O homem com a máscara brincando
Até chegar a hora em que o seu rosto
Partilhava com ele uma só vida:
Já miúdo a história me punha indisposto.
Negava-me a aceitar. Quando crescesse,
Ia mostrar que outra maneira havia:
Que cada máscara, sem dor ou risco,
Como um capuz tirar-se podia.
Fiz disso muito tempo um firme credo.
Escondi, confiante, a minha natureza.
Extinto o fulgor do jogo que eu fazia,
Teria ela a original pureza.
Hoje sou velho, só para admitir:
A história é real. A máscara agarrou-se.
É como habituares-te ao inferno.
Como se olhar vazia cova fosse.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
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O labirinto invisível
Falta liberdade num deserto, embora
Não haja vedação ou paliçada.
Mais vale - se é estar livre o que queres -
Fazeres num labirinto vida airada.
Se bem forçado a um ror de galerias,
Também não cais nessas mãos de animal
De arrasadores de grades, num anseio
De um xelindró para todos, infernal.
Não te enxergam. Estás lindamente preso.
Eles que a bel-prazer sulquem espaços,
Criem desertos, no indomável vezo
De liberdade, vão espantar não poucos
Com cânticos de luta universal.
Não há, suponho, esperança para tais loucos.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
Não haja vedação ou paliçada.
Mais vale - se é estar livre o que queres -
Fazeres num labirinto vida airada.
Se bem forçado a um ror de galerias,
Também não cais nessas mãos de animal
De arrasadores de grades, num anseio
De um xelindró para todos, infernal.
Não te enxergam. Estás lindamente preso.
Eles que a bel-prazer sulquem espaços,
Criem desertos, no indomável vezo
De liberdade, vão espantar não poucos
Com cânticos de luta universal.
Não há, suponho, esperança para tais loucos.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
Antípoda
Poupem-me a transparência das coisas,
Roupa lavada, sol, danças de roda.
Prefiro reflexos, recordações,
Disfarces mortiços de camaleão.
Não estou. Nenhuma veia em mim murmura.
Vivo nas sombras, nome não conheço.
Deixem-se ressequir na invernia,
Longe das fortes bátegas do verão.
Os temporais de luz, não os suporto.
Não me olhem. Evitem-me essa dor.
Ó câmara. Imagem do bem-estar.
Quero-me antípoda desta exposição.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
Roupa lavada, sol, danças de roda.
Prefiro reflexos, recordações,
Disfarces mortiços de camaleão.
Não estou. Nenhuma veia em mim murmura.
Vivo nas sombras, nome não conheço.
Deixem-se ressequir na invernia,
Longe das fortes bátegas do verão.
Os temporais de luz, não os suporto.
Não me olhem. Evitem-me essa dor.
Ó câmara. Imagem do bem-estar.
Quero-me antípoda desta exposição.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
Amor
Um sobre o outro, a sarna e o eczema.
Escamas estalam em nuvens de caspa.
Ela afaga-lhe, terna, o inchado bócio.
Os crânios brilham como um diadema.
Some-se um dedo em sangrento tumor.
Ela baba-se, retorcendo. Um abcesso
Rebenta. O bócio mais azul, ele se anima.
Rola-a sobre as costas. Mostra-se senhor.
Os gastos quadris entram em loucura.
É um rangido aparatoso. Empapam
Muco com pus numa orgia sem fim.
Ela vomita. É o divino em miniatura.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
Escamas estalam em nuvens de caspa.
Ela afaga-lhe, terna, o inchado bócio.
Os crânios brilham como um diadema.
Some-se um dedo em sangrento tumor.
Ela baba-se, retorcendo. Um abcesso
Rebenta. O bócio mais azul, ele se anima.
Rola-a sobre as costas. Mostra-se senhor.
Os gastos quadris entram em loucura.
É um rangido aparatoso. Empapam
Muco com pus numa orgia sem fim.
Ela vomita. É o divino em miniatura.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Tradução de Fernando Venâncio
Mundo em bulício
À cidade deu-lhe para passear.
As lojas dão as mãos em círculos vastos.
Prazenteiro, um casebre meteu-se a butes.
Coxeia o tribunal. O teatro vai de rastos.
Nota-se um unânime remeximento,
Um jordaneio, um ir e vir descomunal
De palácio, de bares, de cinemas.
Nem um imóvel ficou no local.
Rígido, boto figura numa esquina.
Qiosque redondo que um verde chapéu abriga.
Uma igreja saúda, um tribunal se inclina
Ou um banho público em fuga se sustém.
Hoje conto e reconto cada vintém
E estendo-lhes um jornal da minha barriga.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
As lojas dão as mãos em círculos vastos.
Prazenteiro, um casebre meteu-se a butes.
Coxeia o tribunal. O teatro vai de rastos.
Nota-se um unânime remeximento,
Um jordaneio, um ir e vir descomunal
De palácio, de bares, de cinemas.
Nem um imóvel ficou no local.
Rígido, boto figura numa esquina.
Qiosque redondo que um verde chapéu abriga.
Uma igreja saúda, um tribunal se inclina
Ou um banho público em fuga se sustém.
Hoje conto e reconto cada vintém
E estendo-lhes um jornal da minha barriga.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Poema
O primeiro verso é para começar,
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.
O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos de mais um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.
O nono conta o mesmo por inteiro,
O décimo é, se calha, a desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro,
O duodécimo é de nada a conclusão.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
O segundo é o penúltimo do fundo.
O terceiro dá terreno para avançar.
O quarto vai rimar com o segundo.
O quinto prega-nos uma partida.
O sexto abate os custos de mais um terço.
O sétimo é conversa distraída.
O oitavo seriíssimo. Ou o inverso.
O nono conta o mesmo por inteiro,
O décimo é, se calha, a desilusão.
O undécimo é só o décimo primeiro,
O duodécimo é de nada a conclusão.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Voo picado
Tenho um espelho alto no corredor.
Pronto, lá me encaro uma vez mais
E o monstro que vejo em horas tais
Faz-me - está escrito - sempre igual pavor.
É um homem horroroso. Há que abatê-lo,
Esmagado com uma rija martelada.
Não passa de gordura encarquilhada.
Um estranho, é o que é. Eu penso, ai, ai!
Mais um cliché com espelhos que me sai.
É só vidro, vidro morto o que tenho diante-
Mal penso assim, eis que um esqueleto hiante
Surge do espelho e salta-me ao pêlo.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
Pronto, lá me encaro uma vez mais
E o monstro que vejo em horas tais
Faz-me - está escrito - sempre igual pavor.
É um homem horroroso. Há que abatê-lo,
Esmagado com uma rija martelada.
Não passa de gordura encarquilhada.
Um estranho, é o que é. Eu penso, ai, ai!
Mais um cliché com espelhos que me sai.
É só vidro, vidro morto o que tenho diante-
Mal penso assim, eis que um esqueleto hiante
Surge do espelho e salta-me ao pêlo.
Gerrit Komrij
Contrabando - Uma antologia poética
Assírio & Alvim, 2005
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