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A fé que cura

Lentamente as mulheres desfilam até onde ele
permanece
Vertical em óculos sem aros, cabelo de prata,
Fato escuro, colarinho branco. Assistentes
incansavelmente
Persuadem-nas a seguir em frente para a sua voz e
para as suas mãos,
Dentro de cuja morna chuva primaveril de dedicado zelo
Cada uma se demora uns vinte segundos. Então, minha
filha,
Qual é o mal, a profunda voz americana pergunta,
E, quase sem fazer pausa, entra numa reza
Dando instruções a Deus sobre este olho, aquele joelho.
As suas cabeças são unidas abruptamente; depois,
exiladas
Como pensamentos perdedores, partem em silêncio;
algumas
Acanhadamente transviam-se, não regressando às suas
vidas
Logo; mas outras ficam tensas, espasmo e clamor
De profundas lágrimas roucas, como se uma espécie de
criança
Muda e idiota dentro delas ainda sobrevivesse
Para reacordar na bondade, pensando que uma voz
Finalmente chama só por elas, que mãos vieram
Para elevar e iluminar; e tal alegria chega
Que as suas línguas abafadas secam, os seus olhos
espremem a dor, uma
multidão
De imensas respostas não ouvidas comprime-se e
rejubila –
Qual é o mal! Engalanadas em floridas túnicas
estremecem:
Por agora, tudo está mal. Em cada uma dorme
Um sentido de vida de acordo com o amor.
Para algumas significa a diferença que faria
Amarem outros, mas atravessando a maioria circula
Como tudo o que teriam feito se tivessem sido amadas.
Aquela nada cura. Uma intensa dor abrandando,
Como quando, derretendo, a rígida paisagem chora,
Expande-se lentamente atravessando-as – isso, e a voz
no alto
Dizendo Minha filha e tudo o que o tempo provou em
contrário.


Philip Larkin 
in Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro
Assírio & Alvim, 2001
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Seja assim o poema

Fodem-te a vida, o papá e a mamã,
Mesmo que não seja essa a intenção.
Deixam-te todos os vícios que tenham
E mais dois ou três, por especial atenção.

Mas no tempo deles também foram fodidos
Por tolos trajando jaquetão e coco,
Que quando não estavam piegas ou hirtos
Saltavam, raivosos, à veia, ao pescoço.

E assim é legada a infelicidade,
Vai mais e mais fundo, como o fundo do mar.
Foge mal tenhas oportunidade
E quanto a teres filhos – isso nem pensar



Philip Larkin
Janelas Altas
Livros Cotovia, 2004
Tradução de Rui Carvalho Homem

Janelas Altas

Quando vejo um casal de miúdos
E percebo que ele a anda a foder e ela
Usa um diafragma ou toma a pílula
Sei que isto é o paraíso

Com que os velhos sonharam toda a vida –
Compromissos e gestos postos de lado
Que nem debulhadora fora de moda,
E toda a gente nova a descer pelo escorrega,

Interminavelmente, para a felicidade. Será
Que alguém olhou para mim há quarenta anos,
E pensou: Isso é que vai ser boa vida,
Nada de Deus ou de suores nocturnos,

Ou medo do inferno, ou ter de esconder
Do padre aquilo em que se pensa. Ele
E a malta dele, c’um raio, hão-de ir todos pelo escorrega
Abaixo, livres que nem pássaros? E de imediato

Em vez de palavras, vêm-me à ideia janelas altas:
O vidro que acolhe o sol, e mais além
O ar azul e profundo, que não revela
Nada e está em lado nenhum e não tem fim.



Philip Larkin
Janelas Altas
Livros Cotovia, 2004
Tradução de Rui Carvalho Homem

story

Tired of a landscape known too well when young:
The deliberate shallow hills, the boring birds
Flying past rocks; tired of remembering
The village children and their naughty words,
He abandoned his small holding and went South,
Recognised at once his wished-for lie
In the inhabitants' attractive mouth,
The church beside the marsh, the hot blue sky.

Settled. And in this mirage lived his dreams,
The friendly bully, saint, or lovely chum
According to his moods. Yet he at times
Would think about his village, and would wonder
If the children and the rocks were still the same.

But he forgot all this as he grew older.



Philip Larkin

money

Quarterly, is it, money reproaches me:
'Why do you let me lie here wastefully?
I am all you never had of goods and sex,
You could get them still by writing a few cheques.'

So I look at others, what they do with theirs:
They certainly don't keep it upstairs.
By now they've a second house and car and wife:
Clearly money has something to do with life

- In fact, they've a lot in common, if you enquire:
You can't put off being young until you retire,
And however you bank your screw, the money you save
Won't in the end buy you more than a shave.

I listen to money singing. It's like looking down
From long French windows at a provincial town,
The slums, the canal, the churches ornate and mad
In the evening sun. It is intensely sad.



Philip Larkin

Conversar na cama

Conversar na cama devia ser mais fácil.
Ficar deitado ao lado de outro é tão antigo,
Um símbolo de duas pessoas sendo honestas.

Mas cada vez mais tempo passa em silêncio.
Lá fora a agitação incompleta do vento
Constrói e dispersa nuvens por cima do céu.

E cidades sombrias amontoam-se no horizonte.
Ninguém se importa connosco. Nada mostra porque
A esta distância única do isolamento,

Se torna ainda mais difícil encontrar
Palavras ao mesmo tempo reais e simpáticas,
Ou não irreais e não antipáticas.



Philip Larkin

Qual é a minha ou a tua língua?
Cem poemas de amor de outras línguas
Assírio e Alvim
Organização de Jorge Sousa Braga