Bestas de carga atravessam o planalto da linguagem
mudas, de olhos fechados, indefesas face à atracção
do abismo. Que sabem elas dos segredos da poesia?
Da exigência de novidade absoluta que aguenta
qualquer certeza do nosso espírito?
Diante do enigma, eis como nos definimos:
perscrutadores de longo curso,
cansados da vida percorrer
para descobrir no passado
algum sentido. As morsas,
na praia, já há muito se retiraram -
e as correntes cobriram-se de folhas
que lhes permitem suportar
o seu destino. Entretanto
estranhas árvores crescem-
-nos nos pulmões: grainhas
que alguém lançou ao vento
para que uma mão
as confunda no crepúsculo.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun editores, 1998
Mostrar mensagens com a etiqueta fernando guerreiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fernando guerreiro. Mostrar todas as mensagens
Descida da montanha - a vista do lago
A poesia abandona-nos já sem abrigo no cimo
da montanha onde, de tanto subir, a alma se
confunde nas palavras com o fungo dos rochedos.
E no entanto, a perspectiva não nos impede
de cair ao olhar as camadas de nuvens que,
no espaço, servem de túmulo à Natureza.
Que morto, então, nos vem despertar
com o seu sopro, espalhando memórias
de poemas pelas águas do lago
que os empurram para o fundo
com o seu lastro de sombras?
Na boca gelam-nos florações
não articuladas de palavras -
destroços de imagens que
as correntes arrastam
violentamente,
com o entulho das folhas,
para a planície ártica
da literatura.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun editores, 1998
da montanha onde, de tanto subir, a alma se
confunde nas palavras com o fungo dos rochedos.
E no entanto, a perspectiva não nos impede
de cair ao olhar as camadas de nuvens que,
no espaço, servem de túmulo à Natureza.
Que morto, então, nos vem despertar
com o seu sopro, espalhando memórias
de poemas pelas águas do lago
que os empurram para o fundo
com o seu lastro de sombras?
Na boca gelam-nos florações
não articuladas de palavras -
destroços de imagens que
as correntes arrastam
violentamente,
com o entulho das folhas,
para a planície ártica
da literatura.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun editores, 1998
Horror
2.
A criança, quando chora, não compreende que
nas suas lágrimas o que se derrama é o espaço
frio em que a esperança de vida já não flutua.
Assim, se se aproxima da mesa mantém-se
calada, atenta ao sentimento do horror que
do fundo da experiência em si se desprende.
E pergunta-se: o que é o sofrimento? Não
sabe, e no entanto com que restos de imagens
compõe o quadro? Que sobraria da paisagem
se ouvido o lamento nenhum fantasma viesse
para nos receber, cruzando com as asas
um capo de nenúfares? A imensidade
da alma então gela-se por dentro: deixando
que a água invada os claustros, para que
arrefeçam de medo os reflexos das nuvens.
Fernando Guerreiro
Grotesco
Black Sun Editores, 2000
A criança, quando chora, não compreende que
nas suas lágrimas o que se derrama é o espaço
frio em que a esperança de vida já não flutua.
Assim, se se aproxima da mesa mantém-se
calada, atenta ao sentimento do horror que
do fundo da experiência em si se desprende.
E pergunta-se: o que é o sofrimento? Não
sabe, e no entanto com que restos de imagens
compõe o quadro? Que sobraria da paisagem
se ouvido o lamento nenhum fantasma viesse
para nos receber, cruzando com as asas
um capo de nenúfares? A imensidade
da alma então gela-se por dentro: deixando
que a água invada os claustros, para que
arrefeçam de medo os reflexos das nuvens.
Fernando Guerreiro
Grotesco
Black Sun Editores, 2000
Grotesco
1.
Perdido o sentido do abismo, os monstros passeiam-se
pelos reservatórios de plástico que nos seus pátios antigos
ainda pululam. Qualquer conhecimentos dos fenómenos,
no entanto, é nulo e pelos terrenos cavernosos que nos
encaminham para o centro, reconhecemos os pormenores
que nos revelam que todo o pensamento ético termina
numa súplica. Poder-se-ia ter ido mais longe? Lançado
o olhar à terra, com a convicção de que o destino se cumpre
sempre muito a custo?! Se se pensa, é sempre do mal
que se lança a semente, acreditando que o vento
por fim nos liberta do calor tórrido que nos assusta.
