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Perseguição

Antigamente os meus inimigos ainda tinham alguma consistência. Mas agora estão a ficar fugidios. Tocam-me no cotovelo (sou incomodado o dia inteiro). São eles. Mas eclipsam-se num repente.
Há três meses que sofro uma derrota contínua: inimigos sem rosto. É uma raiz de inimigos.
Ao fim e ao cabo, já tinham dominado toda a minha infância. Mas... eu tinha imaginado que agora me deixariam em paz.


Henri Michaux
As minhas propriedades
Fenda,1998
Tradução de José Carlos González

Gritar

O panarício produz um sofrimento atroz. Mas o que mais me fazia sofrer era não poder gritar. Pois eu estava num hotel. A noite acabava de descer, e o meu quarto ficava entalado entre outros dois onde pessoas dormiam.
Então, comecei a tirar do crânio grandes tambores, cobres, e um instrumento que ressoava mais que um órgão. E aproveitando a força prodigiosa que a febre me dava, organizei uma orquestra ensurdecedora. Tremia tudo com as vibrações.
Depois, tendo enfim a certeza de que naquele tumulto a minha voz não se ouviria, pus-me a urrar, a urrar horas a fio, e consegui a pouco e pouco aliviar-me.


Henri Michaux
As minhas propriedades
Fenda,1998
Tradução de José Carlos González
O hospital dorme. A queimadura
desperta. O seu corpo, como um parque
abandonado...

*

__Estás deitada numa cama, de onde
o sofrimento sobe até ao céu, até ao
céu sem encontrar adeus... de onde o
sofrimento desce até ao fundo do
inferno, até ao fundo do inferno
sem encontrar o demónio.

*

__Quase não deu pelo caminho. O
primeiro segundo mostrou o abismo.
O seguinte precipitava-a nele.


*


__Do lado de cá ficámos atónitos.
Não tivemos tempo para dizer adeus.
Não tivemos tempo para uma promessa.
__Ela tinha desaparecido do filme
desta terra.

*

__O que está só volta-se para a
parede à noite, para te falar. Ele sabe o
que te animava. Vem partilhar o dia.
Observou com os teus olhos. Ouviu
com os teus ouvidos. Tem sempre
coisas para ti.

*

Quem sabe se neste preciso momento
tu não estás à espera, ansiosa, que eu
enfim compreenda, e que venha, longe
da vida onde já não estás, juntar-me a
ti, pobremente, pobremente, decerto,
sem meios, mas nós dois ainda, nós
dois...


Henri Michaux
Nós dois ainda
Bonecos Rebeldes, 2009
Tradução de Rui Caeiro
Lou
Lou
Lou, no retrovisor de um breve instante
Lou, não me vês?
Lou, o destino de ficarmos juntos para
__sempre
em que tanto acreditavas
Que é dele?
Não vais ser como as outras que nunca
__mais dão sinal, submergidas no
__silêncio.
Não, uma morte não deve chegar para
__apagar o teu amor.
Na horrível espiral
que te afasta até não sei que milésima
__diluição
procuras ainda, procuras um lugar
__para nós.
Mas tenho medo
Não se tomaram precauções bastantes
Devíamos estar mais informados,
Alguém me escreve que és tu, mártir,
__quem vai velar por mim agora.
Oh! Duvido.
Quando toco o teu fluido tão delicado
__que permanece no quarto e os teus
__objectos familiares que aperto nas
__mãos
esse fluído ténue que tanto urge proteger
Oh, duvido, duvido e tenho medo por ti,
impetuosa e frágil, à mercê das catástrofes
Todavia, vou a repartições, à procura
__de certificados
desperdiçando momentos preciosos
que devíamos gastar connosco
__precipitadamente
ao mesmo tempo que tu tremes de frio
aguardando na tua maravilhosa confiança
__que eu venha ajudar a libertar-te,
pensando «Ele vem de certeza
Teve talvez um contratempo, mas não
__deve tardar
Há-de vir, eu conheço-o
Não vai deixar-me sozinha
Não é possível
não vai deixar sozinha, a sua pobre
__Lou...»
Eu não conhecia a minha vida. A
minha vida passava através de ti. Esse
grande problema complicado tornava-se
simples. Apesar da inquietação, tor-
nava-se simples.
__A tua fraqueza, ao apoiar-se em
mim, dava-me força.


