Ouço essa voz escrita, isso basta-me muitas vezes para adormecer. Lembro o cheiro
do café logo de manhã, ou ao entardecer, entre os insectos na varanda. O aroma
do tabaco. Estar descalço no chão. Nadar. Pão. Queijo. Dois livros, ou três. Uma cerveja
fora de horas. As estradas que nos esperam, as praias abandonadas, os mapas, a
nossa condição. Um dia num país, um dia noutro. Clarões no meio da escuridão.
Francisco José Viegas
A noite, o que é?
Quasi Edições, 2007
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Os primeiros dias são tristes, as primeiras noites, há ainda qualquer
coisa sem nome a rodear a vigília, livros amontoados, perdidos, e sons
dispersos, nenhum respira verdadeiramente. Penduradas sobre a va-
randa, as trepadeiras; o jasmim, o café, o pão, os passos às primeiras
horas do dia, as primeiras coisas vindas da janela aberta, sempre aber-
ta. Tudo o resto é aquele silêncio onde os olhos ficam mais perdidos,
aquilo de que raramente sabemos dizer o nome.
Francisco José Viegas
A noite, o que é?
Quasi Edições, 2007
coisa sem nome a rodear a vigília, livros amontoados, perdidos, e sons
dispersos, nenhum respira verdadeiramente. Penduradas sobre a va-
randa, as trepadeiras; o jasmim, o café, o pão, os passos às primeiras
horas do dia, as primeiras coisas vindas da janela aberta, sempre aber-
ta. Tudo o resto é aquele silêncio onde os olhos ficam mais perdidos,
aquilo de que raramente sabemos dizer o nome.
Francisco José Viegas
A noite, o que é?
Quasi Edições, 2007
O número dos versos
É muito igual a literatura, o que fica guardado nos livros.
Com o tempo mudou o verso, a curva, o arco,
o declive, o mal-estar, a maneira de enumerar as paisagens,
as coisas desconformes. Imagina tu as palavras que se repetem
à saída dos cinemas de província, atravessando o nevoeiro
das noites de Inverno; imagina tu estas ruas que ficam desertas
com o crepúsculo, os campos de batalha, os recados e bilhetes
de amor que nunca foram entregues, os caminhos
que levam da madrugada até ao coração da morte.
Poesia fácil, prosa quase; a música vem da sua melancolia
e não da aritmética sentimental, daquelas palavras
(sangue, grito, coração, litoral). Mais de um halo,
do sopro dos pinhais, dos destroços de um amor de toda a vida.
Desengana-te acerca da poesia, da elevação,
da circunstância, fala apenas - como os antigos - da aventura
de um solitário entre ruínas, levantando as pedras,
reerguendo muros, contando o número de vítimas.
Depois deste haverá outro terramoto, recordarás o vento
nas eiras, o musgo entre os carvalhos, o rio dobrando-se
numa curva onde há mais choupos, esse areal, essa ventania.
Francisco José Viegas
Se me Comovesse o Amor
Quasi Edições, 2007
Com o tempo mudou o verso, a curva, o arco,
o declive, o mal-estar, a maneira de enumerar as paisagens,
as coisas desconformes. Imagina tu as palavras que se repetem
à saída dos cinemas de província, atravessando o nevoeiro
das noites de Inverno; imagina tu estas ruas que ficam desertas
com o crepúsculo, os campos de batalha, os recados e bilhetes
de amor que nunca foram entregues, os caminhos
que levam da madrugada até ao coração da morte.
Poesia fácil, prosa quase; a música vem da sua melancolia
e não da aritmética sentimental, daquelas palavras
(sangue, grito, coração, litoral). Mais de um halo,
do sopro dos pinhais, dos destroços de um amor de toda a vida.
Desengana-te acerca da poesia, da elevação,
da circunstância, fala apenas - como os antigos - da aventura
de um solitário entre ruínas, levantando as pedras,
reerguendo muros, contando o número de vítimas.
Depois deste haverá outro terramoto, recordarás o vento
nas eiras, o musgo entre os carvalhos, o rio dobrando-se
numa curva onde há mais choupos, esse areal, essa ventania.
Francisco José Viegas
Se me Comovesse o Amor
Quasi Edições, 2007
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