Mostrar mensagens com a etiqueta nuno higino. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta nuno higino. Mostrar todas as mensagens
Foi já de longe que longamente olhámos
tomando posse duma alegria que foi nossa



Nuno Higino
No Silêncio da Terra
Campo das Letras, 2000
Nas ondas caminhei com pés de arado
ao largo muito ao largo me perdi.
Habitei a luz pura e sem degredo
vi o polvo e a moreia disputando
o necessário acordo de viver
vi as cores dançando sobre os peixes
como dardos na avidez do meu olhar.
Por entre os dedos muito abertos
muito lisos passou não sei que sol
ou que fantasma.



Nuno Higino
No Silêncio da Terra
Campo das Letras, 2000
Ficou do lado de fora do portão semi-aberto,
uma grinalda vermelha até aos pés.
Passaram já todas as estações
uma vez e outra vez e outra vez.
Dois olhos fixos no horizonte
como se o horizonte fosse apenas um ponto.
Sabe que um dia ou uma noite qualquer
novamente moverá os braços
subirão devagar e formarão um círculo;
cada um dos músculos do rosto mover-se-á
e os lábios terão a doçura
das folhas tenras levemente orvalhadas.
É por isso que ficou ali
do lado de fora do portão semi-aberto,
uma grinalda vermelha até aos pés



Nuno Higino
No Silêncio da Terra
Campo das Letras, 2000
Perdeu-se o teu retrato
apagou-se como se apaga
aquilo que se esquece.
Eras jovem, um caule vigoroso
vinhas de longe, chegavas
de um lugar fantástico
- nunca cheguei a saber
qual era esse lugar: se tinha casas
e jardins
se tinha verão, se tinha mar
se era longe ou perto esse lugar.
Um vento raso cobriu de esquecimento
o teu retrato
- era da infância que vinhas?

Nuno Higino
No Silêncio da Terra
Campo das Letras, 2000