Henri Michaux
Nós dois ainda
Bonecos Rebeldes, 2009
Tradução de Rui Caeiro
_Mas talvez a tua pessoa se tenha
transformado numa espécie de ar de
neve, que entra pela janela que torna-
mos a fechar, tomados de arrepios
ou de um mal estar prenúncio de drama,
como me aconteceu há semanas atrás. O frio
concentrou-se-me de súbito nos ombros
cobri-me precipitadamente e afastei-me
quando eras tu talvez e o mais quente
que podias mostrar-te, à espera de
ser bem acolhida; tu, tão lúcida, já
não conseguias exprimir-te de outra
maneira.


Henri Michaux
Nós dois ainda
Bonecos Rebeldes, 2009
Tradução de Rui Caeiro
_Chego a ter saudades dos dias do teu
sofrimento atroz na cama de hospital,
quando através dos corredores nauseabun-
dos atravessados de gemidos me dirigia
para a múmia densa do teu corpo envolto
em ligaduras e de súbito ouvia emergir
como que o «tom» da nossa aliança, a tua
voz, doce, musical, controlada, resistindo
com orgulho à fealdade do desespero,
quando por tua vez ouvias o meu passo,
e murmuravas, tranquilizada: «Ah, estás aí».
_Punha a mão no teu joelho, por cima
do cobertor sujo e tudo desaparecia
então, o mau cheiro, a horrível indecên-
cia do corpo tratado como um barril
ou um esgoto, por estranhos afadigados
e preocupados, tudo ficava para trás,
deixando os nossos dois fluidos, através
das ligaduras, tornarem a encontrar-se,
juntar-se, misturar-se, num aturdimento
do coração, no auge da desgraça, no auge
da doçura.
_As enfermiças, o interno, sorriam;
os teus olhos cheios de fé apagavam os
dos outros.


Henri Michaux
Nós dois ainda
Bonecos Rebeldes, 2009
Tradução de Rui Caeiro
___Árida, a minha vida continua. Mas
não regresso a mim. O meu corpo per-
manece no teu corpo delicioso e dentro
do meu peito há plumas que se agitam
ao vento da distância e me fazem sofrer.
A que já não é, exige, e a sua ausência
absorvente devora-me e invade-me.


Henri Michaux
Nós dois ainda
Bonecos Rebeldes, 2009
Tradução de Rui Caeiro

Maldito

_Dentro de seis meses o mais tardar, ou se calhar amanhã,
estarei cego. É a minha triste, triste vida que continua.
_Os que me puseram no mundo hão-de pagar-mas, dizia
eu comigo antigamente. Até hoje ainda não pagaram. Po-
rém, eu agora tenho de apartar-me dos meus dois olhos. A
sua perda definitiva há-de livrar-me de atrozes sofrimentos,
é tudo o que se pode dizer. Uma manhã terei as pálpebras
cheias de pus. Depois é só o tempo de fazer inutilmente al-
gumas experiências com nitrato de prata, e acaba-se com
eles. Há nove anos, a minha mãe disse-me: «Preferia que
não tivesses nascido».



Henri Michaux
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato
Não se vêem vírgulas entre as casas, o que torna tão difícil a sua leitura e as ruas tão cansativas de percorrer.
A frase nas cidades é interminável. Mas fascina, e os campos são abandonados pelos trabalhadores outrora corajosos que agora querem inteirar-se por si próprios do texto admiravelmente retorcido, de que toda a gente fala, tão difícil de seguir, não raro impossível.
Embora tentem fazê-lo, esses trabalhadores opiniosos, andando sem cessar, lambem à passagem as doenças dos esgotos e a lepra das fachadas, mais do que o sentido que continua oculto. Drogados de miséria e de fadiga, deambulam em frente das montras, desviando-se por vezes do seu intuito, a sua busca nunca… e assim se perdem os nossos bons campos.


