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A um mirto

Nascido antes de Cristo
uma vez mais floriu
o velho e agora jovem mirto.

Junto ao poço as suas fundas raízes
e o mesmo vivo, sempre generoso
aroma das folhas; o tronco
torturado por nodosas chagas,
cavernas, golpeado de musgo e cobre,
mas com baixos, com tenazes rebentos.

Quantos ali perdeste, quantos
se amaram à tua sombra?
Alguém como eu acaso te beijou?
Quantos passos em volta? Quanta chuva
desejou o Romano que para aqui te trouxe?
E a quantas exalações da vida assististe
como muda testemunha, ó corpo mediterrâneo
sobrevivente a tantos tantos deuses mortos?



António Osório

Ressurreição de leopoldo panero

A José Bento

vendados sus ojos,
espera la resurrección de la carne
aqui, bajo esta piedra.
Leopoldo Panero
I

Não, Panero, não creio
na ressurreição da carne.
Não esperes debaixo dessa pedra:
Deus teve sempre a face
de um homem incorruptível
lutando contra os seus demónios.
Lázaro, que tudo soube e nada
disse, jaz a teu lado.

É melhor restituir aos outros
os nossos quinze anos,
a esperança de que sejam luminosos
e sobrevivam, como sementes de luzerna,
e escrever, como tu, versos
que detinham o fogo e a neve divinas
e amá-los como se neles
resplandecessem ainda os teus olhos
e a fé que os abrasava, limpos de cinza.

II

E contudo, Panero, desejaria
matar-te a sede com um favo de mel,
com hortelã e funcho despertar-te o olfacto,
a vista com os olhos que amavas, azuis,
o tacto com a própria pele, recém-nascida.

Desejaria, sim, pudesses dizer
que presenciaste a transfiguração
do Deus dos mortos em Deus dos vivos
e que Ele sofreu mais que o Filho
para sair do sepulcro, e te ungiu
os ossos purificando a íntima lepra,
e que a tua alma penetrou no corpo
como a primavera dentro de um ninho.



António Osório
A ignorância da morte
Edição do autor, 1978