Faço-te o relato destas coisas agora,
quando todos estão mortos.
Quando já somente a memória
é rio, colheita, solitária espuma de pátios,
trinados que se desfazem ao calor
enquanto doces mulheres
falam debaixo das folhas, pela tarde,
diante de tachos de orégão.
Agora tudo é longínquo
pois foi caindo de nós brandamente
como um pouco de areia da mão.
Agora escutas talvez, quiçá sonhas.
Inventas talvez esse duro monte
sacudindo na erva seu relincho.
Ou segues, por um fio de lua,
o odor que te conduz aos velhos baús,
ao armário, ao retrato do tio,
o dos bigodes de cigano e olhos de anjo,
o que pestaneja com secreta delícia
quando tu, doce irmã e minha mãe,
punhas a lâmpada
frente às frutas e aos pratos de arroz,
o que morreu num domingo, lembras-te?
Falo-te da memória,
os quartos, os móveis e os cochichos na memória.
Do modo como o vento
roçava os arcos da sala
e fazia gemer os corpetes e os lenços no arame,
de quando o mar, disfarçado de vento, quando o fumo.
Falo-te do mundo, do tempo neste mundo.
De dias que arderam como finas moedas
(rostos nítidos, com luz, com luz furiosa e viva,
vestidos que cobriram amados corpos, que nos cobriram,
semanas cheirosas a erva-cidreira)
falo-te de então.
Héctor Rojas Herazo
Las úlceras de Adán
(1995)
Tradução A.M.
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Uma lição de inocência
Van Gogh pintou uma vez
o retrato do mundo.
Estava lá tudo:
as flores que se abrem
e as portas que se cerram,
os dias de pranto
e os dias de ouro
os carreiros e os sonhos,
os ramos e as pombas.
Também um menino
olhando para dois amantes
e também a hora do nascimento
e da morte de cada homem.
Para fazer esse retrato, Van Gogh
teve só que pintar uma cadeira.
Hector Rojas Herazo
Tradução A.M.
o retrato do mundo.
Estava lá tudo:
as flores que se abrem
e as portas que se cerram,
os dias de pranto
e os dias de ouro
os carreiros e os sonhos,
os ramos e as pombas.
Também um menino
olhando para dois amantes
e também a hora do nascimento
e da morte de cada homem.
Para fazer esse retrato, Van Gogh
teve só que pintar uma cadeira.
Hector Rojas Herazo
Tradução A.M.
um agulheiro
Perguntei ao tendeiro gordo,
muito sério:
- Ó senhor, o senhor é Deus?
E vai ele assim,
cortando pedacinhos de presunto,
enquanto lhe amortecem
os olhos pouco a pouco:
- Não, eu cá não sou Deus, mas conheço-o.
- Como é que ele é? – pergunto.
E ele então responde-me: - É assim.
E dá-me o tamanho, o peso, as medidas.
Héctor Rojas Herazo
Tradução A.M.
muito sério:
- Ó senhor, o senhor é Deus?
E vai ele assim,
cortando pedacinhos de presunto,
enquanto lhe amortecem
os olhos pouco a pouco:
- Não, eu cá não sou Deus, mas conheço-o.
- Como é que ele é? – pergunto.
E ele então responde-me: - É assim.
E dá-me o tamanho, o peso, as medidas.
Héctor Rojas Herazo
Tradução A.M.
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