Afundas-te às vezes, cais
no teu fosso de silêncio,
em teu abismo de cólera orgulhosa
e só a custo consegues
regressar, mas ainda com vestígios
do que achaste
nas profundezas da tua existência.
Meu amor, o que encontras
no teu poço fechado?
Algas, lama, rochas?
Que vês de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Vida minha, no poço
onde cais não acharás
o que no alto guardo para ti:
um ramo de jasmins orvalhados,
um beijo mais fundo que o teu abismo.
(…)
Pablo Neruda
(Trad. Albano Martins)
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Poema 20
Podia escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Podia escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e ela por vezes também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, às vezes eu também a amava.
Como não amar seus grandes olhos fixos.
Podia escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa ainda sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto cai o orvalho.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.
É isso apenas. Alguém canta ao longe. Ao longe.
Minha alma não se conforma com tê-la perdido.
Como se quisessse tocar-lhe meu olhar a busca.
Meu coração a busca e ela não está comigo.
A mesma noite branqueia as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Eu não a amo, é certo, mas quanto a amei.
Minha voz buscava o vento pra tocar ao seu ouvido.
De outro. Há-de ser de outro. Como dantes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Eu não a amo, é certo, mas amo-a talvez.
É tão curto o amor, tão longo o olvido.
Porque em noites como esta a tive em meus braços,
Minha alma não se conforma com tê-la perdido.
Embora esta seja a dor última que ela me causa
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo.
Pablo Neruda
Veinte poemas de amor y una canción desesperada
(1924)
Tradução A.M.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Podia escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e ela por vezes também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, às vezes eu também a amava.
Como não amar seus grandes olhos fixos.
Podia escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa ainda sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto cai o orvalho.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.
É isso apenas. Alguém canta ao longe. Ao longe.
Minha alma não se conforma com tê-la perdido.
Como se quisessse tocar-lhe meu olhar a busca.
Meu coração a busca e ela não está comigo.
A mesma noite branqueia as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Eu não a amo, é certo, mas quanto a amei.
Minha voz buscava o vento pra tocar ao seu ouvido.
De outro. Há-de ser de outro. Como dantes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Eu não a amo, é certo, mas amo-a talvez.
É tão curto o amor, tão longo o olvido.
Porque em noites como esta a tive em meus braços,
Minha alma não se conforma com tê-la perdido.
Embora esta seja a dor última que ela me causa
e estes sejam os últimos versos que eu lhe escrevo.
Pablo Neruda
Veinte poemas de amor y una canción desesperada
(1924)
Tradução A.M.
VI
E porque o Amor combate
não apenas em sua ardente agricultura,
mas na boca de homens e mulheres,
terminarei enfrentando
os que entre meu peito e a tua fragrância
quiserem interpor a sua planta escura.
De mim nada pior
te dirão, meu amor,
do que eu já te disse.
Vivi nas pradarias
antes de te conhecer
e não esperei pelo amor: mantive-me
à espreita e saltei sobre a rosa.
Que mais podem dizer-te?
Não sou bom nem mau, apenas um homem.
Acrescentarão então o perigo
da minha vida, que tu conheces
e com tua paixão partilhaste.
Pois bem, esse perigo
é perigo de amor, de amor completo
para toda a vida,
para todas as vidas,
e se esse amor nos trouxer
a morte ou as prisões,
estou seguro de que os teus grandes olhos,
como quando os beijo,
se hão de fechar então com orgulho,
com duplo orgulho, amor,
o teu orgulho e o meu.
Aos meus ouvidos, porém, virão antes
escavar a torre
do doce e forte amor que nos liga,
e dir-me-ão: - "Aquela
que tu amas
não é mulher para ti,
porque lhe queres? Julgo
que podias encontrar outra mais bela,
mais séria, mais profunda,
mais outra, tu percebes. Olha como se mexe
e a cabeça que tem,
repara como se veste,
etcétera, etcétera".
E eu digo nestas linhas:
é assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada.
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite
explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegaste à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
dum amor verdadeiro.
não apenas em sua ardente agricultura,
mas na boca de homens e mulheres,
terminarei enfrentando
os que entre meu peito e a tua fragrância
quiserem interpor a sua planta escura.
De mim nada pior
te dirão, meu amor,
do que eu já te disse.
Vivi nas pradarias
antes de te conhecer
e não esperei pelo amor: mantive-me
à espreita e saltei sobre a rosa.
Que mais podem dizer-te?
Não sou bom nem mau, apenas um homem.
Acrescentarão então o perigo
da minha vida, que tu conheces
e com tua paixão partilhaste.
Pois bem, esse perigo
é perigo de amor, de amor completo
para toda a vida,
para todas as vidas,
e se esse amor nos trouxer
a morte ou as prisões,
estou seguro de que os teus grandes olhos,
como quando os beijo,
se hão de fechar então com orgulho,
com duplo orgulho, amor,
o teu orgulho e o meu.
Aos meus ouvidos, porém, virão antes
escavar a torre
do doce e forte amor que nos liga,
e dir-me-ão: - "Aquela
que tu amas
não é mulher para ti,
porque lhe queres? Julgo
que podias encontrar outra mais bela,
mais séria, mais profunda,
mais outra, tu percebes. Olha como se mexe
e a cabeça que tem,
repara como se veste,
etcétera, etcétera".
E eu digo nestas linhas:
é assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada.
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite
explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegaste à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
dum amor verdadeiro.
Pablo Neruda
Os Versos do Capitão
Campo da Poesia, 1996
Tradução de Albano Martins
Para que me oiças
Para que me oiças
minhas palavras adelgaçam-se às vezes
como o rasto das gaivotas na praia.
Colar, ébrio cascavel
para tuas mãos suaves como uvas.
E miro-as, longínquas, minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
E trepam pela minha dor como a hera.
Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
És tu a culpada desta brincadeira sangrenta.
Elas estão fugindo do meu abrigo escuro.
Tudo preenche-lo tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solidão que ocupas,
e estão mais do que tu acostumadas à minha tristeza.
Agora quero que digam o que quero dizer-te
para que tu as oiças como quero que me oiças.
O vento da angústia costuma arrastá-las.
E às vezes derrubam-nas furacões de sonhos.
Outras vozes escutas na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nesta onda de angústia.
Mas vão-se tingindo com o amor minhas palavras.
Tudo ocupa-lo tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas brancas mãos, suaves como uvas.
Pablo Neruda
Tradução A.M.
minhas palavras adelgaçam-se às vezes
como o rasto das gaivotas na praia.
Colar, ébrio cascavel
para tuas mãos suaves como uvas.
E miro-as, longínquas, minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
E trepam pela minha dor como a hera.
Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
És tu a culpada desta brincadeira sangrenta.
Elas estão fugindo do meu abrigo escuro.
Tudo preenche-lo tu, tudo preenches.
Povoaram antes de ti a solidão que ocupas,
e estão mais do que tu acostumadas à minha tristeza.
Agora quero que digam o que quero dizer-te
para que tu as oiças como quero que me oiças.
O vento da angústia costuma arrastá-las.
E às vezes derrubam-nas furacões de sonhos.
Outras vozes escutas na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nesta onda de angústia.
Mas vão-se tingindo com o amor minhas palavras.
Tudo ocupa-lo tu, tudo ocupas.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas brancas mãos, suaves como uvas.
Pablo Neruda
Tradução A.M.
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