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13.

Não temas sem mim, não chores
mais, não queiras que levem os olhos
a essa noite vã.
Há que suster o passo em segredo,
colher uma só semente do centeio,
deixar que o dia nos assombre com uma palavra só.
Acredita que mesmo longe
guardamos a solidez em que nos
esperávamos
como se soubéssemos ainda toda a esperança.
Acredita que com três passos só
retomaremos a candura
e um anjo ainda
tornará discretamente longa a nossa ausência.



Rui Coias
A Função do Geógrafo
Quasi Edições, 2000

25.

Este é um recado de amor, do possível esquecimento.
Agora os olhos não crêem mais na certeza de chegarem ao
fim, ao mar esfumado dos bordos da ilha,
o imperecível canto da alma.
Como o estrangeiro vigiando do rochedo a ondulação das marés,
sabendo chegado na espuma o fim da procura,
eis chegado o momento de recostar as mãos
e situar o túmulo.



Rui Coias
A Função do Geógrafo
Quasi Edições, 2000
Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga “estremeci
durante anos sem te abraçar.” Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
“Passei a vida a fugir para a tua boca,” e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.



Rui Coias
A Função do Geógrafo
Quasi Edições, 2000

5

Estreita o passo ao avistares a encosta dos rios.
Da nascente ao vale nunca saberás o que acontece.
Louva os rios inertes subindo um a um aos afluentes
- alastra os teus lamentos pela margem.
Recordarás os cisnes na estação da lama fria,
e o seu despovoado rumo sobre os campos.
E se o segredo dos rios te fizer chorar
regressarás por fim pelos campos
inundados
como os cisnes tão solitariamente rumando
rio abaixo.



Rui Coias
A Função do Geográfo
Quasi edições, 2000

15

Nada existe que não tivesse começado.
Mesmo na lonjura, decisiva porção iluminada,
em territórios despojados de todo o fim, em
areais de mares a desaguar desconhecidamente,
mais não olhamos senão a extensão do que vimos.
Se campos da livónia vão dar a campos da mazúria,
se mosaicos amaciam na água de banhos mornos,
e além houver só cemitérios seguindo cemitérios, e
a meio deles, parado sem vento, o bosque de bétulas,
se o sol é o lume do azeite a esmiolar o pão
ou o clarão lascado nas muralhas de helsingor,
se o enredo da morte é igual em toda a parte,
seja na flauta de santa maria ou no gaiteiro de tallinn,
é porque modulamos num lugar o que lastrou de outro.
Mesmo sem querer, ou sejam sombras afastando-se,
mais não tecemos que a linha de acasos e acertos
que uma corrente conduz, a cada um, em separado,
à passagem mais sensível do acabamento.
Mesmo isolando os lugares numa função laboriosa,
detalhando as suas divergências, e as pontas extremas
- a parecença entre o que são e o que pensámos serem,
mesmo nas regiões cruzadas por comboios extensos,
onde a noite cairá em escamas de lavanda,
seguiremos a mesma história - afundamos os pés no mesmo solo.
Naquilo por que vamos repetidamente levados,
ansiando o que se manifeste acolá na próxima enseada,
alisando com a mão os castanheiros onde inscrevemos, depois
de outros, nossos sinuosos nomes, nossos amores,
sempre tornamos ao ponto em que tudo se repete e inicia,
de que atingimos apenas um minuto só - um instante,
a lâmina que medeia o ano que passa e o ano que vem.



Rui Coias

A Ordem do Mundo
Quasi Edições, 2005

22

Dizia
que viajar é poder partir-se para o lugar
em frente,
que cada lugar só impressiona porque sugere
a visibilidade do próximo.
E que no fim, quando abandonamos tudo
e já não ouvimos senão o repique dos sinos,
as paisagens deixam de existir para não
passar do que a respiração liberta.
"O que nos conduz é podermos sepultar o
corpo noutro lugar;
porque em todos os sítios passados deixámos o corpo
à vista do lugar mais próximo".
Percebi, sem que mostrasse algum temor,
que havia descoberto a transparência do mundo,
que fora auxiliado pela face
suspensa dos viajantes.
E lembrei-me como o tempo havia de ensinar,
desde a juventude à velhice,
que onde a beleza assola habituamo-nos a uma pausa nos
olhos, nas mãos e nos olhos que são o que nos diz do
pouco do que nos fica sempre.



Rui Coias
A Função do Geógrafo
Quasi Edições, 2000