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Circe esgrime um argumento

Se voltares, Ulisses,
encontrarás em Ítaca uma mulher cobarde:
Penélope olheirenta
que afanosa e sem o saber
tece e destece uma mortalha
para o amor. Pretende
agarrar-se e agarrar-vos ao eterno.
Se voltares
para um destino mais infame ainda
que este que eu te ofereço
teu fim aproximas retornando ao seu encontro.
Mais inimigo do amor e da vida
que meus venenos
é esse matrimónio, vil clausura.

Fica, Ulisses: antes porco.


Silvia Ugidos
Tradução A.M.

Possível auto-retrato

Eu sempre quis ser uma mulher de bem,
alguém útil, excelente e resolvida,
contida nas fobias, estável nos afectos,
brilhante nos estudos, só para dar um exemplo.


Eu sempre quis ser uma mulher de bem
e fazer todos felizes e contentes,
a meus pais e amigos, a fulano e cicrano,
a um lado e a outro…


Mas há em mim alguém que tudo estropia,
que torce os caminhos, baralha as coisas,
desbarata-me os planos, incumpre-me as promessas.
Alguém que pisa antes de mim o meu próprio rasto.


Enfim, visto o dito, já dizem meus pais:
“por este andar, filha, não hás-de chegar a nada”.
Está bem, fico a dever, lamento, confesso:
não sou como Farala, a outra do anúncio.


Sonhadora, insegura, mitómana, um pouco vaga,
com vocação de formiga e verão de cigarra,
contraditória e sempre a conciliar extremos,
em minha defesa alego


que quis sempre ser uma mulher de bem
mas em vez disso sou antes,
no bom sentido da palavra, má.


Silvia Ugidos

Tradução A.M.

os dias traidores

São esses que nos passam pelas mãos
com gestos quotidianos,
onde nunca acontece
nada mais senão a vida
com minúscula, quero dizer.
Os do chá com limão enquanto lá fora chove
e se fuma no café para passar a tarde,
os do regresso a casa pelas ruas do costume.
São os dias das coisas pequenas
que secretamente pactuam connosco
o peso dos anos.
Os dias traidores:
silenciosos, amáveis
são o futuro que pouco a pouco aproximam
o oculto abraço da morte
com a mesma doçura
com que os braços do amigo acolhem o meu cansaço.


Silvia Ugidos
Poesia Espanhola Anos 90
Relógio d’Água, 2000

circe esgrime un argumento

Si regresas, Ulises,
encontrarás allí en Ítaca una mujer cobarde:
Penélope ojerosa
que afanosa y sin saberlo
le teje y le desteje una mortaja
al amor. Ella pretende
aferrarse y aferrarnos a lo eterno.
Si regresas
hacia un destino más infame aún
que éste que yo te ofrezco
avanzas si vuelves a su encuentro.
Más enemigo del amor y de la vida
que mis venenos
es vuestro matrimonio, vil encierro.

Quédate, Ulises: sé un cerdo.


Silvia Ugidos
Las pruebas del delito
Dvd Ediciones, 1997

del miedo

Quando eu era pequena
o medo esperava-me todas as noites
debaixo da cama na hora de dormir,
bastava então
a súplica infantil dum copo de água
para sentir os passos de meu pai
no corredor
trazendo o talismã seguro de afastar fantasmas
e os monstros já não se atreviam
a sair do armário
nem a luz da lâmpada dava para projectar
sobre a colcha a sua sombra macabra
e atrás das cortinas o homem do saco
fazia-se pequeno, pequeníssimo, até desaparecer.


Agora o medo assedia-me em todo o lado
não respeita os ritos
e aparece sempre quando menos o espero
sussurando que nada dura eternamente
com a voz de um morto que volta ao meu sonho
pedindo-me um copo de água.



Silvia Ugidos
La Generación del 99
Ediciones Nobel, 1999
Tradução Albino M.

posible autorretrato

Yo siempre quise ser una mujer de bien,
ser alguien de provecho, valiente, emprendedora,
mesurada en las fobias, estable en los afectos,
brillante en los estudios, por poner un ejemplo.

Yo siempre quise ser una mujer de bien
y tenerlos a todos felices y contentos,
a mis padres y amigos, a Fulano y a Mengano,
a Diestro y a Siniestro…

Pero hay alguien en mí que todo lo estropea,
que tuerce los caminos, equivoca las cosas,
desbarata mis planes, incumple mis promesas.
Alguien que pisa antes que yo sobre mis huellas.

En fin, visto lo visto, ya lo dicen mis padres:
“a este paso, hija mía, no llegarás a nada”.
Está bien, os lo debo, lo siento, lo confeieso:
aludiendo a un anuncio, no soy como Farala.

Soñadora, insegura, mitómana, algo vaga,
con vocación de hormiga y verano de cigarra,
contradictoria y harta de conciliar extremos
en mi defensa alego

que siempre quise ser una mujer de bien
pero que en su defecto
soy, en el buen sentido de la palabra, mala.



Silvia Ugidos
La Generación del 99
Ediciones Nobel, 1999

traçado urbanístico

Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho - primoroso e com laço-
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
inciveis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam- como vulgares comerciantes-
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.


silvia ugidos


In Joaquim Manuel Magalhães,
Poesia Espanhola: anos 90,
Lisboa, Relógio D'Água, 2000