Henri Michaux
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato

A estátua e eu

__Nos meus tempos mortos, ensino uma estátua a andar.
Dada a sua imobilidade exageradamente prolongada, não é nada fácil. Nem para ela. Nem para mim. Dou-me conta de que uma grande distância nos separa. Não sou tão imbecil que não me dê conta disso.
__Mas não se pode ter todas as cartas boas no nosso jogo. Ou então, adiante.
__O que interessa é que o seu primeiro passo seja bom. Para ela, tudo reside nesse primeiro passo. Bem sei. Sei disso muito bem. Daí a minha angústia. Por conseguinte, aplico-me. Aplico-me como jamais o fiz.
__Coloco-me junto dela de modo rigorosamente paralelo: o pé, como ela, levantado e rígido tal estaca enterrada na terra.
__Porém nunca é exactamente igual. Ou o pé, ou a curva, ou o porte, ou o estilo, há sempre qualquer coisa que falha e o tão esperado arranque não pode ter lugar.
__É por isso que cheguei a um estado em que eu próprio já quase não consigo andar, tomado de uma rigidez, todavia toda feita de impulso, e o meu corpo fascinado faz-me medo e já não me leva a parte alguma.



Henri Michaux
de Aparattions (1946)
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato

No caminho da morte

No caminho da Morte,
a minha mãe encontrou uma grande massa glaciar:
Ela quis falar,
Já era tarde;
Uma grande massa glaciar de algodão.

Olhou-nos a mim e ao meu irmão,
E depois chorou.

Dissemos-lhe - mentira verdadeiramente absurda - que compreendíamos.
Ela então esboçou um sorriso tão gracioso de rapariga,
Que era realmente ela,
Um sorriso muito bonito quase travesso;
Depois foi apanhada pelo Opaco.



Henri Michaux
de Lointain Intérieur
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato

Voltar

Hesitei em voltar a casa dos meus pais. Como é que eles fazem quando chove? pensei eu. Depois lembrei-me que havia um tecto no meu quarto. "Não importa!" e, desconfiado, não quis voltar.
É em vão que agora me chamam. Assobiam, assobiam na noite. Mas é em vão que utilizam o silêncio da noite parar chegar até mim. É absolutamente em vão.



Henri Michaux
de Entre Centre et Absence
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato


Eu antigamente era muito nervoso. Eis-me num novo caminho.
Meto uma maçã em cima da mesa. Depois meto-me dentro dessa maçã. Que tranquilidade!
Parece simples. No entanto, há já vinte anos que o tentava e não o teria conseguido, em querendo começar por aí. Porquê? Julgar-me-ia talvez humilhado, dado o seu pequeno tamanho e a sua vida opaca e lenta. É possível. Os pensamentos da camada inferior são raramente belos.
Por isso, comecei de outro modo e uni-me ao Escaut.
O Escaut, em Anvers, onde o encontrei, é grande e imponente e gera uma grande corrente. Apanha os navios de alto bordo que se apresentam. É um rio, dos verdadeiros.
Decidi tornar-me um com ele. Permanecia no cais todas as horas do dia. Mas dispersava-me em várias considerações inúteis.
E além disso, sem querer, olhava para as mulheres de tempos a tempos, e isso é coisa que um rio não permite, nem uma maçã, nem nada na natureza.
O Escaut, portanto, e mil sensações. Que fazer? De repente, tendo renunciado a tudo, achei-me... não diria no seu lugar, porque, para falar verdade, nunca se tratou disso. Ele corre incessantemente (aí está uma grande dificuldade) e desliza para a Holanda onde encontrará o mar à altitude zero.
Regresso à maçã. Aí, mais uma vez, houve tentativas, experiências; é uma longa história. Partir não é muito cómodo, e explicá-lo muito menos.
Mas posso dizer-vos numa palavra. Sofrer é a palavra.
Quando cheguei à maçã, estava gelado.



Henri Michaux
de Entre Centre et Absence
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato

Henri Michaux























Henri Michaux, nasceu em Namur, em 24 de maio de 1899.
Poeta francês de origem belga, oriundo de uma família burguesa com juristas, arquitectos e etc . Porém, nunca gostou do seu país, nem da sua gente ou paisagem. Desde cedo sentiu a realidade como algo distante e envergonhava-se de tudo o que o rodeava.
Então escrevia, nesse tempo já vivia no mundo como estrangeiro, pensando até em tornar-se monge. Em 1920, abandonou os estudos de medicina para realizar uma longa odisseia como marinheiro, saindo de Boulogne-sur-Mer. Nesse mesmo ano, em Roterdão, repete a experiência rumo a Buenos Aires e ao Rio de Janeiro. Aos 23 anos, descobre a literatura com o sobressalto que lhe provoca a leitura d´ Os Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror, 1868), do uruguaio Lautréamont (1846-1870). A sua futura criação teria uma aura misteriosa, subterrânea, e simbolicamente obscura tal como a obra de Lautréamont.
De volta a Paris, em 1923, estuda literatura e volta a viajar até 1937 pela Ásia, África do Norte e América do Sul, revelando uma tomada de consciência em relação ao mundo e às coisas. A razão principal pela qual viaja é para expulsar do seu interior “a sua pátria, os seus vínculos de qualquer classe”. Fugindo das terras estrangeiras, enviava poemas que definiu num dos seus livros como “cápsulas de observar”. Escreveu o seu primeiro livro, Qui je Fus (1927), que o revela como escritor original; publicando seguidamente o autobiográfico Ecuador (1929), relato de uma viagem, e Une Barbare em Asie (1933), traduzido para o espanhol por Jorge-Luis Borges, que conheceu Michaux e considerou o texto “um jogo”. A seguir veio Voyage en Grande Garabagne (1936), Plume (1938) e Lointain Intérieur (1938). Visitando Montevidéu, Uruguai, em 1936, apaixonou-se pela poeta Susana Soca, que morreu jovem e era conhecida por uma legendária beleza. Anos depois, em 1943, casaria com uma mulher divorciada e tuberculosa, Marie-Louise Termet.

Michaux, odiava as artes plásticas, todavia em 1924, depois de fixar residência em Paris e ao conhecer a obra de Paul Klee, De Chirico, Max Jacob e outros surrealistas, muda de opinião. Fascinado principalmente pela criação do suíço Klee, decidiu procurar uma forma de expressão visual. Em 1937 começou a desenhar e a pintar, expondo em galerias e indo ao encontro das mesma ideias da sua literatura: uma viagem através de si mesmo. A sua técnica ágil prefere a aquarela e a tempera ao óleo, fundindo formas gráficas que lhe permitem criar um universo poético e ímpar. Não se pode definir o seu trabalho pictórico como ilustração, riscos, ideogramas ou alfabeto. Diria antes algo de inacabado e inacessível; tal como a sua literatura, outra forma mas com igual destino: o de explorar o mundo interior. Há uma espécie de tremor que habita nas suas manchas, um despojamento entre fragilidade e sobriedade. São como curtos-circuitos, caligrafia nervosa que avança e retrocede, impulsos que buscam inutilmente uma saída. “Eu queria desenhar a consciência de existir e o fluir do tempo”, confessou.

Foi colaborador assíduo da importante Sur, uma revista literária argentina que difundiu a arte inovadora, além de divulgar as actividades da Resistência francesa. Tornou-se conhecido em França a partir dos anos 40, quando André Gide escreveu um texto sobre ele. Com a trágica morte de sua esposa, falecida em consequência das graves queimaduras de um incêndio acidental em 1948, escreve em sete páginas o emocionante poema Noux Deux, Encore, depois recolhido pelo próprio autor e transformado numa obra clandestina, maldita. Cansado, levou o seu quotidiano em viagem, interrogou-se em Passages (1937-1950) : “Para quê viajar quando uma rima faz nivelar uma montanha, quando um adjectivo povoa um país, quando uma assonância faz oscilar a Terra inteira?”.

Descobriu os alucinogénios em 1956, sob controlo médico experimentou ópio, ácidos e mescalina, o principal alcalóide do peyote, produzindo através delas várias obras pictóricas e textos experimentais, vibrantes e minuciosos: L’Infini Turbulent (1957), Paix dans les Brisementes (1959), Connaissance par les Gouffres (1961) e Les Grandes Épreuves de l’Esprit (1969), Misérable Miracle (1972). Como Baudelaire, Quincey, Artaud, Cocteau, Huxley, Castañeda, Burroughs e tantos outros, buscou nas drogas a sensibilidade que habita fora dos limites da mente humana, descrevendo minuciosamente as suas sensações, pensamentos e movimentos que sentiu nas suas experiências. Carlos Castañeda, celebrizou o famoso cactos ao contar as suas experiências com Don Juan, que dizia que a mescalina ensinava a “maneira mais correcta de viver”. Artaud acreditava que com o peyote sabemos até “onde chegará o seu ser e até onde ainda não conseguiu chegar”. A droga na obra destes autores desvenda o real invisível como o verdadeiro real. Pelo peyote, os índios huichol libertavam-se dos seus pensamentos, dos seus atos (bons ou maus), desnudando-se de todo o seu eu para alcançar a liberdade pura do pensar. Ao achar concluídas as suas experiências, Michaux deixou as drogas por achar que “não estava feito para a dependência”.

A literatura híbrida de Michaux é pura entrega, êxtase, estertor interior. Tudo para dizer simplesmente que a vida está onde queremos, assim como no erro e na dúvida de cada entrega. Um jogo permanente entre a presença e a ausência, a ascensão e a queda, o circunstancial e o eu. Clássico das vanguardas, a sua obra é das mais originais do século XX. Este estranho poeta dizia que a poesia não é o verso, que está em toda a parte, e que o poema matava a poesia. Sem pertencer a qualquer escola literária, os seus inesperados textos usaram o simbolismo, o dadaísmo, o surrealismo, o existencialismo, o absurdo e fantasias irónicas e oníricas. Nem todos os lugares e povos que retratava nos seus livros são reais, muitos surgiram da sua imaginação com a precisão de um antropólogo, como os seres de Au Pays de la Magie (1941). Nele contou os costumes, os rituais e festas, o que pensam e como vivem os magos, os omobules, os ecoravetias, os nonais, os oliabares, os hivinizkis, os hacs, os emanglones e os meidosems (só para citar alguns). Com um certo humor negro, o poeta satiriza à maneira de Jonathan Swift a realidade da sociedade em que viveu. Uma veia fantástica poderosa, concentrando universos em pequenos fragmentos, imitando a realidade a partir de um mundo paralelo.
Reservado, esquivo, discreto, tranquilo e elegante, com vida social nula e poucos conhecidos, o poeta não dava entrevistas nem permitia ser fotografado, e a sua biografia, sem muitos dados concretos, só pôde ser feita através da sua correspondência privada. Nunca se considerou um literato e recusou receber o Grande Prémio Nacional de Letras, em 1965. Acreditava que a maioria das pessoas representava um papel, e que, geralmente, ele conseguia muito rapidamente arrancar essa máscara, provocando um desinteresse por elas. Franzino, de saúde frágil, naturalizou-se francês em 1955, e foi um homem sem limites geográficos, mentais ou linguísticos. Um extraordinário caso de um escritor indefinido. A sua literatura combina narração, prosa, descrição etnológica, poesia nada lírica e um certo humor surreal. Os seus textos são resultados de anotações, diários, cadernos, notas de viagem, descobrimentos, em que introduz a sua impressão pessoal, muitas vezes abstracta e simbólica. Um explorador de uma nova visão do mundo e dos seus seres. Morreu em Paris em 1984, sempre apoiado num certo desespero.



Principais obras:

Qui je Fus (1927)
Ecuador (1929)
Une Barbare en Asie (1933)
Voyage en Grande Carabagne (1936)
Plume / Lointain Intérieur (1938)
Au Pays de la Magie (1941)
Arbres des Tropiques (1942)
L’Éspace du Dedans – Pages Choisies (1944)
Épreuves, Exorcismes (1940-1944)
Ailleurs (1948)
Noux Deux, Encore (1948)
La Vie dans les Plis (1949)
Passages (1937-1950)
Mouvements (1951)
Face aux Verrous (1954)
L’Infinit Turbulent (1957)
Paix dans les Brisements (1959)
Connaissance par les Gouffres (1961)
Vents et Poussières (1962)
Les Grandes Épreuves de l’Esprit et les Innombrables Petites (1969)
Façons d’Endormi, Façons d’Éveillé (1969)
Misérable Miracle (1972)
Émergences, Résurgences (1972)
Moments,Traversées du Temps (1973)
Face à ce qui se Dérobe (1976)
Choix de Poèmes (1976)
Poteaux d’Angle (1981)
Chemins Cherchés, Chemins Perdus, Transgressions (1982)

Plume no restaurante

Estava Plume a almoçar no restaurante, quando o chefe-de-mesa se aproximou, olhou-o severamente e disse-lhe com uma voz baixa e misteriosa.
- O que o senhor tem aí no prato não vem na ementa.
Plume desculpou-se imediatamente.
- É que, como estava com pressa, não me dei ao trabalho de consultar a ementa. Pedi uma costeleta completamente ao acaso, pensando que talvez houvesse, ou que senão se havia de encontrar qualquer coisa parecida, mas preparado para pedir outra coisa se não houvesse costeletas. O empregado de mesa, sem se mostrar particularmente espantado, afastou-se e trouxe-ma um pouco depois e aí está...
Naturalmente, pagarei por ela o que for preciso. É um bom pedaço, não nego. Pago o seu preço sem hesitar. Se soubesse, teria de bom grado escolhido uma outra carne ou simplesmente um ovo, e de qualquer forma agora já não tenho muita fome. Vou já acertar as contas consigo.
Contudo, o chefe-de-mesa não se mexe. Plume fica extremamente inquieto. Passado algum tempo, levanta os olhos... hum! É agora o dono do estabelecimento que se encontra à sua frente.
Plume desculpou-se imediatamente.
- Eu não sabia - diz - que as costeletas não vinham na ementa. Não a consultei, porque vejo muito mal e não tenho aqui a minha luneta, e além disso, a leitura faz-me um mal terrível. Pedi a primeira coisa que me veio à ideia, e mais na esperança que me sugerissem outra coisa do que por gosto pessoal. O empregado de mesa, muito solícito sem dúvida, não foi mais longe, trouxe-me isto, e eu, de resto completamente distraído, comecei a comer, enfim.... vou pagar-lhe a si mesmo já que aqui está.
Contudo, o dono do estabelecimento não se mexe. Plume sente-se cada vez mais inquieto. Quando lhe estende uma nota, vê de repente a manga de um uniforme; tinha um polícia diante de si.
Plume desculpou-se imediatamente.
- Ora, ele entrou para descansar um bocado. De repente, gritaram-lhe à queima roupa: «E para o senhor?Vai ser...? - «Oh... uma imperial», diz ele. «E depois?...» gritou o empregado, aborrecido; então, mais para se desembaraçar do que por outra coisa: «Pois bem, uma costeleta!».
Já nem sequer se lembrava dela quando lha trouxeram num prato; mas uma vez que a tinha à sua frente, palavra que...
- Ouça, o senhor seria muito gentil se quisesse fazer qualquer coisa para arrumar este assunto. Aqui tem.
E estende-lhe uma nota de cem francos. Ouvindo passos afastando-se, já se considerava livre. Mas é então que o comissário da polícia se planta à sua frente.
Plume desculpou-se imediatamente.
- Ele tinha marcado um encontro com um amigo. Procurara-o em vão durante toda a manhã. Então, como sabia que o amigo passava por esta rua ao voltar do escritório, entrou aqui, sentou-se a uma mesa ao pé da janela e como, por outro lado, a espera podia ser longa e ele não queria ter ar de se furtar às despesas, pediu uma costeleta. Para ter qualquer coisa à sua frente. Nem por um momento lhe passou pela cabeça consumi-la. Mas, tendo-a à sua frente, maquinalmente, sem se aperceber minimamente do que fazia, pôs-se a comer.
É preciso que se saiba que por nada deste mundo ele viria a um restaurante. Ele só almoça em sua casa. É um princípio que ele tem. Trata-se neste caso de uma pura distracção, como pode acontecer a qualquer pessoa enervada, uma inconsciência passageira, nada mais.
Mas o comissário, depois de ter telefonado ao chefe de segurança, voltou-se para Plume, estendendo-lhe o telefone:
- Vá lá, explique-se de uma vez por todas. É a sua única hipótese de salvação.
E um agente, empurrando-o, brutalmente, disse-lhe:
- Vamos ver se agora nos portamos bem, hã?
E, quando começaram a entrar os bombeiros no restaurante, o dono do restaurante exclamou:
- Veja o prejuízo que isto é para o meu estabelecimento. Uma verdadeira catástrofe!
E apontava para a sala que todos os clientes tinham abandonado à pressa.
Os da Secreta, diziam-lhe:
- As coisas vão aquecer, estamos a avisá-lo. É melhor confessar toda a verdade. Este não é o nosso primeiro trabalho, pode crer. Quando se chega a este ponto é porque o assunto é grave.
Entretanto, um grande labrego de um agente, dizia-lhe por cima do ombro:
- Ouça, não posso fazer nada. São ordens. Se o senhor não fala ao telefone, dou-lhe um enxerto, percebe? Confesse. Está avisado. Se não o ouvir falar, dou-lhe um enxerto de porrada.



Henri Michaux
de Un Certain Plume
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato


O carrasco

Dada a fragilidade do meu braço nunca consegui ser carrasco. Nunca teria cortado um pescoço como deve ser, de maneira nenhuma. Nas minhas mãos, a arma letal deter-se-ia não apenas no obstáculo imperial do osso, mas também nos músculos da região do pescoço desses homens, tensos pelo esforço, pela resistência.
Porém, um dia, apresentou-se para morrer um condenado com um pescoço tão branco, tão frágil, que eles se recordaram da minha candidatura ao posto de carrasco, conduziram o condenado até à minha porta, e ofereceram-no para o matar.
Como o seu pescoço era esguio e delicado, poderia ter sido cortado como uma fatia de pão. Apercebi-me disso imediatamente, era verdadeiramente tentador. Contudo, recusei educadamente, sem esquecer de lhes agradecer vivamente.
Quase imediatamente depois, lamentei a minha recusa; mas era demasiado tarde, já o carrasco de serviço lhe estava a cortar a cabeça. Cortou-a naturalmente, como a qualquer cabeça, seguindo o costume que ele tinha com as cabeças, desinteressado, sem sequer ver a diferença.
Então, lamentei, tive pena, e censurei-me por ter recusado assim tão depressa, nervosamente e quase sem me dar conta.



Henri Michaux
de Entre Centre et Absence
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato


A metralhadora de bofetadas

Foi em família, como seria de esperar, que realizei a metralhadora de bofetadas. Realizei-a sem a ter premeditado. De repente, a minha cólera projectou-se para fora da minha mão, como uma luva de vento que tivesse saído dela, como duas, três, quatro, dez luvas, luvas de eflúvios que, espasmodicamente, e a uma velocidade incrível, se precipitaram das minhas extremidades manuais, lançando-se para o alvo, para a cabeça odiosa que atingiram sem demora.
Aquele espasmo repetido na mão era espantoso. Já não era, em verdade, uma bofetada, nem duas. Tenho uma natureza reservada e só me exalto no precipício da raiva.
Verdadeira ejaculação de bofetadas, ejaculação em cascata e aos sobressaltos, a minha mão permanecia rigorosamente imóvel.
Nesse dia, toquei a magia.
Um ser sensível teria visto ali qualquer coisa. Aquela espécie de sombra eléctrica brotando espasmodicamente da extremidade de minha mão, congregada e reformando-se num instante.
Para ser completamente franco, a prima que me tinha irritado acabava de abrir a porta e de sair quando, apercebendo-me bruscamente da vergonha da ofensa, respondi ao retardador com um voo de bofetadas que se escaparam realmente da minha mão.
Tinha descoberto a metralhadora de bofetadas, se assim o posso dizer, mas é o termo mais adequado.
Depois nunca mais pude ver aquela pretensiosa sem que, da minha mão, as bofetadas se lançassem como vespas ao seu encontro.
Esta descoberta compensou-me pelas odiosas palavras que me humilharam. É por isso que às vezes recomendo a tolerância no seio da família.



Henri Michaux
de Liberté d´Action
Antologia
Relógio d’Água, 1999
Tradução de Margarida Vale de Gato



Poder da Vontade

No princípio do ano contraí uma blenorragia. No fim de Setembro ela mantinha-se, pois sou de temperamento linfático. Continuava a existir, com um futuro de sinistras complicações.
Então, certo dia, num impulso irresistível, pus-me a recriar a mulher com quem tinha contraído a blenorragia. Recriei-a desde o início do nosso primeiro encontro, com os momentos mais insignificantes das nossas conversas, e passando por todas as fases da paixão mais sincera, levei-a até ao momento em que ia dar-se a união dos corpos, e então, nesse preciso momento, bati-lhe com o meu sapato, expulsei-a inexoravelmente da cama, abri a porta e pu-la lá fora.
Como a verdade histórica tem uma tendência natural para se reconstruir, essa mulher renascia a pouco e pouco com tudo o que era necessário para que a cena se desenrolasse normalmente. Mas eu expulsava-a regularmente. Lutei assim durante quinze dias. Ao décimo sexto, vendo que tudo era inútil, e cansada de todas aquelas vergonhas, ela foi-se embora antes de eu lhe bater.
Nessa mesma noite, fiquei curado. O pus deixara de correr, e não houve qualquer recaída.



Henri Michaux
As Minhas Propriedades
Fenda, 1998
tradução de José Carlos González
Cega, através da longa barragem de
sofrimento, durante um mês ela torna a
subir, nadando com um esforço atroz, o
rio da vida.
Paciente, volta a traçar as formas ele-
gantes no inominável inchaço, tece de novo
a camisa da sua pele fina. Está próxima a
cura. Tira amanhã o último penso. Amanhã...


Henri Michaux
Nós dois ainda
Bonecos Rebeldes, 2009
Tradução de Rui Caeiro

A preguiça

A alma adora nadar.
Para nadar deitamo-nos de barriga. A alma desencaixa-se, e lá vai. Lá vai a nadar. (Se a sua alma partir quando você estiver de pé, ou sentado, ou de joelhos dobrados, ou de cotovelos dobrados, em cada posição diferente do corpo a alma partirá num andamento e numa forma diferentes; explicarei isso mais tarde).
Fala-se muita vez em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.
Uma data de pessoas têm, assim, uma alma que adora nadar. Chamam-lhes vulgarmente preguiçosas. Quando a alma sai do corpo pela barriga, para nadar, opera-se uma tal libertação de não sei quê, um abandono, um prazer, uma descontracção tão íntima.
A alma vai nadar para o vão da escada, ou para a rua consoante a timidez ou a audácia do homem, pois mantém sempre um fio entre ele e ela, e se esse fio se rompesse (às vezes é muito frágil, mas seria precisa uma força terrível para romper o fio), seria um desastre para ambos (para ela e para ele).
Quando, portanto, se encontra ocupada a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes duma espécie de matéria espiritual, uma espécie de lama, assim como o mercúrio, ou como um gás — prazer sem fim.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É por isso também que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois, quem há mais egoísta do que a preguiça?
Ela tem bases que o orgulho não tem.
Mas as pessoas encarniçam-se contra os preguiçosos.
Quando estão deitados, batem-lhes, despejam-lhes água fria na cabeça, e eles devem puxar rapidamente pela alma. Olham-nos então com aquele olhar de ódio, que bem conhecemos, e se observa sobretudo nas crianças.



Henri Michaux
As Minhas Propriedades
Fenda, 1998
tradução de José Carlos González