Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.
A fotografia deteve-os na vida,
preservou-os
sobre a terra rumo à terra.
Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.
Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.
Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia
(Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
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Impressões do teatro
Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto acto:
o ressuscitar no campo de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
o arrancar da faca no peito,
o tirar da corda do pescoço,
o dispor-se na fileira entre os vivos
de cara voltada para o público.
As vénias individuais e colectivas:
a mão branca sobre a ferida no peito,
o reverenciar da suicida,
o acenar da cabeça cortada.
As vénias aos pares:
a fúria dando o braço à brandura,
a vítima trocando um olhar doce com o carrasco,
o rebelde sem rancor acertando o passo com o tirano.
O pisar da eternidade com a biqueira da botina dourada.
O escorraçar da moral com a aba do chapéu.
A incorrigível prontidão de recomeçar amanhã.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
o ressuscitar no campo de batalha,
o ajeitar das perucas e dos trajes,
o arrancar da faca no peito,
o tirar da corda do pescoço,
o dispor-se na fileira entre os vivos
de cara voltada para o público.
As vénias individuais e colectivas:
a mão branca sobre a ferida no peito,
o reverenciar da suicida,
o acenar da cabeça cortada.
As vénias aos pares:
a fúria dando o braço à brandura,
a vítima trocando um olhar doce com o carrasco,
o rebelde sem rancor acertando o passo com o tirano.
O pisar da eternidade com a biqueira da botina dourada.
O escorraçar da moral com a aba do chapéu.
A incorrigível prontidão de recomeçar amanhã.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
tem piada
Apeteceu-lhe a felicidade,
apeteceu-lhe a verdade,
apeteceu-lhe a eternidade,
vejam só!
Mal discerniu o sonho da realidade,
mal se apercebeu que ele é ele,
mal lhe nasceu a mão da barbatana,
talhou o fuzil e o foguete.
Tão frágil, que afogar-se-ia numa poça de água.
tão pouco engraçado, que nem o nada o faria rir,
é só com os olhos que vê,
é só com os ouvidos que ouve,
é com o intelecto que reprova o intelecto,
o recorda da sua fala é o mundo condicional,
numa palavra : quase ninguém,
mas almeja a liberdade, a omnisciência
e a existência fora da carne néscia,
vejam só!
Porque afinal parece existir,
efectivamente aconteceu
sob uma das estrelas provincianas,
ao seu jeito vivaz e bem activo.
Para um vil bastardo de cristal-
bastante se admira.
Para uma infância difícil, condicionada pelo rebanho-
vejam só!
Então que continue, nem que seja por um instante,
nem que seja pelo clarão de uma pequena galáxia!
Que por fim se saiba mais ou menos
o que será, uma vez que é.
E ele é tenaz.
Tenaz, diga-se, e muito.
De argola no nariz, de toga ou casaco de malha.
Tem piada, seja como for.
Pobre coitado.
Enfim- o Homem
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
apeteceu-lhe a verdade,
apeteceu-lhe a eternidade,
vejam só!
Mal discerniu o sonho da realidade,
mal se apercebeu que ele é ele,
mal lhe nasceu a mão da barbatana,
talhou o fuzil e o foguete.
Tão frágil, que afogar-se-ia numa poça de água.
tão pouco engraçado, que nem o nada o faria rir,
é só com os olhos que vê,
é só com os ouvidos que ouve,
é com o intelecto que reprova o intelecto,
o recorda da sua fala é o mundo condicional,
numa palavra : quase ninguém,
mas almeja a liberdade, a omnisciência
e a existência fora da carne néscia,
vejam só!
Porque afinal parece existir,
efectivamente aconteceu
sob uma das estrelas provincianas,
ao seu jeito vivaz e bem activo.
Para um vil bastardo de cristal-
bastante se admira.
Para uma infância difícil, condicionada pelo rebanho-
vejam só!
Então que continue, nem que seja por um instante,
nem que seja pelo clarão de uma pequena galáxia!
Que por fim se saiba mais ou menos
o que será, uma vez que é.
E ele é tenaz.
Tenaz, diga-se, e muito.
De argola no nariz, de toga ou casaco de malha.
Tem piada, seja como for.
Pobre coitado.
Enfim- o Homem
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
Alguns gostam de poesia
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
o terrorista- ele está a ver
A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São só treze e dezasseis.
Alguns ainda vão a tempo de entrar;
outros de sair.
O terrorista passou para o outro lado da rua.
A esta distância fica a salvo de todo o mal
e vê tudo como no cinema:
Uma mulher de casaco amarelo - ela entra.
Um homem de óculos escuros - ele sai.
Rapazes de jeans - eles trocam impressões.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
O mais baixo - ele tem sorte, monta na scooter,
mas o mais alto - ele entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma rapariga de fita verde no cabelo.
De repente, desaparece atrás do autocarro.
Treze e dezoito.
A rapariga já não se vê.
Terá sido estúpida ao ponto de entrar?
Logo se vê, quando retirarem os corpos.
Treze e dezanove.
Ninguém parece querer entrar.
Em contra-partida sai um careca gordo.
Remexe os bolsos como se procurasse algo
e quando faltam dez segundos para as treze e vinte –
ele volta por umas reles luvas que esqueceu.
São treze e vinte.
O tempo, como ele demora.
Está na hora.
Ainda não.
Sim, já está.
A bomba - ela explode.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
São só treze e dezasseis.
Alguns ainda vão a tempo de entrar;
outros de sair.
O terrorista passou para o outro lado da rua.
A esta distância fica a salvo de todo o mal
e vê tudo como no cinema:
Uma mulher de casaco amarelo - ela entra.
Um homem de óculos escuros - ele sai.
Rapazes de jeans - eles trocam impressões.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
O mais baixo - ele tem sorte, monta na scooter,
mas o mais alto - ele entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma rapariga de fita verde no cabelo.
De repente, desaparece atrás do autocarro.
Treze e dezoito.
A rapariga já não se vê.
Terá sido estúpida ao ponto de entrar?
Logo se vê, quando retirarem os corpos.
Treze e dezanove.
Ninguém parece querer entrar.
Em contra-partida sai um careca gordo.
Remexe os bolsos como se procurasse algo
e quando faltam dez segundos para as treze e vinte –
ele volta por umas reles luvas que esqueceu.
São treze e vinte.
O tempo, como ele demora.
Está na hora.
Ainda não.
Sim, já está.
A bomba - ela explode.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
Quarto do suicida
Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta - um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?
Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito rectos.
E não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo - ou seja, ainda viva.
Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta - um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?
Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito rectos.
E não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo - ou seja, ainda viva.
Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.
Wislawa Szymborska
Alguns gostam de poesia - Antologia (Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska)
Cavalo de Ferro, 2004
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves
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