Assim, é debaixo das palavras que o sentimento
apodrece - tal como as árvores de que os corvos se erguem
manchando de Sol as trevas em que agora se fina um agoniado
___________________________________crepúsculo.
Fernando Guerreiro
Grotesco
Black Sun Editores, 2000
Perdido o sentido do abismo, os monstros passeiam-se
pelos reservatórios de plástico que nos seus pátios antigos
ainda pululam. Qualquer conhecimentos dos fenómenos,
no entanto, é nulo e pelos terrenos cavernosos que nos
encaminham para o centro, reconhecemos os pormenores
que nos revelam que todo o pensamento ético termina
numa súplica. Poder-se-ia ter ido mais longe? Lançado
o olhar à terra, com a convicção de que o destino se cumpre
sempre muito a custo?! Se se pensa, é sempre do mal
que se lança a semente, acreditando que o vento
por fim nos liberta do calor tórrido que nos assusta.
Assim, é debaixo das palavras que o sentimento
apodrece - tal como as árvores de que os corvos se erguem
manchando de Sol as trevas em que agora se fina um agoniado
___________________________________crepúsculo.
Fernando Guerreiro
Grotesco
Black Sun Editores, 2000
Caminho de regresso
A poesia permite que as palavras destrincem
da linguagem e que a natureza, de tão vista,
se retire da luz que cai em cheio sobre a pintura.
Sendo assim, se os sinos dobram na linguagem,
the hearse and the solemn tolling of the bell,
será por aquele que, na contemplação do exterior,
perdeu já a quietude que autoriza o seu uso.
Para quem escreve, o belo nunca é um dado
adquirido da linguagem: a palavra, inclusive,
repele-o e só o admite se ele aceita o paradoxo
do seu estatuto. Porque a poesia não passa
de uma máquina de triturar a paisagem:
moldura de sangue em que nunca nos vemos
sem nos interrogarmos de onde ele vem,
se das rugas do rosto ou das cavernas do discurso.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun Editores, 1998
da linguagem e que a natureza, de tão vista,
se retire da luz que cai em cheio sobre a pintura.
Sendo assim, se os sinos dobram na linguagem,
the hearse and the solemn tolling of the bell,
será por aquele que, na contemplação do exterior,
perdeu já a quietude que autoriza o seu uso.
Para quem escreve, o belo nunca é um dado
adquirido da linguagem: a palavra, inclusive,
repele-o e só o admite se ele aceita o paradoxo
do seu estatuto. Porque a poesia não passa
de uma máquina de triturar a paisagem:
moldura de sangue em que nunca nos vemos
sem nos interrogarmos de onde ele vem,
se das rugas do rosto ou das cavernas do discurso.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun Editores, 1998
Vento do Sul
Só a febre consegue explicar a insolência
com que erguemos muros diante do que,
no exterior, não recebeu ainda o título
prestigioso de literatura. Um vento seco
então bate no dicionário e encarquilha
as folhas, sem permitir que o pensamento
se estenda pelos baixios que descobre
na paisagem o tempo lento da leitura.
Esquecemo-nos já de como era difícil
inventar uma linguagem de sombras
em que se restabelecesse o rosto
luminoso da literatura? Felizmente
que o mundo se reconstitui
nas pausas do vento, obediente
ao ritmo que lhe vem de longe,
do reflexo cansado de planura.
Nas montanhas, as pastagens
reverdescem abandonadas-
e só os corvos reconhecem
nos esqueletos o vestígio
extinto de uma estranha
forma de poesia.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun Editores, 1998
com que erguemos muros diante do que,
no exterior, não recebeu ainda o título
prestigioso de literatura. Um vento seco
então bate no dicionário e encarquilha
as folhas, sem permitir que o pensamento
se estenda pelos baixios que descobre
na paisagem o tempo lento da leitura.
Esquecemo-nos já de como era difícil
inventar uma linguagem de sombras
em que se restabelecesse o rosto
luminoso da literatura? Felizmente
que o mundo se reconstitui
nas pausas do vento, obediente
ao ritmo que lhe vem de longe,
do reflexo cansado de planura.
Nas montanhas, as pastagens
reverdescem abandonadas-
e só os corvos reconhecem
nos esqueletos o vestígio
extinto de uma estranha
forma de poesia.
Fernando Guerreiro
Outono
Black Sun Editores, 1998
Subscrever:
Mensagens (Atom)