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Só na memória do teu rosto

Só na memória do teu rosto, mãe
posso encontrar agora as paredes
da casa onde nasci.
Como se fosse possível voltar
àquele tempo em que a felicidade
residia nas tuas mãos
entretidas a encaracolar os meus cabelos.


Graça Pires
Sem possibilidade de fuga
habito a luz intensa da treva
e guardo, no olhar, a líquida sombra,
que sobrevive na memória dos barcos,
quando a madrugada se rasga,
devagar, na plenitude dos mastros.
Eu não sei a cor dos navios,
quando os marinheiros avistam as dunas
e o cheiro quente da areia arde em suas bocas.
Apenas sei a cor agressiva de meus olhos,
condenados à errância das sombras.


Graça Pires
não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos
Edição de autor, 2007

Por caminhos de sul

Por caminhos de sul, a noite adquire a tonalidade do mar.
Pressinto o hálito das manhãs claras e tenho, no sangue,
um caos incendiado, como se fora terra exposta ao sol
do meio-dia. São horas de reinventar os aromas
que me anunciam um trajecto de espanto.


Procuro a cor da noite nos teus olhos, como quem lambe
a lua, devagar. Depois, digo barco, digo mastro,
digo quilha e somos ilha propícia a navegar.


Graça Pires