E a estátua beija-me mas ninguém nos vê
A não ser uma criança cega que nos aponta com o dedo.


Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres

Na minha casa

Há-de vir a minha casa
Aliás nem é a minha casa
Não sei de quem é
Entrei nela um dia
Não estava ninguém
Só havia malaguetas penduradas na parede branca
Fiquei muito tempo nessa casa
Não apareceu ninguém
Mas todos os dias
Esperei por si

Eu não fazia nada
Isto é nada de importante
Às vezes de manhã
Lançava uns gritos animais
Zurrava como um burro
Com toda a força
E isso dava-me prazer
E depois brincava com os pés
São muito inteligentes os pés
Podem levar-nos longe
Quando queremos ir longe
E quando não queremos sair
Eles ficam a fazer-nos companhia
Quando há música dançam
Sem eles não se pode dançar
É preciso ser-se estúpido como o homem tantas vezes é
Para dizer coisas tão estúpidas
Como estúpido como um pé alegre como um tentilhão
O tentilhão não é alegre
Só é alegre quando está alegre
É triste quando está triste ou nem alegre nem triste
Aliás ele nem se chama assim
Foi o homem quem lhe deu esse nome
Tentilhão Tentilhão Tentilhão

Coisa curiosa com os nomes
Martim Hugo Victor nome próprio
Bonaparte Napoleão nome próprio
Porquê assim e não assado
Um bando de bonapartes atravessa o deserto
O imperador chama-se Dromedário
Tem um cavalo cofre e gavetas de corrida
Lá ao longe galopa um homem que só tem três nomes
próprios
Chama-se Pim-Pam-Pum e não tem um apelido importante
Mais adiante está não sei quem
E muito mais adiante há não sei quê
No fundo o que é que isso interessa

Hás-de vir a minha casa
Penso noutra coisa mas não paro de pensar nisso
E quando entrares em minha casa
Despir-te-ás toda
E ficarás de pé imóvel e nua com a tua boca vermelha
Como as malaguetas penduradas na parede branca
E depois deitar-te-ás e eu deitar-me-ei ao teu lado
E pronto
Hás-de vir a minha casa que não é a minha casa.


Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres

Manhã farta

É terrível o som
da casca de ovo cozido partido sobre o balcão
é terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão
é terrível também a cabeça desse homem
do homem sem pão
quando se olha às seis da manhã
na montra do grande armazém
uma cabeça cor de farinha
mas não é para a sua cabeça que ele olha
na montra da loja Potin
está-se nas tintas para a sua cabeça, o homem
não pensa nela
sonha
imagina uma outra cabeça
uma cabeça de vitela, por exemplo,
com molho vinagrete
ou qualquer outra cabeça que se trinque
e remexe o maxilar lentamente
lentamente
e range os dentes lentamente
porque o mundo lhe dá cabo da cabeça
e ele nada pode contra esse mundo
e conta pelo dedos: um dois três
um dois três
há três dias que não come
e por muito que há três dias repita que
Isto não pode continuar
isto continua
três dias
três noites
sem comer
e atrás daqueles vidros
aqueles pastéis, aquelas garrafas, aquelas conservas
peixes mortos protegidos pelas latas
latas protegidas pelos vidros
vidros protegidos pelos chuis
chuis protegidos pelo medo
tantas barricadas para seis míseras sardinhas...
Logo adiante o bar da esquina
café-creme e croissants quentes
o homem cambaleia
e dentro da cabeça
uma névoa de palavras
uma névoa de palavras
sardinhas para comer
ovo cozido café-creme
café com pingo de rum
café-creme
café-creme
café-crime com pingos de sangue!...
Um homem muito estimado no seu bairro
foi degolado em pleno dia
o assassino  vagabundo roubou-lhe
dois francos
ou seja: um café pingado
setenta cêntimos
duas fatias de pão com manteiga
e vinte e cinco cêntimos para a gorjeta do empregado.
É terrível
o som da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
É terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão.


Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres

Para fazer o retrato de um pássaro

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
depois pintar
qualquer coisa de bonito
qualquer coisa de simples
qualquer coisa de belo
qualquer coisa de útil...
para o pássaro
depois pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dar um pio
sem mover um dedo...
Às vezes o pássaro chega sem demora
mas pode também levar longos anos
até se decidir
Não se abater
esperar
esperar anos e anos se preciso
pois a rapidez ou a demora
do pássaro não têm nada a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
manter o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando entrar
fechar suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar sem querer nas penas do pássaro
Fazer depois o retrato da árvore
reservando o galho mais belo de todos
para o pássaro
pintar ainda a folhagem verde e o frescor do vento
a poeira do sol
e o rumor dos insetos na relva no calor do verão
depois é só esperar que o pássaro comece a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
sinal de que o quadro é mau
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
então você deve arrancar devagarinho
uma das penas do pássaro
e escrever seu nome num canto do quadro.




Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres

O discurso sobre a paz

Já no final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado engasgado
com uma bela frase oca
escorrega
e desamparado com a boca escancarada
sem fôlego
mostra os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.



Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres