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Ne me quitte pas

Ne me quitte pas,
il faut oublier
Tout peut s’oublier
qui s’enfuit déjà
Oublier le temps
des malentendus
Et le temps perdu
à savoir comment
Oublier ces heures qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
le coeur du bonheur
Ne me quitte pas,
ne me quitte pas,
ne me quitte pas

Moi, je t’offrirai
des perles de pluie
Venues de pays
où il ne pleut pas
Je creuserai la terre,
jusqu’ après ma mort
Pour couvrir ton corps
d’or et de lumière
Je ferai un domaine
où l’amour sera roi
Où l’amour sera loi,
où tu seras reine
Ne me quitte pas,
ne me quitte pas,
ne me quitte pas

Ne me quitte pas,
je t’inventerai
Des mots insensés
que tu comprendras
Je te parlerai de ces amants là
Qui ont vu deux fois
leurs coeurs s’embraser
Je te raconterai l’histoire de ce roi
Mort de n’avoir pas
pu te rencontrer
Ne me quitte pas,
ne me quitte pas,
ne me quitte pas

On a vu souvent rejaillir le feu
De l’ancien volcan
qu’on croyait trop vieux
Il est parait-il
des terres brûlées
Donnant plus de blé
qu’un meilleur avril
Et quand vient le soir
pour qu’un ciel flamboie
Le rouge et le noir
ne s’épousent-ils pas?
Ne me quitte pas,
ne me quitte pas,
ne me quitte pas

Ne me quitte pas
je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler,
je me cacherai là
A te regarder danser et sourire
Et à t’écouter
chanter et puis rire
Laisse-moi
devenir l’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main,
l’ombre de ton chien
Ne me quitte pas,
ne me quitte pas,
ne me quitte pas.



Jacques Brell
Antologia Poética
Assírio & Alvim, 1987

Disseram-me Brel-gica. Disseram-me Brel alegre, Brel triste, Brel louco, Brel doente.

Disseram-me das suas noites em claro a contar histórias sem fim, das suas canecas de cerveja que cobriam mesas, da suas tournées por estradas cobertas de gelo, sempre sozinho ao volante a percorrer as Ardenas, como aposta, como teimosia e na insistência ao mergulhar dez ou onze vezes, de fato e gravata, nas águas geladas do Zoute, às cinco da manhã de um dia para liquidar Frantz.

Disseram-me que Brel era um homem da noite e homem do dia, que era famélico e de paladar requintado, que todas as manhãs sofria ao espelho e se tornava belo sob a luz violenta dos projectores do Olympia.

Disseram-me que ele sabia pilotar Boeings, até mesmo os 747, e que vomitava sempre antes de entrar no palco. Sempre, sem excepção.

Disseram-me que as suas paisagens eram feitas das águas cinzentas e moribundas do Inverno, mas que necessitava de sol, dos trópicos, das tórridas ilhas Marquesas para viver, para respirar.

Disseram-me que ele não gostava muito das mulheres, mas que para elas tinha descoberto pérolas de chuva vindas de países onde nunca chove.

Disseram-me que cedo tinha cortado relações com a família e que os primeiros dinheiros que ganhou serviram para comprar uma máquina americana para a fábrica do pai.

Disseram-me que era um mão-rotas, mas que a sua mulher geria em seu nome os bens, os seus poemas, os seus tesouros.

Eu só conhecia o eremita selvagem, inimigo da imprensa, sem concessóes, e falaram-me de noites de farra em que ele foi o animador.
Esse misantropo, esse marginal forte, puro e duro pagou do seu bolso três curas de desintoxicação a um judeu louco que encontrou por acaso e que, um belo dia lhe pediu dinheiro.
Era o blasfemo, o excomungado, que foi amigo toda a vida de um padre a sério, que ele visitava a cada regresso.

Disseram-me que era feio, desajeitado de corpo e, no entanto, mulheres muito belas o quiseram, o perseguiram, o conquistaram.

Quando partiu para viver longe de todios, a trinta e cinco horas de voo da Europa, a oito dias de viagem de Paris (contando as esperas), Brel escrevia num postal endereçado ao seu amigo de infância Frantz: "Até já".

Disseram-me que ele tinha passado noites inteiras numa salinha das traseiras de um cabaret à espera de poder rever alguns amigos, ele, o puro-sangue impaciente perante os minutos, os dias, o tempo, sempre apressado, sempre demasiado apressado.

Falaram-me de um homem com uma tão grande pressa de viver e de outro, o mesmo, que sabia esperar anos e anos para ser oportuno.

Disseram-me que a sua vida eram só vitórias, que o sucesso lhe sorria em todas as suas iniciativas, ele que só contava o insucesso, o desespero apreendido de cor, ou desaprendido, o desespero, que volta sempre. Foram vitórias, sem dúvida.
Excepto Le Far West. E também me falaram de Le Far West .

Disseram-me que o cancro começou no fim das filmagens. Que ele sabia. Que ele se estava nas tintas, dado que ainda havia submarinos que ele não conhecia, e vinte mil léguas submarinas e montes de estrelas na Via Láctea e coragem, Brel, coragem e quantas coisas mais?

Tanto me disseram, o Frantz, o Pierre, o Jacques, o Edouard, o Henri, a Zozo, o Janou, tanto, que a certa altura eu perguntei a mim mesmo como é que era Jacques Brel. Mas o personagem que eles não desvendavam não o conseguia eu fixar, como num sonho triste em que uma cara se aproxima e se transforma em porcelana. E, um dia, mesmo antes da minha partida, um amigo dele mostrou-me um filme que tinha uma antiga entrevista de Brel. Três horas de entrevista, em que ele fala da sua vida, das pessoas e das coisas que ama.

E, a um dado momento, em resposta a uma pergunta relativa à sua profissão, Brel diz muito depressa uma frase, e foi essa a única que me ficou na memória, talvez po causa da veemência com que ele disse: "É preciso enganarmo-nos, é preciso ser imprudente, é preciso ser louco. De outro modo não passamos de diminuídos."
Joanne Esner


Jacques Brel
Antologia Poética
Assírio & Alvim, 1987